NIVALDO
CORDEIRO: um espectador engajado
WALT WHITMAN
FOLHAS DE ERVAS
20/01/2007
Escrever sobre
poesia não é tarefa das mais fáceis. Sempre preferi falar dela, recitá-la,
deleitar-me na sua leitura a analisá-la. Saí em férias com o grosso volume da
tradução portuguesa do FOLHAS DE ERVA (tradução de
José Agostinho Baptista, Editora Assírio & Alvim, Lisboa, 2003), do grande
poeta norte-americano Walt Whitman para momentos de puro lazer, deixando de
lado tudo, a própria Internet, o trabalho, a política, a economia, o telefone
celular... Eu havia lido poemas esparsos do autor, sempre um encanto. E muitas
opiniões laudatórias de todos os críticos, especialmente de quando ocorreu, há
dois anos, o sesquicentenário da publicação da obra original.
Desde o primeiro
poema fui tomado como que por um raio. O lírico e o épico misturados de uma
forma que cativou a minha alma. Sua temática, como a temática de qualquer
grande artista, tinha que tratar do conteúdo religioso. Não me surpreendeu com
isso, me encantou. Mas seus temas nada têm de religiosos em si,
Whitman está para a
América como Nietzsche está para Alemanha. Ambos são os cantores da emergência
do Mal, a expressão poética da modernidade em sua dimensão mais completa.
Desde logo preciso
dizer o que entendo para que serve a grande arte em
geral e a poesia
A obra de Walt Whitman
só pode ser adequadamente compreendida nesse contexto metafísico e cada verso
que a compõe é a manifestação da agonia de uma alma que enxergou além de seu
tempo e deu voz a uma força que em Nietzsche foi chamada de
Zaratustra, figura que nunca foi um mero personagem literário, mas a fonte
geradora que ditava boa parte do que o poeta alemão escrevia.
Arte é forma, mas é
também substância, conteúdo. Whitman foi um desbravador da forma, sendo a ele
atribuído a invenção do verso livre que tanta força
estética alcançou desde então. Mas ele foi também o profeta
do Novo Mundo, tanto no sentido estrito, do mundo americano, como no sentido
figurado, o Novo Homem que surge com o advento da modernidade, o profeta do EU
esvaziado da tradição, do demiurgo que se propõe a aperfeiçoar a criação, esse
EU que quer suplantar o próprio Criador.
Essa será a minha
aventura nos próximos textos que seguirão.
II
WALT WHITMAN
21/01/2007
Há um outro
poeta, além de Nietzsche, que ombreia com Walt Whitman em me causar espanto e
em me provocar estranhezas: Fernando Pessoa. Este procurou seguir as pegadas do
norte-americano e chegou a lhe escreve um poema laudatório (Saudação a Walt Whitman). Pessoa,
todavia, era português demais, cristão demais, medieval demais para cantar o Mal com tanta força como o fez seu
ídolo. Talvez nunca tenha se dado conta disso.
Fernando
Pessoa cantou um Império que se esfumou no tempo; Whitman cantou o Império que
estava a se construir. Separa-os um abismo, o Tempo. Une-os o verso livre e
fica nisso. A forma é o elo entre ambos, não o conteúdo. Talvez por isso seja
Pessoa o poeta que mais fala à minha alma. Quanta ternura, quanto lirismo!
Cantar Portugal é como que cantar o Brasil. É um canto de mim mesmo. Em minha
língua. No Brasil só encontro ressonância semelhante na obra Grande Sertão, Veredas, de Guimarães Rosa.
– x –
No poema de
abertura (EPÍGRAFES) podemos ter um
vislumbre do seu tema e a sua enorme confusão inaugural:
CANTO AO EU
Canto o Eu, a simples pessoa em si,
Mas pronuncio a palavra democrática,
a palavra Massas.
Da cabeça aos pés canto a fisiologia,
Nem a fisionomia nem o cérebro por si
sós merecem a Musa,
Digo que a Forma completa a merece
mais,
Canto a Fêmea e o Macho por igual.
Imenso de paixão, pulso e poder,
Alegre, concebido para a ação mais
livre sob a lei divina,
Canto o Homem Moderno
Evidentemente
que o poeta, como se verá alhures, conhecia e muito
bem o pensamento dos formadores da modernidade e surpreende a confusão que ele
faz entre democracia e Massas (assim, em maiúscula). Essa confusão tornará o
século XX que se aproximava o tempo das grandes tragédias, das grandes guerras
como jamais houve. Nietzsche o pressentiu e de fato o sabia, sabia da miséria
que a humanidade teria que viver. Em agonia antecipou em si e na sua obra o
porvir que considerava grandioso. Whitman, nesse ponto, é mais ingênuo, mais americano: cantou essa confusão trágica
como se algo de bom fosse.
E colocou o
Eu como a elevação mais plena dos novos tempos. Nietzsche ao menos visualizava
um suposto super-homem, um devir que viria com o tempo redentor. E suspeitava
das Massas. Whitman não. Para ele estava tudo consumado. É possível o Eu
sobreviver às Massas? Não, não é. O Indivíduo perece inexoravelmente à
multidão, ao coletivo. O tempo que estava por vir negou os fundamentos morais
da liberdade que Whitman pensava aclamar: a propriedade privada e as regras da
sexualidade e da convivência entre os sexos advindas da tradição. E o controle
do Indivíduo enquanto tal sobre a esfera política, sobre o Estado. As grandes
destruições que viriam, em vidas, em cidades e em bens materiais, não podem ser
comparadas em tamanho à perda da referência moral tradicional e do
agigantamento do Estado. Uma perda que nesse momento em que escrevo parece
definitiva, pois que vivemos o ocaso da civilização.
O mundo
jamais seria o mesmo depois da explosão que foi a fusão (con-fusão)
entre o Eu e as Massas. Fusão sugere a liquefação pela ação do calor, a queima
que é o símbolo dos novos tempos. Socialismo e suas variações são a expressão da perda do sentido da propriedade privada;
os desvios das aberrações sexuais que foram socialmente aceitas, inclusive o
aborto que destrói as crias antes de nascer, são meras seqüelas visíveis da
destruição do núcleo familiar. O agigantamento do Estado alcançou tudo, em toda
parte. Não há mais vida alguma fora do controle do poder estatal nos tempos de
hoje. Em suma, a ordem totalitária que é ela mesma a expressão da negação do
Eu.
Cantar o Eu
tragado pelas Massas é exaltar a trevalorização de
todos os valores. É esse o cantar do Homem Moderno. Por isso Whitman poderia
grafar no CANTO DE MIM MESMO o
auto-erotismo infantil e ingênuo:
Estou apaixonado por mim, tanto de
luxurioso há em mim,
Cada momento e tudo que acontece
faz-me estremecer de júbilo
E, assim,
confirmando o Eu como uma antecipação do super-homem nietszchiano,
cunha um verso de extrema inflação:
Imenso de paixão, pulso e poder,
Alegre, concebido para a ação mais
livre sob a lei divina
Lei divina?
Lei divina alguma. Ele pensa que é “divino” porque para ele o Eu é divino, o
substituto de Deus. Veremos que no CANTO
DE MIM MESMO ele se identifica com a figura de Cristo em alguns momentos,
e, em outros, faz o seu oposto. Mas um Cristo distorcido, gnóstico,
trazido do Além para o Reino desse Mundo. Corretamente Harold Bloom identifica esse Cristo como uma espécie de culto ao
Cristo Ressuscitado, um homem, encarnado no próprio poeta. Mas a seu tempo esmiuçaremos esse ponto, que é central para a
compreensão da obra. Vê-se que a religião, a filosofia, a política, a estética
e a poesia formam um todo. Não é possível separar pedaços de nada, sob pena de
se perder o fio condutor.
Da cabeça aos pés canto a fisiologia,
Nem a fisionomia nem o cérebro por si
sós merecem a Musa
Outra
trágica confusão. O Eu não é o corpo. Corpo vivo não é igual a corpo morto e um
abismo os separa. Whitman caiu na armadilha mais mortal que os pensadores que o
precederam lhe prepararam. Seu canto é um canto fúnebre. Está escrito no CANTO DE MIM MESMO:
Tudo cresce e avança,
nada se detém,
E morrer é diferente do que se
pensava, e mais afortunado”.
III
WALT WHITMAN
23/01/2007
Nos
comentários anteriores eu escrevi que Walt Whitman cantou o Mal dos tempos
modernos. E em que consiste esse Mal? Em primeiro lugar, na negação da
Tradição, no extermínio da verdade cristã que presidiu a Europa e o Mundo por
dois mil anos, em luta ativa contra a verdade da Salvação. Os tempos modernos
registram a emergência do Negador, que frequentemente, nas letras e na
filosofia, tomou a forma de um retorno ao imaginário religioso grego e as suas
formas filosóficas. No FOLHAS DE ERVA registra-se precisamente isso, como
veremos nos excertos que escolhi (peço desculpas pelas longas citações, mas
elas se tornaram inevitáveis). Em segundo lugar, o Mal consiste no canto
doentiamente triunfante de suas conseqüências: a destruição, o morticínio, as
guerras que estavam por vir. E, mais importante, a destruição da moral
tradicional.
Whitman
tinha muito claro para si essa presença
demoníaca a quem ele deu voz e versos. Creio que ele nunca tenha se enganado
quanto a isso. Tal e qual se verifica no Zaratustra de
Nietzsche. Não é mero personagem, nem mero recurso literário, é uma descrição
de um fato, dos momentos íntimos vividos pelo poeta. A coisa foi tão dramática
que os biógrafos registram uma total solidão durante sua vida, sem presença
feminina, havendo suspeita de que só provou de um único intercurso sexual, de
natureza homoerótica. Harold Bloom,
não fosse um materialista desgraçado, teria concluído pelo óbvio, que esses
grandes escritores serviram de médiuns para o ditador das Trevas. O ego inflado
de quem se acha identificado com um arquétipo poderoso é a tônica de todo a
narrativa. Vejamos o poema a seguir:
ENQUANTO MEDITAVA EM SILÊNCIO
“Enquanto meditava em silêncio,
Regressando
aos meus poemas, ponderando-os, neles me detendo,
Perfilou-se
perante mim um fantasma de receoso aspecto,
Terrível na
sua beleza, idade e poder,
Um gênio dos
poetas das terras antigas,
Voltando
para mim os seus olhos em chamas,
Assinalando
com seus dedos muitos cantos imortais,
Dizendo com
ameaçadora voz: O que cantas tu?
Não sabes que há apenas um tema para
os eternos bardos,
E que esse tema é a Guerra, a sorte
nas batalhas,
A formação de soldados perfeitos?
Assim seja, respondi,
Eu também canto a altiva sombra da
guerra,
A mais longa, a maior guerra,
No meu livro
empreendida com diversa sorte, com recuos, avanços e retiradas,
Em
adiada e vacilante vitória,
(Mas segundo creio, certa, finalmente
certa), tendo o mundo
Por campo de batalha,
Pela vida e pela morte, pelo Corpo e
pela Alma eterna,
Ouve-me!, eu também vim cantar o canto das batalhas,
Acima de tudo vos canto, bravos
soldados”.
Aqui a
figura medonha toma forma e ele relata o encontro. E diz explicitamente que a luta
é pelo Homem (pelo Corpo e pela alma, então só pode ter por adversário Deus, o
Bem). E a metáfora da guerra é bem apropriada, em face dos acontecimentos que
viriam. Soldados perfeitos são a multidão, a Massa
organizada para propósitos destrutivos, animalescos, infernais.
No poema
abaixo fica patente que seu canto tem destino e é encomendado. Esse Ele é o
Inominado, mas é o mesmo personagem encontrado no poema anterior. Pretendia
mudar as leis eternas, revogar as leis divinas. O canto é forte:
PARA ELE CANTO
“Para ele canto,
Construo o
presente sobre o passado,
(Como a árvore perene que ressurge das suas raízes, o presente
ressurge
do passado),
Faço com que
o tempo e o espaço se dilatem com ele e se fundam com
as leis
imortais,
Para que elas se tornem lei própria”.
Como não
poderia deixar de ser, por diversos momentos Ele (a figura demoníaca) aparece
na obra-prima CANTO DE MIM MESMO. Escolhi os trechos a seguir por serem os mais
ilustrativos para os fins aqui propostos. Ele explicitamente diz que é o poeta da maldade. Pede que o público, a
Humanidade, se levante quando fala de si mesmo, pois está fundido com esse
ídolo das Trevas. “O relógio indica o
momento... mas o que indica a eternidade?”. O Tempo humano é demoníaco e a
eternidade é divina, uma maneira de colocar novamente o motivo se sua guerra.
Grita: “Está em mim... não sei o que é... mas sei
que está em mim”. Aqui o poeta tem um instante de lucidez acusa estar
possuído e como que esboça alguma resistência. Esses trechos lembram Zaratustra
no que ele tem de pior, o sofrimento espiritual de Nietzsche. Quem leu “A Hora Mais Silenciosa”, um dos
discursos de Zaratustra, sabe do que eu estou falando.
No trecho
final está esboçado o mito do eterno retorno, tão caro a Nietzsche, e o
reafirmar da metempsicose tão própria do mundo pagão, dos tempos de Parmênides.
Whitman estava completamente possuído pelo Espírito das Trevas, o Mal, a
Negação. Cantou com inteireza os tempos modernos.
CANTO DE MIM MESMO
Não sou
apenas o poeta da bondade, reconheço que também sou o poeta
da maldade,
Que
arrebatamento é esse sobre a virtude e o vício?
O Mal impele-me e impele-me o resgate do mal, permaneço
indiferente,
O meu
caminho não é o caminho de quem o descobre nem de quem o
recusa
Rego as
raízes de tudo que cresce.
– x –
É tempo de
me explicar – vamos lá, de pé!
Desfaço-me
do conhecido,
Lanço comigo
todos os homens de mulheres no Desconhecido.
O relógio
indica o momento... mas o que indica a eternidade?
Esgotamos
até hoje trilhões de Invernos e Verões,
Há trilhões
por vir e ainda mais trilhões.
Os
nascimentos trouxeram-nos riqueza e diversidade,
E outros
nascimentos nos trarão riqueza e diversidade.
-----
Sou o cume
das coisas realizadas e em mim encerro as coisas que serão.
Os meus pés
tocam o vértice dos vértices das escadas,
Em cada
degrau há uma série de eras e séries maiores entre os degraus,
Todos os
debaixo devidamente percorridos, mas continuo a subir e a subir e a subir,
À medida que
subo os fantasmas inclinam-se atrás de mim,
E, lá em
baixo, ao longe, vejo o imenso Nada primordial, sei que aí estive também,
Esperei
sempre invisível e dormi na névoa letárgica,
Vivi o meu
tempo e não me feriu o fétido carbono.
– x –
E quanto a
ti, Morte, e a ti, amargo abraço da mortalidade, é inútil tentarem alarmar-me.
A parteira
acorre ao seu trabalho sem demora,
Vejo a mão pressionado, recebendo, sustendo,
Reclino-me
nos umbrais das delicadas portas flexíveis,
E observo a
saída, e observo o alívio e a libertação.
E quanto a
ti, Cadáver, penso que és bom adubo mas isso não me
ofende,
Aspiro o
doce perfume das rosas brancas crescendo,
Toco as
folhas como lábios, toco o peito lustroso dos melões.
E quanto a
ti, Vida, reconheço que és o resíduo de muitas mortes,
(Não duvido
que eu próprio já morri dez mil vezes).
Escuto o
vosso murmúrio, ó estrelas do Céu,
Ó sóis, ó
ervas dos túmulos, ó perpétuas transferências e promoções,
Se não
dizeis nada que poderei eu dizer?
– x –
Está em
mim... não sei o que é... mas
sei que está em mim.
Desfigurado
e suado... calmo e fresco torna-se o meu corpo,
Durmo... durmo longamente.
Não o
conheço... Não tem nome... É uma palavra não proferida,
Não vem em
nenhum dicionário, expressão, símbolo.
Algo gira
sobre algo maior do que a Terra sobre a qual gira,
Aí a criação
é o amigo cujo abraço me desperta.
Talvez possa
dizer algo mais. Noções! Imploro pelos meus irmãos e irmãs,
Vedes,
ó irmãos e irmãs?
Não é o caos
nem a morte... é forma, união, plano... é a vida eterna... é
a Felicidade
IV
WALT WHITMAN
Epílogo
27/01/2007
Reformulei
minha intenção original de explorar mais dois conjuntos de poemas importantes do Folhas de Erva, o conjunto que está sob o
nome de CÁLAMO e que contém o
importante poema ATRAVESSANDO NO FERRY DE BROKLIN e o místico OS QUE DORMEM (“Agora avanço na escuridão, novos seres surgem,/A Terra foge de mim,
foge para a noite,/Vi que a terra era bela, e agora vejo que é belo o que não é
a Terra./ Vou de cama em cama, durmo com os outros que dormem,/Sonho no meu
sonho todos os sonhos dos que sonham, e transformo-me nos outros
sonhadores./Sou uma dança – tocai, tocai aí em cima! Dou voltas e voltas no meu
arrebatamento!”), no qual o autor se identifica com o demônio da noite, o
Mal ele mesmo. Torna-se uma assombração. Variações sobre o mesmo tema, concluí.
O leitor que desejar aprofundar uma análise mais ampla da obra nos termos que
propus poderá seguir o método aqui exposto.
Essa citação
mostra que, de fato, temos mais do mesmo. A identificação com a noite, o
descolamento do poeta da Terra, a dissolução no coletivo que “dorme” (entre
aspas, pois que para eles os mortos estão dormindo). A Massa, o oposto do
Indivíduo é aqui colocada em outros termos. É como se
só o poeta estivesse acordado para ver as Trevas e toda a gente estivesse
desacordada. É ele o profeta e mesmo o deus que dança,
uma espécie de Shiva, sublinhando o paganismo de que
Whitman se faz portador. É ele o próprio deus da dança, que cria o universo
manifesto pela ação de dançar.
“Novos seres surgem”. O que é isso? O
Inferno inteiro surge. Ele identifica-se com os demônios. “Tocai, tocai aí em cima!”. Ele saiu da Terra e está
em baixo, os que tocam estão em cima, supostamente os homens. Ele está
mergulhado nas profundezas da alma condenada à danação eterna.
Whitman,
como Nietzsche, deu voz a essa força irresistível que confrontou tudo que é
mais sagrado. Isso no âmbito da poesia, pois a emergência do Mal se deu como
movimento irresistível desde o Renascimento e chegou primeiro na filosofia. Na
pena dos poetas o registro é mais importante porque a coisa se dá de forma
espontânea, para além da razão, um registro que brota direto das profundezas da
psique. Whitman é o Kant da poesia. O Eu é o centro de tudo. “Penso, logo existo” é o precedente
filosófico explícito dele. Nietzsche é a conseqüência lógica do Idealismo e seu
decreto da morte de Deus fecha esse movimento medonho que percorreu quatro
séculos de decadência cristã. A Reforma religiosa só pode ser compreendida
nesse contexto. A quebra da unidade do Cristianismo foi uma mera brecha pela
qual a avalanche tudo soterrou. Não podemos esquecer que o povoamento da
América se deu sobretudo por puritanos e que só num
meio assim poderia nascer um poeta tão avassaladoramente anti-cristão.
Whitman é a
expressão poética máxima do relativismo moral dos tempos modernos, do seu
narcisismo, do onanismo, o homem tornado solitário por si mesmo, apartado
voluntariamente de Deus. Por isso seu ideal andrógino é o espelhamento do
símbolo do Maligno. É tão visível essa realidade nos seus versos que me
surpreende que a crítica, em 150 anos, não tenha denunciado esse verdadeiro
culto a Satã que é o Folha de Erva. Erva do Diabo,
erva daninha.
Quando lemos
o FAUSTO, do Goethe, sobretudo sua segunda parte, quando lemos A DIVINA
COMÉDIA, de Dante e a grande arte dos tempos ainda cristãos vemos que o que
mudou não foi meramente a estética, o mudaram o temática e a conclusão. Aqui
temos o imaginário cristão, a Salvação, a Justiça divina, a plenitude dos
tempos que precisam ser cumpridos. Não há enfeite algum no morrer, a vida é uma
vale-de-lágrimas. Não há louvação louvação ao morrer, como Whitman, ímpio, o faz. Mas
há redenção, temos a presença sublime da Mãe de Deus, de Cristo, de Deus-Pai
ele mesmo. Nesses tempos loucos de Whitman e Nietzsche temos Shiva e Zaratustra, o velho e conhecido Diabo exaltado como
jamais foi.
Antes de
concluir quero falar de um último poema, pois que ele coloca o elemento
faltante para se formar um quadro completo das fontes de inspiração de Whitman.
Vamos a ele:
A BASE DE TODA A METAFÍSICA
E agora,
meus senhores,
Dir-vos-ei
algumas palavras que deverão permanecer no vosso pensamento
e na vossa
memória,
Como base e
conclusão de toda a metafísica
(Assim falou aos alunos o velho professor,
Ao encerrar o animado curso).
Após ter
estudado o antigo e o novo, o sistema grego e o germânico,
Estudado e
dissertado sobre Kant e Ficht, Schelling
e Hegel,
Exposto a
sabedoria de Platão e de Sócrates ainda maior do que a de
Platão,
E maior do
que a de Sócrates e do divino Cristo à qual longamente me
dediquei
Relembro
hoje os sistemas grego e germânico,
Observo
todas as filosofias, as igrejas e as doutrinas cristãs,
Mas vejo
claramente sob o nome de Sócrates, vejo claramente sob o nome
do divino
Cristo,
O termo amor
do homem pelo companheiro, a atração do amigo pelo
amigo,
Do esposo
pela esposa amada, dos filhos e dos pais,
De cada cidade por cada cidade, de cada terra por cada terra.
Para não me
alongar sublinho apenas dois pontos do curto poema. Primeiro, os filósofos
citados ou são pagão ou são os criadores do Idealismo, seus sucessores
modernos. Segundo, Cristo aqui é apenas uma palavra que quer designar o seu
oposto, um recursos frequentemente utilizado pelo
Negador.
O amor
cristão é o que sobe, Ágape, o que eleva o homem a
Deus. O amor pagão é Eros, o que desce. Cristo nada tem de socrático. O amor
cristão é de outra natureza, desprovido do erótico. Sagrado. Divino. Só uma
mente doentiamente tomada pelo Negador para colocar as coisas em termos
invertidos. Estamos mergulhados nessa atmosfera sombria dominada por Whitman,
Kant, Nietzsche e sua laia demoníaca.
V
WALT WHITMAN
26/01/2007
Os dois
poemas que escolhi para me debruçar aqui precisam ser lidos em conjunto e
compreendidos
O poema
abaixo, já no primeiro verso, dá o tom: “A
partir do Paumanok em forma de peixe onde nasci”.
Que homem nasce na forma de peixe? Um cristão, pois que o peixe aqui simboliza
o tempo cristão. “Bem engendrado, criado
por uma mãe perfeita”. Quem é a mãe perfeita? A Igreja. Whitman vê a nova
nação triunfante como o antídoto para a tradição cristã, mas enfatiza que faz o
resgate dos tempos antigos, dos tempos pagãos.
Confunde
democracia e liberdade com o reino das massas. De novo o engano desastrado e atroz.
A massa nega o indivíduo – o Cristianismo ele mesmo, único meio em que pode se
tornar manifesto na História – e torna-se o triunfo do paganismo, a atomização que permitirá o império do Mal.
De novo
Whitman se coloca como o iniciado nas artes satânicas, o Escolhido: “Penetrei nos tempos remotos,/Sentei-me
a estudar aos pés dos grandes mestres,/Tendo sido escolhido pelos grandes
mestres que me estudam a mim. É ele mesmo o profeta da modernidade. “Sou o que canta a fé sem restrições”.
Qual fé? O oposto da fé, Whitman é um serviçal do Negador.
Em momento
algum esconde os seus propósitos: “Eu
também escrevo o poema do mal, também o celebro,/Sou
bom e sou mal e a minha nação também – e digo que de fato o
mal
não existe,(Ou, se existe, digo que é importante para vós como para o país ou
para mim ou seja para o que for.)” É próprio do Mal camuflar-se para atingi seus propósitos.
O êxtase
profético está em cada linha: “A grandeza
do Amor e da Democracia e a grandeza da Religião./Sou
eu que misturo o invisível e o visível,/Misterioso oceano para onde correm os
rios,/Profético espírito da matéria que se move e me abraça”. Se alguém
dissesse isso seriamente em praça pública seria internado diretamente no
hospício mais próximo. O homem pirou ao ser possuído pela maldade. Seus versos
confirmam isso. Nietzsche não escapou a esse destino trágico.
Uma das
marcas características do Demônio é a androginia, a indiferenciação
entre os sexos. Whitman não fez por menos: “E
mostrarei ao macho e à fêmea como são os dois iguais”. Macho e fêmea são e
sempre serão os opostos, assim servindo ao plano de Deus. Aqui o símbolo de
Satã não poderia ser narrado de forma a mais direta e crua.
Abaixo estão
excertos do longo e tenebroso poema:
A PARTIR DO PAUMANOK
A partir do Paumanok em forma de peixe onde nasci,
Bem
engendrado, criado por uma mãe perfeita,
Depois de
percorrer muitas terras, de amar populosas ruas,
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Americanos!
Conquistadores! Humanitárias marchas!
Avante! O
século avança! Liberdade! Massas!
Para todos
vós um reportório de cânticos.
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Toma,
América, as minhas folhas, leva-as para o Norte e para o Sul,
Dá-lhes as
boas-vindas seja onde for, pois são frutos de ti própria,
Abraça-as no
Este e no Oeste, pois também te querem abraçar,
E vós,
antecessores meus, ligai-vos amorosamente a elas, pois elas a vós se
ligam
amorosamente.
Penetrei nos
tempos remotos,
Sentei-me a
estudar aos pés dos grandes mestres,
Tendo sido
escolhido pelos grandes mestres que me estudam a mim.
Desdenharei
o antigo em nome deste Estados?
Eles são
filhos do antigo, eles justificam tudo.
Poetas
mortos, filósofos, sacerdotes,
Mártires,
artistas, inventores, governantes de há muito,
Criadores de
línguas noutras costas,
Nações
outrora poderosas, hoje subjugadas, desaparecidas ou desoladas,
Não me
atrevo a prosseguir enquanto não tiver pago a dívida
do que
Haveis lançado para aqui,
Estudei-o, é
admirável, (no meio disso estou),
Penso que
anda é maior, que nada merece mais do que merece,
Observo
cuidadosamente durante muito tempo, depois desisto,
Fico no meu
lugar, aqui, neste dia.
-----------
Sou o
crédulo homem com qualidades, épocas, raças,
Venho do
povo e do seu espírito,
Sou o que
canta a fé sem restrições.
Omne! Omne! Que os outros ignorem o que
quiserem,
Eu também
escrevo o poema do mal, também o celebro,
Sou bom e
sou mal e a minha nação também – e digo que de fato o
mal não existe,
(Ou, se existe, digo que é importante para vós como para o país
ou
para mim ou
seja para o que for.)
-----------
Nada existe
pos si,
Digo que a
terra inteira e as estrelas do céu existem pela religião.
Digo que
nenhum homem foi até hoje tão devoto como devia ser,
Nenhum
adorou ou venerou como devia,
Nenhum ainda
começou a pensar quão divino é e quão certo o futuro é.
Digo que a
verdadeira e permanente grandeza destes Estados deverá estar na religião,
De outro
modo nunca haverá verdadeira e permanente graneza;
(Nem caráter nem vida que mereça tal nome, sem religião,
Nem país, nem homem ou mulher, sem religião.)
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Fica a saber que, para lançar à terra as sementes de uma
religião maior,
Existem
estes cantos, cada um por si.
Meu
camarada!
Tens de
partilhar comigo duas grandezas e uma terceira ainda mais
esplendorosa,
A grandeza
do Amor e da Democracia e a grandeza da Religião.
Sou eu que
misturo o invisível e o visível,
Misterioso
oceano para onde correm os rios,
Profético
espírito da matéria que se move e me abraça,
Seres vivos,
identidades tão perto de nós e no ar sem que as conheçamos,
Contato diário e permanente do qual não me posso libertar,
Estes são os que escolho, estes são os que se insinuam e me procuram.
Não foi
aquele que desde a infância me tem beijado todos os dias quem
me atou, apertando este nó que a ele me
liga,
Aos céus e a
todo mundo espiritual não estou pres,
Depois do
que me fizeram ao sugerir-me os temas.
Oh, que
temas! Que equivalências! Oh, divino equilíbrio!
Trinados
debaixo do sol, anunciados agora, ou ao meio-dia, ou ao ocaso,
Melodias
fluindo através dos tempos, chegando aqui,
Seduzindo-me
com audazes acordes que prolongo e transmito alegremente.
-----------
Eu,
exultante, apresso-me a entoar cânticos mais poderosos e altivos dos
que até hoje se ouviram na terra.
Escreverei e
oferecerei os cantos da paixão,
E os vossos
cantos fora-da-lei que perscrutei com os meus olhos
cúmplices também os oferecerei.
Farei o
verdadeiro poema da abundância,
Para dar ao
corpo e à mente tudo quanto adere e avança e não morre
com a morte;
Irradiarei o
meu Eu para mostrar como é inerente a tudo, e serei o bardo
da personalidade,
E mostrarei
ao macho e à fêmea como são os dois iguais,
-----------
E mostrarei
que o que acontecer a será sempre mais belo do que a morte,
E enlearei
um fio através dos meus poemas para provar que o tempo e os
fatos são
compactos,
E que todos os
dias do universo são perfeitos milagres, todos eles profundos.
-----------
Repara, o
corpo é o significado e a essência, o corpo inclui a alma;
Sejas tu
quem fores, que soberbo e divino é o teu corpo e cada
parte dele!
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Oh, íntimo
camarada! Oh, tu e eu por fim, e só nós dois!
Oh, uma
palavra, para abrir o nosso caminho, para irmos eternamente!
Oh, algo
extasiado e indemonstrável! Oh, música selvagem!
Oh, agora eu
triunfo – e tu triunfarás;
Oh, mão na
mão – oh, prazer são – oh, mais um que deseja e que ama!
Oh,
apressa-se, firmemente abraçado – apressa-te, apressa-te comigo.
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Passemos ao
poema seguinte, que sintomaticamente tem o título de EUROPA. O primeiro verso:
“Subitamente, do torpor do seu covil, o
covil dos escravos”. Quem é o covil dos escravos? O Cristianismo, religião
que Nietzsche não cansava de repetir ser a dos escravos. Que se rebelam contra os reis. Estes aqui devem ser compreendidos
como a totalização dos poderes temporal e espiritual dos reinos cristãos, a
quem supostamente a América deveria suplantar e libertar com a nova religião
pagã instituída pelo poeta.
Nos versos
seguintes não fica dúvida sobre o que ele entende por Europa: “Oh, esperança e fé! Oh, doloroso fim dos patriotas desterrados!
Oh, cansaço dos corações!
Voltai o vosso olhar para esse dia e
renovai-vos”. Esperança e fé é o Cristianismo ele
mesmo, deixado para trás. Os desterrados são o cristãos aportados à América e
convertidos pela poesia (Folhas de Erva) ao neo-paganismo ou demonismo.
Renovação aqui é o retorno aos tempos pré-cristãos, não é renovação, portanto,
mas a exumação do que ficou para trás sepultado pelos tempos cristãos.
Vejamos o
seguinte trecho:
“Mas detrás dessa funesta rapina, uma
forma,
Vaga como a noite, suas escarlates
vestes caindo em intermináveis pregas
sobre a cabeça e todo o corpo,
Cujo rosto e cujo olhar ninguém podia
ver,
Afasta com o braço o manto escarlate,
E o seu dedo curvo ergue-se como a
cabeça de uma serpente”.
Essa imagem
viva lembra a cena do filme De Olhos Bem Fehados, dirigido por Kubrick,
aquela em que acontece o ritual na mansão presidido por um sacerdote vestido de
vermelho, ao som da música macabra, como se fosse acontecer o hierosgamos, o ritual pagão de morte e renascimento. É Satã
ele mesmo que aparece com seu dedo de serpente. Ele seria o suposto salvador do
Povo. É, na verdade, o seu coveiro. Whitman canta os jovens cadáveres sem
qualquer piedade. Está embriagado pela maldade, completamente inconsciente.
Esse também
é um poema aterrador. Abaixo segue a íntegra do mesmo.
EUROPA
Subitamente,
do torpor do seu covil, o covil dos escravos,
Saltou como um raio, meio surpreendida consigo própria,
De pé sobre
as cinzas e os farrapos, com as mãos apertadas à volta do
pescoço dos
reis.
Oh,
esperança e fé!
Oh, doloroso
fim dos patriotas desterrados!
Oh, cansaço
dos corações!
Voltai o
vosso olhar para esse dia e renovai-vos.
A vós,
canalhas pagos para corromper o Povo, escutai!
Apesar das
inumeráveis agonias, crimes, cobiças,
Apesar das
formas vis de roubo das cortes, aproveitando a simplicidade
do pobre para
roubar o seu salário,
Apesar das
promessas de reis quebradas entre gargalhadas,
Apesar de
tudo isso, não surgiram do poder os golpes de vingança, nem
caíram as
cabeças dos nobres;
O Povo
desprezou a ferocidade dos reis.
Mas a doce
misericórdia fermentou uma destruição mais amarga, e os
aterrados
monarcas regressam,
Com sua
pompa e o seu séqüito, com o verdugo, o clérigo, o cobrador
de impostos,
O guerreiro,
o homem de leis, o lorde, o carcereiro e o impostor.
Mas detrás
dessa funesta rapina, uma forma,
Vaga como a
noite, suas escarlates vestes caindo em intermináveis pregas
sobre a cabeça
e todo o corpo,
Cujo rosto e
cujo olhar ninguém podia ver,
Afasta com o
braço o manto escarlate,
E o seu dedo
curvo ergue-se como a cabeça de uma serpente.
Entretanto
jazem os cadáveres nas valas recém-abertas, os sangrentos
cadáveres dos
jovens,
Pesadamente
pende a corda da forca, voam as balas dos príncipes, riem
alto os filhos
do poder,
E tudo isso
tem os seus frutos, e é bom.
Esses jovens
cadáveres,
Esses
mártires suspensos das cordas, esses corações atravessados pelo
sombrio chumbo,
Frios e
hirtos, parecem, mas algures perdura a sua incólume
vitalidade.
Eles
perduram noutros jovens, ó reis!
Perduram nos
seus irmãos uma vez mas dispostos a desafiar-vos!
A morte
purificou-os, instruindo-os e inspirando-os.
Não há um
único morto pela liberdade em cujo túmulo não cresça uma
semente de liberdade, dando sementes também,
E os ventos
levam-nas e elas voltam a germinar e alimentam-nas
as chuvas e as neves.
Não há um
único espírito desencarnado e abandonado pelas armas dos
tiranos,
Que não
percorra invisivelmente a Terra, murmurando, aconselhando,
prevenindo.
Liberdade, deixa os outros desesperarem de ti – eu nunca desespero de
ti.
A casa está
fechada? Está o dono ausente?
Não importa,
continuai atentos, e pacientemente esperai,
Em breve ele
regressará, os seus mensageiros já estão a chegar.
VI
WALT WHITMAN
Epílogo
27/01/2007
Reformulei
minha intenção original de explorar mais dois conjuntos de poemas importantes do Folhas de Erva, o conjunto que está sob o
nome de CÁLAMO e que contém o
importante poema ATRAVESSANDO NO FERRY DE BROKLIN e o místico OS QUE DORMEM (“Agora avanço na escuridão, novos seres surgem,/A Terra foge de mim,
foge para a noite,/Vi que a terra era bela, e agora vejo que é belo o que não é
a Terra./ Vou de cama em cama, durmo com os outros que dormem,/Sonho no meu
sonho todos os sonhos dos que sonham, e transformo-me nos outros sonhadores./Sou
uma dança – tocai, tocai aí em cima! Dou voltas e voltas no meu arrebatamento!”),
no qual o autor se identifica com o demônio da noite, o Mal ele mesmo. Torna-se
uma assombração. Variações sobre o mesmo tema, concluí. O leitor que desejar
aprofundar uma análise mais ampla da obra nos termos que propus poderá seguir o
método aqui exposto.
Essa citação
mostra que, de fato, temos mais do mesmo. A identificação com a noite, o
descolamento do poeta da Terra, a dissolução no coletivo que “dorme” (entre
aspas, pois que para ele os mortos estão dormindo). A Massa, o oposto do
Indivíduo, é aqui colocada em outros termos. É como se só o poeta estivesse
acordado para ver as Trevas e toda a gente estivesse desacordada. É ele o
profeta e mesmo o deus que dança, uma espécie de Shiva, sublinhando o paganismo de que Whitman se faz
portador. É ele o próprio deus da dança, que cria o universo manifesto pela
ação de dançar.
“Novos seres surgem”. O que é isso? O
Inferno inteiro surge. Ele identifica-se com os demônios. “Tocai, tocai aí em cima!”. Ele saiu da Terra e está
em baixo, os que tocam estão em cima, supostamente os homens. Ele está
mergulhado nas profundezas da alma condenada à danação eterna.
Whitman,
como Nietzsche, deu voz a essa força irresistível que confrontou tudo que é
mais sagrado. Isso no âmbito da poesia, pois a emergência do Mal se deu como
movimento irresistível desde o Renascimento e chegou primeiro na filosofia. Na
pena dos poetas o registro é mais importante porque a coisa se dá de forma
espontânea, para além da razão, um registro que brota direto das profundezas da
psique. Whitman é o Kant da poesia. O Eu é o centro de tudo. “Penso, logo existo” é o precedente
filosófico explícito dele. Nietzsche é a conseqüência lógica do Idealismo e seu
decreto da morte de Deus fecha esse movimento medonho que percorreu quatro
séculos de decadência cristã. A Reforma religiosa só pode ser compreendida
nesse contexto. A quebra da unidade do Cristianismo foi uma mera brecha pela
qual a avalanche tudo soterrou. Não podemos esquecer que o povoamento da
América se deu sobretudo por puritanos e que só num
meio assim poderia nascer um poeta tão avassaladoramente anti-cristão.
Whitman é a
expressão poética máxima do relativismo moral dos tempos modernos, do seu
narcisismo, do onanismo, o homem tornado solitário por si mesmo, apartado
voluntariamente de Deus. Por isso seu ideal andrógino é o espelhamento do
símbolo do Maligno. É tão visível essa realidade nos seus versos que me
surpreende que a crítica, em 150 anos, não tenha denunciado esse verdadeiro
culto a Satã que é o Folha de Erva. Erva do Diabo,
erva daninha.
Quando lemos
o FAUSTO, do Goethe, sobretudo sua segunda parte, quando lemos A DIVINA
COMÉDIA, de Dante e a grande arte dos tempos ainda cristãos vemos que o que mudou
não foi meramente a estética, mudaram a temática e a conclusão. Aqui temos
o imaginário cristão, a Salvação, a Justiça divina, a plenitude dos tempos que
precisam ser cumpridos. Não há enfeite algum no morrer, a vida é um vale-de-lágrimas. Não há louvação ao morrer, como Whitman,
ímpio, o faz. Mas há redenção, temos a presença sublime da Mãe de Deus, de
Cristo, de Deus-Pai ele mesmo. Nesses tempos loucos de Whitman e Nietzsche
temos Shiva e Zaratustra, o velho e conhecido Diabo
exaltado como jamais foi.
Antes de
concluir quero falar de um último poema, pois que ele coloca o elemento
faltante para se formar um quadro completo das fontes de inspiração de Whitman.
Vamos a ele:
A BASE DE TODA A METAFÍSICA
E agora,
meus senhores,
Dir-vos-ei
algumas palavras que deverão permanecer no vosso pensamento
e na vossa
memória,
Como base e
conclusão de toda a metafísica
(Assim falou aos alunos o velho professor,
Ao encerrar o animado curso).
Após ter
estudado o antigo e o novo, o sistema grego e o germânico,
Estudado e
dissertado sobre Kant e Ficht, Schelling
e Hegel,
Exposto a
sabedoria de Platão e de Sócrates ainda maior do que a de
Platão,
E maior do
que a de Sócrates e do divino Cristo à qual longamente me
dediquei
Relembro
hoje os sistemas grego e germânico,
Observo
todas as filosofias, as igrejas e as doutrinas cristãs,
Mas vejo
claramente sob o nome de Sócrates, vejo claramente sob o nome
do divino
Cristo,
O termo amor
do homem pelo companheiro, a atração do amigo pelo
amigo,
Do esposo
pela esposa amada, dos filhos e dos pais,
De cada cidade por cada cidade, de cada terra por cada terra.
Para não me
alongar sublinho apenas dois pontos do curto poema. Primeiro, os filósofos
citados ou são pagão ou são os criadores do Idealismo, seus sucessores modernos.
Segundo, Cristo aqui é apenas uma palavra que quer designar o seu oposto, um recursos frequentemente utilizado pelo Negador.
O amor
cristão é o que sobe, Ágape, o que eleva o homem a
Deus. O amor pagão é Eros, o que desce. Cristo nada tem de socrático. O amor
cristão é de outra natureza, desprovido do erótico. Sagrado. Divino. Só uma
mente doentiamente tomada pelo Negador para colocar as coisas em termos
invertidos. Estamos mergulhados nessa atmosfera sombria dominada por Whitman,
Kant, Nietzsche e sua laia demoníaca.