NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado


 

 

WALT WHITMAN

FOLHAS DE ERVAS

20/01/2007

 

Escrever sobre poesia não é tarefa das mais fáceis. Sempre preferi falar dela, recitá-la, deleitar-me na sua leitura a analisá-la. Saí em férias com o grosso volume da tradução portuguesa do FOLHAS DE ERVA (tradução de José Agostinho Baptista, Editora Assírio & Alvim, Lisboa, 2003), do grande poeta norte-americano Walt Whitman para momentos de puro lazer, deixando de lado tudo, a própria Internet, o trabalho, a política, a economia, o telefone celular... Eu havia lido poemas esparsos do autor, sempre um encanto. E muitas opiniões laudatórias de todos os críticos, especialmente de quando ocorreu, há dois anos, o sesquicentenário da publicação da obra original.

 

Desde o primeiro poema fui tomado como que por um raio. O lírico e o épico misturados de uma forma que cativou a minha alma. Sua temática, como a temática de qualquer grande artista, tinha que tratar do conteúdo religioso. Não me surpreendeu com isso, me encantou. Mas seus temas nada têm de religiosos em si, em paradoxo. O religioso é seu pano de fundo, seu rizoma, o magma do qual brota sua inspirada poesia. E, como tudo que trata do religioso, contém em si o escândalo, o Inefável e o Nefando. Fiquei enternecido em alguns momentos e, em outros, boquiaberto e francamente agredido. Que força! Que eloqüência! Enfim achei um escritor que me impressionou como o fez Nietzsche. E, como ele, me obrigou a pensar o poético como uma forma de tratar do conteúdo transcendental da existência.

 

Whitman está para a América como Nietzsche está para Alemanha. Ambos são os cantores da emergência do Mal, a expressão poética da modernidade em sua dimensão mais completa.

 

Desde logo preciso dizer o que entendo para que serve a grande arte em geral e a poesia em particular. Sem uma base teorética clara não há como entender esse autor, como, aliás, nenhum outros. Há três maneiras alternativas de se ver o conteúdo de uma obra dessa envergadura: 1- Vendo-a como resultado da História, como quer a tradição marxista, em que a poesia não passa da cristalização estética das relações de classes sociais, das relações de poder das classes; 2- Vendo-a como a manifestação autônoma da Estética, na linha de Schiller e Harold Bloom, autor que procurarei aqui confrontar; e 3- Vendo a arte como a manifestação do Espírito no sentido que Jung deu ao termo, entendido como tudo que é conteúdo do Inconsciente ou, como prefiro, tudo que é metafísico.

 

A obra de Walt Whitman só pode ser adequadamente compreendida nesse contexto metafísico e cada verso que a compõe é a manifestação da agonia de uma alma que enxergou além de seu tempo e deu voz a uma força que em Nietzsche foi chamada de Zaratustra, figura que nunca foi um mero personagem literário, mas a fonte geradora que ditava boa parte do que o poeta alemão escrevia.

 

Arte é forma, mas é também substância, conteúdo. Whitman foi um desbravador da forma, sendo a ele atribuído a invenção do verso livre que tanta força estética alcançou desde então. Mas ele foi também o profeta do Novo Mundo, tanto no sentido estrito, do mundo americano, como no sentido figurado, o Novo Homem que surge com o advento da modernidade, o profeta do EU esvaziado da tradição, do demiurgo que se propõe a aperfeiçoar a criação, esse EU que quer suplantar o próprio Criador.

 

Essa será a minha aventura nos próximos textos que seguirão.

 

 

II

 

WALT WHITMAN

21/01/2007

 

Há um outro poeta, além de Nietzsche, que ombreia com Walt Whitman em me causar espanto e em me provocar estranhezas: Fernando Pessoa. Este procurou seguir as pegadas do norte-americano e chegou a lhe escreve um poema laudatório (Saudação a Walt Whitman). Pessoa, todavia, era português demais, cristão demais, medieval demais para cantar o Mal com tanta força como o fez seu ídolo. Talvez nunca tenha se dado conta disso.

 

Fernando Pessoa cantou um Império que se esfumou no tempo; Whitman cantou o Império que estava a se construir. Separa-os um abismo, o Tempo. Une-os o verso livre e fica nisso. A forma é o elo entre ambos, não o conteúdo. Talvez por isso seja Pessoa o poeta que mais fala à minha alma. Quanta ternura, quanto lirismo! Cantar Portugal é como que cantar o Brasil. É um canto de mim mesmo. Em minha língua. No Brasil só encontro ressonância semelhante na obra Grande Sertão, Veredas, de Guimarães Rosa.

 

– x –

 

No poema de abertura (EPÍGRAFES) podemos ter um vislumbre do seu tema e a sua enorme confusão inaugural:

 

CANTO AO EU

 

Canto o Eu, a simples pessoa em si,

Mas pronuncio a palavra democrática, a palavra Massas.

 

Da cabeça aos pés canto a fisiologia,

Nem a fisionomia nem o cérebro por si sós merecem a Musa,

Digo que a Forma completa a merece mais,

Canto a Fêmea e o Macho por igual.

Imenso de paixão, pulso e poder,

Alegre, concebido para a ação mais livre sob a lei divina,

Canto o Homem Moderno

 

Evidentemente que o poeta, como se verá alhures, conhecia e muito bem o pensamento dos formadores da modernidade e surpreende a confusão que ele faz entre democracia e Massas (assim, em maiúscula). Essa confusão tornará o século XX que se aproximava o tempo das grandes tragédias, das grandes guerras como jamais houve. Nietzsche o pressentiu e de fato o sabia, sabia da miséria que a humanidade teria que viver. Em agonia antecipou em si e na sua obra o porvir que considerava grandioso. Whitman, nesse ponto, é mais ingênuo, mais americano: cantou essa confusão trágica como se algo de bom fosse.

 

E colocou o Eu como a elevação mais plena dos novos tempos. Nietzsche ao menos visualizava um suposto super-homem, um devir que viria com o tempo redentor. E suspeitava das Massas. Whitman não. Para ele estava tudo consumado. É possível o Eu sobreviver às Massas? Não, não é. O Indivíduo perece inexoravelmente à multidão, ao coletivo. O tempo que estava por vir negou os fundamentos morais da liberdade que Whitman pensava aclamar: a propriedade privada e as regras da sexualidade e da convivência entre os sexos advindas da tradição. E o controle do Indivíduo enquanto tal sobre a esfera política, sobre o Estado. As grandes destruições que viriam, em vidas, em cidades e em bens materiais, não podem ser comparadas em tamanho à perda da referência moral tradicional e do agigantamento do Estado. Uma perda que nesse momento em que escrevo parece definitiva, pois que vivemos o ocaso da civilização.

 

O mundo jamais seria o mesmo depois da explosão que foi a fusão (con-fusão) entre o Eu e as Massas. Fusão sugere a liquefação pela ação do calor, a queima que é o símbolo dos novos tempos. Socialismo e suas variações são a expressão da perda do sentido da propriedade privada; os desvios das aberrações sexuais que foram socialmente aceitas, inclusive o aborto que destrói as crias antes de nascer, são meras seqüelas visíveis da destruição do núcleo familiar. O agigantamento do Estado alcançou tudo, em toda parte. Não há mais vida alguma fora do controle do poder estatal nos tempos de hoje. Em suma, a ordem totalitária que é ela mesma a expressão da negação do Eu.

 

Cantar o Eu tragado pelas Massas é exaltar a trevalorização de todos os valores. É esse o cantar do Homem Moderno. Por isso Whitman poderia grafar no CANTO DE MIM MESMO o auto-erotismo infantil e ingênuo:

 

Estou apaixonado por mim, tanto de luxurioso há em mim,

Cada momento e tudo que acontece faz-me estremecer de júbilo

 

E, assim, confirmando o Eu como uma antecipação do super-homem nietszchiano, cunha um verso de extrema inflação:

 

Imenso de paixão, pulso e poder,

Alegre, concebido para a ação mais livre sob a lei divina

 

Lei divina? Lei divina alguma. Ele pensa que é “divino” porque para ele o Eu é divino, o substituto de Deus. Veremos que no CANTO DE MIM MESMO ele se identifica com a figura de Cristo em alguns momentos, e, em outros, faz o seu oposto. Mas um Cristo distorcido, gnóstico, trazido do Além para o Reino desse Mundo. Corretamente Harold Bloom identifica esse Cristo como uma espécie de culto ao Cristo Ressuscitado, um homem, encarnado no próprio poeta. Mas a seu tempo esmiuçaremos esse ponto, que é central para a compreensão da obra. Vê-se que a religião, a filosofia, a política, a estética e a poesia formam um todo. Não é possível separar pedaços de nada, sob pena de se perder o fio condutor.

 

Da cabeça aos pés canto a fisiologia,

Nem a fisionomia nem o cérebro por si sós merecem a Musa

 

Outra trágica confusão. O Eu não é o corpo. Corpo vivo não é igual a corpo morto e um abismo os separa. Whitman caiu na armadilha mais mortal que os pensadores que o precederam lhe prepararam. Seu canto é um canto fúnebre. Está escrito no CANTO DE MIM MESMO:

 

Tudo cresce e avança, nada se detém,

E morrer é diferente do que se pensava, e mais afortunado.

 

III

 

WALT WHITMAN

23/01/2007

 

Nos comentários anteriores eu escrevi que Walt Whitman cantou o Mal dos tempos modernos. E em que consiste esse Mal? Em primeiro lugar, na negação da Tradição, no extermínio da verdade cristã que presidiu a Europa e o Mundo por dois mil anos, em luta ativa contra a verdade da Salvação. Os tempos modernos registram a emergência do Negador, que frequentemente, nas letras e na filosofia, tomou a forma de um retorno ao imaginário religioso grego e as suas formas filosóficas. No FOLHAS DE ERVA registra-se precisamente isso, como veremos nos excertos que escolhi (peço desculpas pelas longas citações, mas elas se tornaram inevitáveis). Em segundo lugar, o Mal consiste no canto doentiamente triunfante de suas conseqüências: a destruição, o morticínio, as guerras que estavam por vir. E, mais importante, a destruição da moral tradicional.

 

Whitman tinha muito claro para si essa presença demoníaca a quem ele deu voz e versos. Creio que ele nunca tenha se enganado quanto a isso. Tal e qual se verifica no Zaratustra de Nietzsche. Não é mero personagem, nem mero recurso literário, é uma descrição de um fato, dos momentos íntimos vividos pelo poeta. A coisa foi tão dramática que os biógrafos registram uma total solidão durante sua vida, sem presença feminina, havendo suspeita de que só provou de um único intercurso sexual, de natureza homoerótica. Harold Bloom, não fosse um materialista desgraçado, teria concluído pelo óbvio, que esses grandes escritores serviram de médiuns para o ditador das Trevas. O ego inflado de quem se acha identificado com um arquétipo poderoso é a tônica de todo a narrativa. Vejamos o poema a seguir:

 

 

ENQUANTO MEDITAVA EM SILÊNCIO

 

“Enquanto meditava em silêncio,

Regressando aos meus poemas, ponderando-os, neles me detendo,

Perfilou-se perante mim um fantasma de receoso aspecto,

Terrível na sua beleza, idade e poder,

Um gênio dos poetas das terras antigas,

Voltando para mim os seus olhos em chamas,

Assinalando com seus dedos muitos cantos imortais,

Dizendo com ameaçadora voz: O que cantas tu?

Não sabes que há apenas um tema para os eternos bardos,

E que esse tema é a Guerra, a sorte nas batalhas,

A formação de soldados perfeitos?

 

Assim seja, respondi,

Eu também canto a altiva sombra da guerra,

A mais longa, a maior guerra,

No meu livro empreendida com diversa sorte, com recuos, avanços e retiradas,

        Em adiada e vacilante vitória,

(Mas segundo creio, certa, finalmente certa), tendo o mundo

Por campo de batalha,

Pela vida e pela morte, pelo Corpo e pela Alma eterna,

Ouve-me!, eu também vim cantar o canto das batalhas,

Acima de tudo vos canto, bravos soldados”.

 

 

Aqui a figura medonha toma forma e ele relata o encontro. E diz explicitamente que a luta é pelo Homem (pelo Corpo e pela alma, então só pode ter por adversário Deus, o Bem). E a metáfora da guerra é bem apropriada, em face dos acontecimentos que viriam. Soldados perfeitos são a multidão, a Massa organizada para propósitos destrutivos, animalescos, infernais.

 

No poema abaixo fica patente que seu canto tem destino e é encomendado. Esse Ele é o Inominado, mas é o mesmo personagem encontrado no poema anterior. Pretendia mudar as leis eternas, revogar as leis divinas. O canto é forte:

 

PARA ELE CANTO

 

“Para ele canto,

Construo o presente sobre o passado,

(Como a árvore perene que ressurge das suas raízes, o presente ressurge

do passado),

Faço com que o tempo e o espaço se dilatem com ele e se fundam com

        as leis imortais,

Para que elas se tornem lei própria”.

 

 

Como não poderia deixar de ser, por diversos momentos Ele (a figura demoníaca) aparece na obra-prima CANTO DE MIM MESMO. Escolhi os trechos a seguir por serem os mais ilustrativos para os fins aqui propostos. Ele explicitamente diz que é o poeta da maldade. Pede que o público, a Humanidade, se levante quando fala de si mesmo, pois está fundido com esse ídolo das Trevas. “O relógio indica o momento... mas o que indica a eternidade?”. O Tempo humano é demoníaco e a eternidade é divina, uma maneira de colocar novamente o motivo se sua guerra.

 

Grita: “Está em mim... não sei o que é... mas sei que está em mim”. Aqui o poeta tem um instante de lucidez acusa estar possuído e como que esboça alguma resistência. Esses trechos lembram Zaratustra no que ele tem de pior, o sofrimento espiritual de Nietzsche. Quem leu “A Hora Mais Silenciosa”, um dos discursos de Zaratustra, sabe do que eu estou falando.

 

No trecho final está esboçado o mito do eterno retorno, tão caro a Nietzsche, e o reafirmar da metempsicose tão própria do mundo pagão, dos tempos de Parmênides. Whitman estava completamente possuído pelo Espírito das Trevas, o Mal, a Negação. Cantou com inteireza os tempos modernos.

 

 

CANTO DE MIM MESMO

 

Não sou apenas o poeta da bondade, reconheço que também sou o poeta

da maldade,

Que arrebatamento é esse sobre a virtude e o vício?

O Mal impele-me e impele-me o resgate do mal, permaneço indiferente,

O meu caminho não é o caminho de quem o descobre nem de quem o

recusa

Rego as raízes de tudo que cresce.

 

– x – 

 

É tempo de me explicar – vamos lá, de pé!

 

Desfaço-me do conhecido,

Lanço comigo todos os homens de mulheres no Desconhecido.

O relógio indica o momento... mas o que indica a eternidade?

 

Esgotamos até hoje trilhões de Invernos e Verões,

Há trilhões por vir e ainda mais trilhões.

 

Os nascimentos trouxeram-nos riqueza e diversidade,

E outros nascimentos nos trarão riqueza e diversidade.

 

-----

 

Sou o cume das coisas realizadas e em mim encerro as coisas que serão.

 

Os meus pés tocam o vértice dos vértices das escadas,

Em cada degrau há uma série de eras e séries maiores entre os degraus,

 

Todos os debaixo devidamente percorridos, mas continuo a subir e a subir e a subir,

 

À medida que subo os fantasmas inclinam-se atrás de mim,

E, lá em baixo, ao longe, vejo o imenso Nada primordial, sei que aí estive também,

 

Esperei sempre invisível e dormi na névoa letárgica,

Vivi o meu tempo e não me feriu o fétido carbono.

 

– x – 

 

E quanto a ti, Morte, e a ti, amargo abraço da mortalidade, é inútil tentarem alarmar-me.

 

A parteira acorre ao seu trabalho sem demora,

Vejo a mão pressionado, recebendo, sustendo,

Reclino-me nos umbrais das delicadas portas flexíveis,

E observo a saída, e observo o alívio e a libertação.

 

E quanto a ti, Cadáver, penso que és bom adubo mas isso não me ofende,

Aspiro o doce perfume das rosas brancas crescendo,

Toco as folhas como lábios, toco o peito lustroso dos melões.

E quanto a ti, Vida, reconheço que és o resíduo de muitas mortes,

(Não duvido que eu próprio já morri dez mil vezes).

 

Escuto o vosso murmúrio, ó estrelas do Céu,

Ó sóis, ó ervas dos túmulos, ó perpétuas transferências e promoções,

Se não dizeis nada que poderei eu dizer?

 

– x – 

 

Está em mim... não sei o que é... mas sei que está em mim.

 

Desfigurado e suado... calmo e fresco torna-se o meu corpo,

Durmo... durmo longamente.

 

Não o conheço... Não tem nome... É uma palavra não proferida,

Não vem em nenhum dicionário, expressão, símbolo.

 

Algo gira sobre algo maior do que a Terra sobre a qual gira,

Aí a criação é o amigo cujo abraço me desperta.

Talvez possa dizer algo mais. Noções! Imploro pelos meus irmãos e irmãs,

 

Vedes, ó irmãos e irmãs?

Não é o caos nem a morte... é forma, união, plano... é a vida eterna... é

a Felicidade

 

IV

 

WALT WHITMAN

Epílogo

27/01/2007

 

Reformulei minha intenção original de explorar mais dois conjuntos de poemas importantes do Folhas de Erva, o conjunto que está sob o nome de CÁLAMO e que contém o importante poema ATRAVESSANDO NO FERRY DE BROKLIN e o místico OS QUE DORMEM (“Agora avanço na escuridão, novos seres surgem,/A Terra foge de mim, foge para a noite,/Vi que a terra era bela, e agora vejo que é belo o que não é a Terra./ Vou de cama em cama, durmo com os outros que dormem,/Sonho no meu sonho todos os sonhos dos que sonham, e transformo-me nos outros sonhadores./Sou uma dança – tocai, tocai aí em cima! Dou voltas e voltas no meu arrebatamento!”), no qual o autor se identifica com o demônio da noite, o Mal ele mesmo. Torna-se uma assombração. Variações sobre o mesmo tema, concluí. O leitor que desejar aprofundar uma análise mais ampla da obra nos termos que propus poderá seguir o método aqui exposto.

 

Essa citação mostra que, de fato, temos mais do mesmo. A identificação com a noite, o descolamento do poeta da Terra, a dissolução no coletivo que “dorme” (entre aspas, pois que para eles os mortos estão dormindo). A Massa, o oposto do Indivíduo é aqui colocada em outros termos. É como se só o poeta estivesse acordado para ver as Trevas e toda a gente estivesse desacordada. É ele o profeta e mesmo o deus que dança, uma espécie de Shiva, sublinhando o paganismo de que Whitman se faz portador. É ele o próprio deus da dança, que cria o universo manifesto pela ação de dançar.

 

Novos seres surgem”. O que é isso? O Inferno inteiro surge. Ele identifica-se com os demônios. “Tocai, tocai aí em cima!”. Ele saiu da Terra e está em baixo, os que tocam estão em cima, supostamente os homens. Ele está mergulhado nas profundezas da alma condenada à danação eterna.

 

Whitman, como Nietzsche, deu voz a essa força irresistível que confrontou tudo que é mais sagrado. Isso no âmbito da poesia, pois a emergência do Mal se deu como movimento irresistível desde o Renascimento e chegou primeiro na filosofia. Na pena dos poetas o registro é mais importante porque a coisa se dá de forma espontânea, para além da razão, um registro que brota direto das profundezas da psique. Whitman é o Kant da poesia. O Eu é o centro de tudo. “Penso, logo existo” é o precedente filosófico explícito dele. Nietzsche é a conseqüência lógica do Idealismo e seu decreto da morte de Deus fecha esse movimento medonho que percorreu quatro séculos de decadência cristã. A Reforma religiosa só pode ser compreendida nesse contexto. A quebra da unidade do Cristianismo foi uma mera brecha pela qual a avalanche tudo soterrou. Não podemos esquecer que o povoamento da América se deu sobretudo por puritanos e que só num meio assim poderia nascer um poeta tão avassaladoramente anti-cristão.

 

Whitman é a expressão poética máxima do relativismo moral dos tempos modernos, do seu narcisismo, do onanismo, o homem tornado solitário por si mesmo, apartado voluntariamente de Deus. Por isso seu ideal andrógino é o espelhamento do símbolo do Maligno. É tão visível essa realidade nos seus versos que me surpreende que a crítica, em 150 anos, não tenha denunciado esse verdadeiro culto a Satã que é o Folha de Erva. Erva do Diabo, erva daninha.

 

Quando lemos o FAUSTO, do Goethe, sobretudo sua segunda parte, quando lemos A DIVINA COMÉDIA, de Dante e a grande arte dos tempos ainda cristãos vemos que o que mudou não foi meramente a estética, o mudaram o temática e a conclusão. Aqui temos o imaginário cristão, a Salvação, a Justiça divina, a plenitude dos tempos que precisam ser cumpridos. Não há enfeite algum no morrer, a vida é uma vale-de-lágrimas. Não há louvação louvação ao morrer, como Whitman, ímpio, o faz. Mas há redenção, temos a presença sublime da Mãe de Deus, de Cristo, de Deus-Pai ele mesmo. Nesses tempos loucos de Whitman e Nietzsche temos Shiva e Zaratustra, o velho e conhecido Diabo exaltado como jamais foi.

 

Antes de concluir quero falar de um último poema, pois que ele coloca o elemento faltante para se formar um quadro completo das fontes de inspiração de Whitman. Vamos a ele:

 

A BASE DE TODA A METAFÍSICA

 

E agora, meus senhores,

Dir-vos-ei algumas palavras que deverão permanecer no vosso pensamento

        e na vossa memória,

Como base e conclusão de toda a metafísica

 

(Assim falou aos alunos o velho professor,

Ao encerrar o animado curso).

 

Após ter estudado o antigo e o novo, o sistema grego e o germânico,

Estudado e dissertado sobre Kant e Ficht, Schelling e Hegel,

Exposto a sabedoria de Platão e de Sócrates ainda maior do que a de

        Platão,

E maior do que a de Sócrates e do divino Cristo à qual longamente me

        dediquei

Relembro hoje os sistemas grego e germânico,

Observo todas as filosofias, as igrejas e as doutrinas cristãs,

Mas vejo claramente sob o nome de Sócrates, vejo claramente sob o nome

        do divino Cristo,

O termo amor do homem pelo companheiro, a atração do amigo pelo

        amigo,

Do esposo pela esposa amada, dos filhos e dos pais,

De cada cidade por cada cidade, de cada terra por cada terra.

 

 

Para não me alongar sublinho apenas dois pontos do curto poema. Primeiro, os filósofos citados ou são pagão ou são os criadores do Idealismo, seus sucessores modernos. Segundo, Cristo aqui é apenas uma palavra que quer designar o seu oposto, um recursos frequentemente utilizado pelo Negador.

 

O amor cristão é o que sobe, Ágape, o que eleva o homem a Deus. O amor pagão é Eros, o que desce. Cristo nada tem de socrático. O amor cristão é de outra natureza, desprovido do erótico. Sagrado. Divino. Só uma mente doentiamente tomada pelo Negador para colocar as coisas em termos invertidos. Estamos mergulhados nessa atmosfera sombria dominada por Whitman, Kant, Nietzsche e sua laia demoníaca.

 

V

 

WALT WHITMAN

26/01/2007

 

Os dois poemas que escolhi para me debruçar aqui precisam ser lidos em conjunto e compreendidos em conjunto. Formam uma totalidade nefanda. De novo vemos o simbolismo do Mal brotar com efervescência contagiante. Whitman aqui se torna o profeta das guerras do século XX, torna-se o coveiro do Cristianismo, exalta a América e aponta o dedo acusador sobre a Europa, usando-a como palavra substitua para a tradição cristã.

 

O poema abaixo, já no primeiro verso, dá o tom: “A partir do Paumanok em forma de peixe onde nasci”. Que homem nasce na forma de peixe? Um cristão, pois que o peixe aqui simboliza o tempo cristão. “Bem engendrado, criado por uma mãe perfeita”. Quem é a mãe perfeita? A Igreja. Whitman vê a nova nação triunfante como o antídoto para a tradição cristã, mas enfatiza que faz o resgate dos tempos antigos, dos tempos pagãos.

 

Confunde democracia e liberdade com o reino das massas. De novo o engano desastrado e atroz. A massa nega o indivíduo – o Cristianismo ele mesmo, único meio em que pode se tornar manifesto na História – e torna-se o triunfo do paganismo, a atomização que permitirá o império do Mal.

 

De novo Whitman se coloca como o iniciado nas artes satânicas, o Escolhido: “Penetrei nos tempos remotos,/Sentei-me a estudar aos pés dos grandes mestres,/Tendo sido escolhido pelos grandes mestres que me estudam a mim. É ele mesmo o profeta da modernidade. “Sou o que canta a fé sem restrições”. Qual fé? O oposto da fé, Whitman é um serviçal do Negador.

 

Em momento algum esconde os seus propósitos: “Eu também escrevo o poema do mal, também o celebro,/Sou bom e sou mal e a minha nação também – e digo que de fato o

mal não existe,(Ou, se existe, digo que é importante para vós como para o país ou para mim ou seja para o que for.)” É próprio do Mal camuflar-se para atingi seus propósitos.

 

O êxtase profético está em cada linha: “A grandeza do Amor e da Democracia e a grandeza da Religião./Sou eu que misturo o invisível e o visível,/Misterioso oceano para onde correm os rios,/Profético espírito da matéria que se move e me abraça”. Se alguém dissesse isso seriamente em praça pública seria internado diretamente no hospício mais próximo. O homem pirou ao ser possuído pela maldade. Seus versos confirmam isso. Nietzsche não escapou a esse destino trágico.

 

Uma das marcas características do Demônio é a androginia, a indiferenciação entre os sexos. Whitman não fez por menos: “E mostrarei ao macho e à fêmea como são os dois iguais”. Macho e fêmea são e sempre serão os opostos, assim servindo ao plano de Deus. Aqui o símbolo de Satã não poderia ser narrado de forma a mais direta e crua.

 

Abaixo estão excertos do longo e tenebroso poema:

 

 

A PARTIR DO PAUMANOK

 

A partir do Paumanok em forma de peixe onde nasci,

Bem engendrado, criado por uma mãe perfeita,

Depois de percorrer muitas terras, de amar populosas ruas,

 

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Americanos! Conquistadores! Humanitárias marchas!

Avante! O século avança! Liberdade! Massas!

Para todos vós um reportório de cânticos.

 

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Toma, América, as minhas folhas, leva-as para o Norte e para o Sul,

Dá-lhes as boas-vindas seja onde for, pois são frutos de ti própria,

Abraça-as no Este e no Oeste, pois também te querem abraçar,

E vós, antecessores meus, ligai-vos amorosamente a elas, pois elas a vós se

        ligam amorosamente.

 

Penetrei nos tempos remotos,

Sentei-me a estudar aos pés dos grandes mestres,

Tendo sido escolhido pelos grandes mestres que me estudam a mim.

Desdenharei o antigo em nome deste Estados?

Eles são filhos do antigo, eles justificam tudo.

 

Poetas mortos, filósofos, sacerdotes,

Mártires, artistas, inventores, governantes de há muito,

Criadores de línguas noutras costas,

Nações outrora poderosas, hoje subjugadas, desaparecidas ou desoladas,

Não me atrevo a prosseguir enquanto não tiver pago a dívida do que

        Haveis lançado para aqui,

Estudei-o, é admirável, (no meio disso estou),

Penso que anda é maior, que nada merece mais do que merece,

Observo cuidadosamente durante muito tempo, depois desisto,

Fico no meu lugar, aqui, neste dia.

 

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Sou o crédulo homem com qualidades, épocas, raças,

Venho do povo e do seu espírito,

Sou o que canta a fé sem restrições.

 

Omne! Omne! Que os outros ignorem o que quiserem,

Eu também escrevo o poema do mal, também o celebro,

Sou bom e sou mal e a minha nação também – e digo que de fato o

        mal não existe,

(Ou, se existe, digo que é importante para vós como para o país ou

        para mim ou seja para o que for.)

 

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Nada existe pos si,

Digo que a terra inteira e as estrelas do céu existem pela religião.

 

Digo que nenhum homem foi até hoje tão devoto como devia ser,

Nenhum adorou ou venerou como devia,

Nenhum ainda começou a pensar quão divino é e quão certo o futuro é.

 

Digo que a verdadeira e permanente grandeza destes Estados deverá estar na religião,

De outro modo nunca haverá verdadeira e permanente graneza;

(Nem caráter nem vida que mereça tal nome, sem religião,

Nem país, nem homem ou mulher, sem religião.)

 

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Fica a saber que, para lançar à terra as sementes de uma religião maior,

Existem estes cantos, cada um por si.

 

Meu camarada!

Tens de partilhar comigo duas grandezas e uma terceira ainda mais

        esplendorosa,

A grandeza do Amor e da Democracia e a grandeza da Religião.

 

Sou eu que misturo o invisível e o visível,

Misterioso oceano para onde correm os rios,

Profético espírito da matéria que se move e me abraça,

Seres vivos, identidades tão perto de nós e no ar sem que as conheçamos,

Contato diário e permanente do qual não me posso libertar,

Estes são os que escolho, estes são os que se insinuam e me procuram.

 

Não foi aquele que desde a infância me tem beijado todos os dias quem

me atou, apertando este nó que a ele me liga,

Aos céus e a todo mundo espiritual não estou pres,

Depois do que me fizeram ao sugerir-me os temas.

 

Oh, que temas! Que equivalências! Oh, divino equilíbrio!

Trinados debaixo do sol, anunciados agora, ou ao meio-dia, ou ao ocaso,

Melodias fluindo através dos tempos, chegando aqui,

Seduzindo-me com audazes acordes que prolongo e transmito alegremente.

 

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Eu, exultante, apresso-me a entoar cânticos mais poderosos e altivos dos

que até hoje se ouviram na terra.

 

Escreverei e oferecerei os cantos da paixão,

E os vossos cantos fora-da-lei que perscrutei com os meus olhos

cúmplices também os oferecerei.

 

Farei o verdadeiro poema da abundância,

Para dar ao corpo e à mente tudo quanto adere e avança e não morre

        com a morte;

Irradiarei o meu Eu para mostrar como é inerente a tudo, e serei o bardo

da personalidade,

E mostrarei ao macho e à fêmea como são os dois iguais,

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E mostrarei que o que acontecer a será sempre mais belo do que a morte,

E enlearei um fio através dos meus poemas para provar que o tempo e os

        fatos são compactos,

E que todos os dias do universo são perfeitos milagres, todos eles profundos.

 

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Repara, o corpo é o significado e a essência, o corpo inclui a alma;

Sejas tu quem fores, que soberbo e divino é o teu corpo e cada parte dele!

 

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Oh, íntimo camarada! Oh, tu e eu por fim, e só nós dois!

Oh, uma palavra, para abrir o nosso caminho, para irmos eternamente!

Oh, algo extasiado e indemonstrável! Oh, música selvagem!

Oh, agora eu triunfo – e tu triunfarás;

Oh, mão na mão – oh, prazer são – oh, mais um que deseja e que ama!

Oh, apressa-se, firmemente abraçado – apressa-te, apressa-te comigo.

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Passemos ao poema seguinte, que sintomaticamente tem o título de EUROPA. O primeiro verso: “Subitamente, do torpor do seu covil, o covil dos escravos”. Quem é o covil dos escravos? O Cristianismo, religião que Nietzsche não cansava de repetir ser a dos escravos. Que se rebelam contra os reis. Estes aqui devem ser compreendidos como a totalização dos poderes temporal e espiritual dos reinos cristãos, a quem supostamente a América deveria suplantar e libertar com a nova religião pagã instituída pelo poeta.

 

Nos versos seguintes não fica dúvida sobre o que ele entende por Europa: Oh, esperança e fé! Oh, doloroso fim dos patriotas desterrados! Oh, cansaço dos corações!

Voltai o vosso olhar para esse dia e renovai-vos. Esperança e fé é o Cristianismo ele mesmo, deixado para trás. Os desterrados são o cristãos aportados à América e convertidos pela poesia (Folhas de Erva) ao neo-paganismo ou demonismo. Renovação aqui é o retorno aos tempos pré-cristãos, não é renovação, portanto, mas a exumação do que ficou para trás sepultado pelos tempos cristãos.

 

Vejamos o seguinte trecho:

 

“Mas detrás dessa funesta rapina, uma forma,

Vaga como a noite, suas escarlates vestes caindo em intermináveis pregas

        sobre a cabeça e todo o corpo,

Cujo rosto e cujo olhar ninguém podia ver,

Afasta com o braço o manto escarlate,

E o seu dedo curvo ergue-se como a cabeça de uma serpente”.

 

Essa imagem viva lembra a cena do filme De Olhos Bem Fehados, dirigido por Kubrick, aquela em que acontece o ritual na mansão presidido por um sacerdote vestido de vermelho, ao som da música macabra, como se fosse acontecer o hierosgamos, o ritual pagão de morte e renascimento. É Satã ele mesmo que aparece com seu dedo de serpente. Ele seria o suposto salvador do Povo. É, na verdade, o seu coveiro. Whitman canta os jovens cadáveres sem qualquer piedade. Está embriagado pela maldade, completamente inconsciente.

 

Esse também é um poema aterrador. Abaixo segue a íntegra do mesmo.

 

 

EUROPA

 

Subitamente, do torpor do seu covil, o covil dos escravos,

Saltou como um raio, meio surpreendida consigo própria,

De pé sobre as cinzas e os farrapos, com as mãos apertadas à volta do

        pescoço dos reis.

 

Oh, esperança e fé!

Oh, doloroso fim dos patriotas desterrados!

Oh, cansaço dos corações!

Voltai o vosso olhar para esse dia e renovai-vos.

 

A vós, canalhas pagos para corromper o Povo, escutai!

Apesar das inumeráveis agonias, crimes, cobiças,

Apesar das formas vis de roubo das cortes, aproveitando a simplicidade

        do pobre para roubar o seu salário,

Apesar das promessas de reis quebradas entre gargalhadas,

Apesar de tudo isso, não surgiram do poder os golpes de vingança, nem

        caíram as cabeças dos nobres;

O Povo desprezou a ferocidade dos reis.

 

Mas a doce misericórdia fermentou uma destruição mais amarga, e os

        aterrados monarcas regressam,

Com sua pompa e o seu séqüito, com o verdugo, o clérigo, o cobrador

        de impostos,

O guerreiro, o homem de leis, o lorde, o carcereiro e o impostor.

Mas detrás dessa funesta rapina, uma forma,

Vaga como a noite, suas escarlates vestes caindo em intermináveis pregas

        sobre a cabeça e todo o corpo,

Cujo rosto e cujo olhar ninguém podia ver,

Afasta com o braço o manto escarlate,

E o seu dedo curvo ergue-se como a cabeça de uma serpente.

 

Entretanto jazem os cadáveres nas valas recém-abertas, os sangrentos

        cadáveres dos jovens,

Pesadamente pende a corda da forca, voam as balas dos príncipes, riem

        alto os filhos do poder,

E tudo isso tem os seus frutos, e é bom.

Esses jovens cadáveres,

Esses mártires suspensos das cordas, esses corações atravessados pelo

        sombrio chumbo,

Frios e hirtos, parecem, mas algures perdura a sua incólume vitalidade.

 

Eles perduram noutros jovens, ó reis!

Perduram nos seus irmãos uma vez mas dispostos a desafiar-vos!

A morte purificou-os, instruindo-os e inspirando-os.

 

Não há um único morto pela liberdade em cujo túmulo não cresça uma

semente de liberdade, dando sementes também,

E os ventos levam-nas e elas voltam a germinar e alimentam-nas

as chuvas e as neves.

 

Não há um único espírito desencarnado e abandonado pelas armas dos

tiranos,

Que não percorra invisivelmente a Terra, murmurando, aconselhando,

        prevenindo.

Liberdade, deixa os outros desesperarem de ti – eu nunca desespero de ti.

 

A casa está fechada? Está o dono ausente?

Não importa, continuai atentos, e pacientemente esperai,

Em breve ele regressará, os seus mensageiros já estão a chegar.

 

VI

 

WALT WHITMAN

Epílogo

27/01/2007

 

Reformulei minha intenção original de explorar mais dois conjuntos de poemas importantes do Folhas de Erva, o conjunto que está sob o nome de CÁLAMO e que contém o importante poema ATRAVESSANDO NO FERRY DE BROKLIN e o místico OS QUE DORMEM (“Agora avanço na escuridão, novos seres surgem,/A Terra foge de mim, foge para a noite,/Vi que a terra era bela, e agora vejo que é belo o que não é a Terra./ Vou de cama em cama, durmo com os outros que dormem,/Sonho no meu sonho todos os sonhos dos que sonham, e transformo-me nos outros sonhadores./Sou uma dança – tocai, tocai aí em cima! Dou voltas e voltas no meu arrebatamento!”), no qual o autor se identifica com o demônio da noite, o Mal ele mesmo. Torna-se uma assombração. Variações sobre o mesmo tema, concluí. O leitor que desejar aprofundar uma análise mais ampla da obra nos termos que propus poderá seguir o método aqui exposto.

 

Essa citação mostra que, de fato, temos mais do mesmo. A identificação com a noite, o descolamento do poeta da Terra, a dissolução no coletivo que “dorme” (entre aspas, pois que para ele os mortos estão dormindo). A Massa, o oposto do Indivíduo, é aqui colocada em outros termos. É como se só o poeta estivesse acordado para ver as Trevas e toda a gente estivesse desacordada. É ele o profeta e mesmo o deus que dança, uma espécie de Shiva, sublinhando o paganismo de que Whitman se faz portador. É ele o próprio deus da dança, que cria o universo manifesto pela ação de dançar.

 

Novos seres surgem”. O que é isso? O Inferno inteiro surge. Ele identifica-se com os demônios. “Tocai, tocai aí em cima!”. Ele saiu da Terra e está em baixo, os que tocam estão em cima, supostamente os homens. Ele está mergulhado nas profundezas da alma condenada à danação eterna.

 

Whitman, como Nietzsche, deu voz a essa força irresistível que confrontou tudo que é mais sagrado. Isso no âmbito da poesia, pois a emergência do Mal se deu como movimento irresistível desde o Renascimento e chegou primeiro na filosofia. Na pena dos poetas o registro é mais importante porque a coisa se dá de forma espontânea, para além da razão, um registro que brota direto das profundezas da psique. Whitman é o Kant da poesia. O Eu é o centro de tudo. “Penso, logo existo” é o precedente filosófico explícito dele. Nietzsche é a conseqüência lógica do Idealismo e seu decreto da morte de Deus fecha esse movimento medonho que percorreu quatro séculos de decadência cristã. A Reforma religiosa só pode ser compreendida nesse contexto. A quebra da unidade do Cristianismo foi uma mera brecha pela qual a avalanche tudo soterrou. Não podemos esquecer que o povoamento da América se deu sobretudo por puritanos e que só num meio assim poderia nascer um poeta tão avassaladoramente anti-cristão.

 

Whitman é a expressão poética máxima do relativismo moral dos tempos modernos, do seu narcisismo, do onanismo, o homem tornado solitário por si mesmo, apartado voluntariamente de Deus. Por isso seu ideal andrógino é o espelhamento do símbolo do Maligno. É tão visível essa realidade nos seus versos que me surpreende que a crítica, em 150 anos, não tenha denunciado esse verdadeiro culto a Satã que é o Folha de Erva. Erva do Diabo, erva daninha.

 

Quando lemos o FAUSTO, do Goethe, sobretudo sua segunda parte, quando lemos A DIVINA COMÉDIA, de Dante e a grande arte dos tempos ainda cristãos vemos que o que mudou não foi meramente a estética, mudaram a temática e a conclusão. Aqui temos o imaginário cristão, a Salvação, a Justiça divina, a plenitude dos tempos que precisam ser cumpridos. Não há enfeite algum no morrer, a vida é um vale-de-lágrimas. Não há louvação ao morrer, como Whitman, ímpio, o faz. Mas há redenção, temos a presença sublime da Mãe de Deus, de Cristo, de Deus-Pai ele mesmo. Nesses tempos loucos de Whitman e Nietzsche temos Shiva e Zaratustra, o velho e conhecido Diabo exaltado como jamais foi.

 

Antes de concluir quero falar de um último poema, pois que ele coloca o elemento faltante para se formar um quadro completo das fontes de inspiração de Whitman. Vamos a ele:

 

A BASE DE TODA A METAFÍSICA

 

E agora, meus senhores,

Dir-vos-ei algumas palavras que deverão permanecer no vosso pensamento

        e na vossa memória,

Como base e conclusão de toda a metafísica

 

(Assim falou aos alunos o velho professor,

Ao encerrar o animado curso).

 

Após ter estudado o antigo e o novo, o sistema grego e o germânico,

Estudado e dissertado sobre Kant e Ficht, Schelling e Hegel,

Exposto a sabedoria de Platão e de Sócrates ainda maior do que a de

        Platão,

E maior do que a de Sócrates e do divino Cristo à qual longamente me

        dediquei

Relembro hoje os sistemas grego e germânico,

Observo todas as filosofias, as igrejas e as doutrinas cristãs,

Mas vejo claramente sob o nome de Sócrates, vejo claramente sob o nome

        do divino Cristo,

O termo amor do homem pelo companheiro, a atração do amigo pelo

        amigo,

Do esposo pela esposa amada, dos filhos e dos pais,

De cada cidade por cada cidade, de cada terra por cada terra.

 

 

Para não me alongar sublinho apenas dois pontos do curto poema. Primeiro, os filósofos citados ou são pagão ou são os criadores do Idealismo, seus sucessores modernos. Segundo, Cristo aqui é apenas uma palavra que quer designar o seu oposto, um recursos frequentemente utilizado pelo Negador.

 

O amor cristão é o que sobe, Ágape, o que eleva o homem a Deus. O amor pagão é Eros, o que desce. Cristo nada tem de socrático. O amor cristão é de outra natureza, desprovido do erótico. Sagrado. Divino. Só uma mente doentiamente tomada pelo Negador para colocar as coisas em termos invertidos. Estamos mergulhados nessa atmosfera sombria dominada por Whitman, Kant, Nietzsche e sua laia demoníaca.