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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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WIKILEAKS E A LIBERDADE DE EXPRESSÃO (*) 25/03/2010 No plano mundial, o
acontecimento mais sensacional de 2010 foram as revelações do site WikiLeaks sobre os subterrâneos
da diplomacia norte-americana. Desde o início a imprensa tradicional, os overnos e suas burocracias e a gente do establishment torceram o nariz, vendo a
ação daquele site como algo próximo do ato criminoso. Afinal, um obscuro site
de notícias, administrado por um sujeito, Julian Assange, apresentado como alguém problemático, às voltas
com a justiça da Suécia, desferiu um golpe decisivo nos segredos da
burocracia militar e diplomática do EUA, afetando todos os governos
interlocutores ao redor do mundo. Nem o mais treinado espião havia conseguido
um feito dessa envergadura, pelo se sabe. Apenas parte do material foi dada a
público, havendo a expectativa de que o material disponível não divulgado
pode trazer revelações ainda mais importantes. Apesar dos narizes torcidos e
da tentativa judicial de constranger o diretor-executivo do WikiLeaks, penso que o mundo
ficou mais seguro e as liberdades foram ampliadas com os fatos vindos a
público, mesmo que saibamos que apenas os habitantes do chamado mundo livre
(exclui-se China, Cuba, países islâmicos e ditaduras do estilo africano)
possam usufruir dessa fonte borbulhante de informações estratégicas em que o
jornal eletrônico se tornou. É direito de
jornalistas manterem suas fontes em segredo, e os maiores furos jornalísticos
são exatamente produto dessa cumplicidade inviolável, essencial à sociedade
aberta e à liberdade de informação. Imaginar liberdade de imprensa sem
proteção das fontes é tolice, que atenta contra a liberdade de informação e
contra os próprios fundamentos da sociedade aberta. Visto desse ângulo, Assange não teria cometido crime algum, mesmo que se
recusasse a dizer de onde retirou as informações. É um direito natural o
acesso livre à informação por parte da imprensa legitimamente constituída.
Mas a fonte, no caso em tela, é bem sabida. O material vazou de uma base
militar norte-americana e teria sido responsabilidade de Bradley
Manning, um jovem soldado que está detido, suspeito
de ter passado os documentos ao WikiLeaks,
uma vez que ele tinha acesso ao servidor, como analista. Manning
pode ter cometido um crime, mas não Julian Assange.
Este não está sujeito ao regulamento militar e nem sequer às leis
norte-americanas. Claro que aqui se coloca qual o limite ético da liberdade
de informação. Eu digo: não há limite, desde que não se coloque em risco a
vida, a propriedade e a honra de pessoas isoladas. Governos, por definição,
nem deveriam ter segredos, e se os têm devem fazer por onde não revelá-los,
por seus próprios meios. Ao jornalismo investigativo não compete o trabalho
de ocultação de fatos. É seu dever trazê-los ao público da forma mais rápida
e clara possível. Entendo ser esse o compromisso da imprensa para com a
sociedade aberta. Comungo da tese de
que o Estado deve ser mínimo, de acordo com a filosofia política que adoto.
E, para que o Estado seja mínimo, mínimos devem ser seus segredos, que mais
das vezes conspiram contra os súditos do próprio país, e a liberdade de
imprensa existe precisamente para ser o antídoto ao autoritarismo estatal.
Estado mínimo, segredo mínimo. A burocracia militar e diplomática exponencia seu poder exatamente pelo expediente do
segredo. O jornalismo investigativo contrabalança esse poder espúrio. Crucificar Julian Assange, como têm feito os
governos dos EUA e de certos países europeus, configura um crime contra a
liberdade de expressão. Penso que Assange assumiu
grandes riscos pessoais ao levar o seu trabalho às últimas consequências, de forma corajosa. Ele precisa ter a
defesa da opinião pública. O que vemos aqui é o desespero da burocracia
estatal empregada no meio militar e diplomático – ela falhou clamorosamente!
– querendo impor a sua própria lógica de interesses, confundindo-os com os
interesses gerais da coletividade. Isso é falso e perigoso, e uma lógica
assim coloca em risco os fundamentos da sociedade aberta. Se essa burocracia
quer manter segredos, que os guarde direito e não queira transferir sua
responsabilidade a terceiros. Afinal, ela é muito bem paga para isso. Assange é um homem da era da informação tornada pública
em tempo real; a burocracia estatal está no tempo dos segredinhos bem
guardados, do cochicho de pé de orelha, aos moldes da primeira metade do
século XX. Ora, já vivemos o tempo em que a própria existência de
embaixadores permanentemente sediados deixou de ser uma necessidade
operacional, revelando-se uma peça de museu diplomático, necessitando ser
extinta. Com os atuais meios de transporte e comunicação, manter essa vasta
burocracia não passa de puro e simples desperdício de recursos, um gigantesco
cabide de empregos inúteis. Essa é uma das mais
visíveis consequências do brilhante trabalho que a
equipe do WikiLeaks tem
feito. Os dinossauros da diplomacia precisam ser extintos, pondo-se em seu
lugar as modernas tecnologias da informação e do transporte, com
profissionais que ao menos saibam guardar segredos. É claro que a
primeira e principal vítima de agentes como Julian Assange
e o WikiLeaks são os EUA,
precisamente porque lá vigora a máxima expressão histórica da sociedade
aberta. Os efeitos, todavia, da ampla divulgação dos documentos de forma
alguma se restringiram àquele país. De fato, afetaram todos os países que
mantêm relações diplomáticas com os EUA. Por isso Assange
conseguiu ser objeto do ódio de praticamente todos os governantes. Em recente artigo
autobiográfico (“Não Matarás”, encontrado no site do WikiLeaks do Brasil), Julian Assange
escreveu: “Em 1958 o jovem
Rupert Murdoch, então proprietário e editor do jornal The
News, de Adelaide, escreveu: ‘Na corrida entre o
segredo e a verdade, parece inevitável que a venda sempre vença’. A sua
observação talvez reflita o desmascaramento feito pelo seu pai, Keith
Murdoch, de que tropas australianas estavam sendo sacrificadas inutilmente
nas praias de Galípoli por comandantes britânicos
incompetentes. Os britânicos tentaram calá-lo, mas Keith Murdoch não foi silenciado e os seus esforços levaram ao término da
desastrosa campanha de Galípoli. Aproximadamente um
século depois, WikiLeaks está também publicando
destemidamente fatos que precisam ser tornados públicos. Criei-me numa cidade
rural em Queensland, onde as pessoas falavam dos
seus pensamentos diretamente. Elas desconfiavam do governo como de algo que
podia ser corrompido se não fosse vigiado cuidadosamente. Os dias negros de
corrupção no governo de Queensland antes do
inquérito Fitzgerald testemunham o que acontece quando políticos amordaçam os
media
que informam a verdade. Essas coisas ficaram em mim. WikiLeaks
foi criado em torno desses valores centrais. A ideia,
concebida na Austrália, era utilizar tecnologias da Internet de novas
maneiras a fim de relatar a verdade”. Quem discordará de Assange? Eu vou além: o poder dos Estados nacionais
atualmente é tamanho e os meios de destruição de massa tão apocalípticos que,
se resta aos comuns algum instrumento para influir nas decisões da burocracia
estatal, é a existência de uma imprensa livre e desembaraçada de qualquer
compromisso com os governantes de qualquer parte do mundo. Por isso são muito
significativas as declarações dadas por Julian Assange
ao jornal O Estado de São Paulo, publicadas em 22 de dezembro último:
“Transparência é para governos. Não para indivíduos. O objetivo de revelar
informações sobre pessoas poderosas é cobrar responsabilidade delas” . Quando mais a
burocracia for detentora de segredos, mais poderá praticar o mal de forma
desimpedida e desprovida de qualquer forma de controle social sobre suas
ações. Não podemos nos esquecer de que apenas uma pequena parcela do poder
hoje em dia está na mão dos governantes eleitos. O verdadeiro poder está nas
mãos da burocracia profissional, cuja única lógica de movimento é alargar seu
próprio poder, corporativo e pessoal. Esse mecanismo tem sido a tônica desde o início do século
XX. Receio ter que dizer que a representação nas modernas sociedades é uma
grave distorção. Como o voto popular se tornou uma inutilidade enquanto
instrumento de controle
da burocracia governante, que se multiplica a si mesma ao belprazer,
restou apenas a ação desimpedida de agentes como Julian Assange
para pôr um limite ao poder de Estado. Por isso a ação de Assange
tem uma face heróica. Não ao acaso Julian Assange
se queixou amargamente, no artigo citado, do papel do governo australiano,
que jamais o defendeu contra o imperialismo do governo Obama: “E os
australianos deveriam observar com nenhum orgulho o deplorável estímulo a
esses sentimentos por parte de Julia Gillard e seu
governo. Os poderes do governo australiano parecem estar à plena disposição
dos EUA, quer para cancelar meu passaporte australiano ou espionar ou
perseguir apoiantes do WikiLeaks. O procurador-geral australiano está
fazendo tudo oque pode para ajudar uma investigação
estadunidense destinada claramente a enquadrar cidadãosaustralianos
e despachá-los para os EUA. O primeiro-ministro Gillard
e a secretária de Estado Hillary Clinton não tiveram uma palavra de crítica
para com as outras organizações de media.Isto acontece porque The Guardian, The New York Times e Der Spiegel são antigos e grandes, ao passo que WikiLeaks ainda é jovem e pequeno. Nós somos os
perdedores. O governo Gillard está tentando matar o
mensageiro porque não quer que a verdade seja revelada, incluindo informação
acerca do seu próprio comportamento diplomático e político”. Assange combate o bom
combate e está na trincheira mais eficaz na luta contra o Estado-mamute: a
produção de conteúdo informativo de alta qualidade, até então reservado
apenas aos burocratas do poder. Graças aos meios da internet e das novas
tecnologias as pessoas conscientes podem agora estar a par da hipocrisia, dos
crimes e das conspirações que essa gente pratica todos os dias, sem mandato
para isso. (*) Publicado
originalmente na revista Banco de Idéias, do Instituto Liberal do Rio de
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