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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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“V” DE VINGANÇA 17/10/2006 Já vi o filme “V” de Vingança, com roteiro dos
Irmãos Wachowski (diretores da série Matrix), por três vezes e gostaria de ver mais para
escrever este comentário. Baseado no texto de Alan Moore,
que virou histórias em quadrinhos, foi dirigido por James McTeigue,
diretor que eu não conhecia. A história se passa numa Inglaterra futurista,
depois de uma guerra com os EUA, cujo poder foi tomado com uma gang liderada
por um líder que é uma mistura de Hitler, Stalin e tem a cara de Lênin. Claro
que o discurso do tirano tem como mote falar mal da América. Não falta nem o
pistoleiro Beria, chefe da polícia secreta. É o
protótipo dos tiranos. O “Chanceler” (como não pensar em Hitler?) só aparece
em imagens televisas, exceto quando da sua execução, no final. Tudo que escapa
à homogeneização é perseguido e destruído. O medo é a base real de poder do
governo. O clima lembra o 1984, de George Orwel,
com o Grande Irmão a espiar a vida de todos pelos olhos eletrônicos. É
seguramente o filme político mais expressivo que vi desde a série do Godfather. Os diálogos são sheakespearianos.
No filme sublinha-se que coincidências não são meras
coincidência. O próprio filme, se tomarmos o que se
passa na América Latina, e no Brasil, não poderia ter vindo em melhor hora
para alertar-nos a todos dos perigos da tirania a avizinhar-se, que provoca
deliberadamente o caos para justificar-se e exercer seu poder maldito.
Depois da Segunda Feira Negra que São Paulo viveu,
com o caos a imperar – e preciso dizer aos meus leitores que há uma estranha
coincidência entre a baderna dos bandidos e a publicação pela revista Veja
dos extratos bancários das contas no exterior dos maiorais da Nação – são os
mesmos ineptos governantes que estão agora acusando a polícia paulista de
excessos. A película como que descreve a nossa realidade. Mas da mais negra tiraria e da mais tenebrosa
desesperança brota o indivíduo que não teme a morte, que é batizado pelo fogo
– no personagem masculino – e pela água, na sua versão feminina. Aí vencem o
medo dentro de si e tornam-se os campeões na luta contra os tiranos, e
vencem. Sabem, sabem que sabem e sabem de si. Tornam-se super-homens, além
das massas, além do homém-médio. O sofrimento
extremo deu-lhes a têmpera dos heróis. “Os governos é que deveriam temer o povo, não
o povo o governo”, uma frase lapidar. O homem da máscara é na verdade o
indivíduo diferenciado que há em cada ser humano. Quando ele aparece o poder
estatal se apequena, é destruído. A cena em que as Forças Armadas não têm
coragem para disparar contra seu próprio povo, em movimento pacífico, é
impressionante. O ator que faz o papel do general mostra a ambivalência do
comandante que não pode dar a ordem mais nefanda, a de aniquilar os seus
compatriotas. A destruição do prédio do parlamento é um
símbolo que mostra que a democracia, quando aparelhada para a tirania, não
está mais representada no Poder Legislativo. Torna-se ele outro símbolo, o da
opressão, e precisa ser destruído de forma impiedosa. Uma leitura rasa dessa
seqüência poderia dizer que os autores do filme não gostam da democracia. Não
vi assim, é exatamente o contrário. A democracia só está no parlamento quando
ele é legítimo e se subordina aos valores próprios da sociedade aberta. O filme é uma obra de arte notável também pela
sua trilha musical. A Abertura do 1812, de
Tchaikovsky, que é tocada em dois momentos, torna sublimes e espetaculares as
cenas de destruição que se desenrolam. O encontro do mascarado com o chefe da
polícia secreta é marcado pelo toque da Quinta Sinfonia de Bethoveen. Momento mágico, uma citação de Kubrick, que ornou o seu 2001 com outra notável peça
musical, o Danúbio Azul. O personagem mascarado sobrevive no submundo
lotado de livros e obras de arte antigas, uma síntese dos tesouros culturais
do Ocidente. Os restos de Israel. Consciência é preservação da tradição. Ele
luta com uma armadura. Veste a persona dos europeus
nobres dos tempos antigos, que eram nobres precisamente porque conquistavam a
distinção no campo de batalha, em defesa de seus compatriotas mais fracos e mais
pobres. Quem “sabe” é aquele que carrega o peso de todo nosso tesouro
cultural. É isso que pode tornar um homem-massa um indivíduo diferenciado.
Pelo conhecimento. Conhecer-se a si mesmo impõe conhecer os tesouros da
tradição. Em resumo, meu caro leitor, se ainda não viu o
filme, corra. Está saindo de cartaz. É de longe o melhor filme dos últimos
tempos. AINDA “V” DE
VINGANÇA 28/05/2006 Um filme tão espetacular como é o “V” de
Vingança está a exigir de mim alguns comentários adicionais. Quero por
primeiro sublinhar o caráter duplo dos personagens principais: “V” e “Evey” formam uma totalidade. O personagem feminino entra
na cena inaugural fazendo a narrativa de seu encontro com o seu duplo. A
mulher representa a Verdade, enquanto que o homem o guerreiro que a defende. A narrativa mostra ambos se preparando para
sair à rua, para viver a sua saga, ele se armando e ela se vestindo, como é próprio do ser feminino, sua arma. O pano de fundo é o
locutor governamental fazendo sua exaltação antiamericana
e sua profissão de falsa fé e de falso moralismo. Sua propaganda política
mentirosa. Na rua Evey é
surpreendida pelo toque de recolher “para a proteção do povo”, como se a
morte da liberdade protegesse alguém de qualquer coisa. Flagrada pelos
esbirros da ditadura Evey sofre a ameaça de
estupro, abortada pelo surgimento providencial do guerreiro “V”. Essa imagem
não poderia ser mais delineadora do que se passa nos regimes totalitário,
onde a liberdade é estuprada rotineiramente. Uma das falas capitais da película é quando
“V” se pergunta quem são os culpados e manda que todos se olhem no espelho. A
culpa é de todos e de cada um. Nessa cena imaginei o que acontece no Brasil.
Qualquer que seja o desfecho do processo que estamos a viver não há
inocentes. Todos e cada um de nós temos a nossa parte de responsabilidade por
colocar no poder a quadrilha criminosa de que nos falou o procurador-geral,
em sua denúncia. Não há inocentes. “Uma
Idéia não pode ser assassinada”, a idéia de liberdade. É uma frase
imortal. Notável como o guerreiro vingador se vale exclusivamente de armas
brancas, de punhais vingadores. “Há uma violência que trabalha a favor do
Bem” (faço citações de memória) e é aquela que vinga os sacrificados pelos
totalitários. Na verdade pode-se falar de uma violência defensiva do Bem, que
pode ser preventiva, como foi por aqui em 1964, e pode ser vingadora como
vimos na queda dos ditadores da Albânia e da Romênia. “Remember, remember, the fifth november”. Quase
gritei no cinema: Viva 21 de abril! Temos também as nossas datas sangrentas
em memória da liberdade. “V” vai matando cada um de seus carrascos, que
se revelam os líderes do partido totalitário que tomou o poder. Um deles é um padre pedófilo, que na verdade não é padre coisa nenhuma, é
um militante infiltrado na Igreja que vira bispo porque é dirigente
partidário e malfeitor enriquecido no poder. Outro, a cientista imoral que
não hesitou em fazer de seus compatriotas cobaias humanas, a fim de obter
seus objetivos torpes: semear o mal para vender o bem, a malvadez satânica
personificada em um rosto sereno. Claro, o sistema de poder totalitário exige
uma polícia política ativa. Quem cai nas suas garras não escapa. A fala do
ditador mandando seu Beria prender o que ele chamou
de terrorista é reveladora: “Pegue-o o mostre o que é o verdadeiro terror”. A cena final é emocionante. A multidão como
que desfila diante das forças militares, em inversão do que se poderia
esperar habitualmente. As Forças Armadas não podem agir contra seu próprio
povo. Correu-me uma lágrima no canto do olho, porque não dizer? É um fecho
surpreendente para uma história surpreendente. V” DE VINGANÇA
– FINAL 07/06/2006 Volto ao filme “V” de Vingança porque alguns
momentos capitais da película foram por mim negligenciados nos textos
anteriores. Relatei algumas citações de Kubrick,
mas não posso deixar de sublinhar o substrato principal, que permeia todo o
filme: a história do Conde de Monte Cristo, homem que sofreu a injustiça mais
atroz, tendo sido atirado impiedosamente às masmorras. Mas ele é forte e vence, não sem antes mergulhar no mais fundo de sua alma e
por isso é recompensado pelo tesouro = riqueza interior buscada quase ao
custo da própria vida. Torna-se um indivíduo no exato sentido da expressão.
Tiraram-lhe tudo: esposa, filho, honra, bens e até o
nome. Ele ficou só com a sua solidão e a sua sede de justiça:
“Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados”. A história de Alexandre Dumas é singular
porque os que praticaram a maldade estão além dos poderes desse mundo, pois
são eles mesmos os poderes: têm as
alavancas do Estado à disposição e também o poder do dinheiro. Estão a salvo
da Justiça, exceto a divina, cujo instrumento é a própria vítima vingadora. A
violência usada para o Bem. “Toda ação gera uma reação igual e contrária”,
frase que no contexto é lapidar. Aquele que sofre no limite do sofrimento, a
quem só restou o fio de vida, esse perde o medo de qualquer coisa, pois nada
mais tem a perder. Foi batizado pelo fogo e pela água. Torna-se o vingador,
semelhante a um Deus encarnado: “Minha será a vingança, eu é que
retribuirei”. Só há felicidade no final, quando cada um pode
escolher a sua árvore, o seu justo lugar no mundo.Num
dos trechos vemos uma saborosa citação de Macbeth,
de William Shakespeare, peça que se singulariza pelo fato de a protagonista
ser do sexo feminino, a que pensa, planeja, mas não tem como agir, age
através do marido, seu instrumento de ação. Assim é Evey,
o duplo feminino de “V”. Vejamos o trecho citado: "Estás
temeroso de ser o mesmo em teu próprio ato e valor de que em teu desejo? Não
terás o que mais estimas , o ornamento da vida , e
viverás um covarde em tua própria estima, deixando "Eu não posso"
ultrapassar "eu farei", como o pobre gato no adágio?". .. "És um homem". Uma mulher falando assim ao seu homem impele-o
para os embates gloriosos e desconfio que a maioria das mulheres fazem isso todos os dias. Não basta ser um mesquinho
homem, é preciso se superar, alcançar o cume dos heróis, ainda que nas coisas
do cotidiano. O cartão de visitas da mulher é a sua beleza, a do homem a
virtude da coragem. Esse é “V”, a mão que empunha a faca vingadora e
justiceira. O heroísmo final, momento em que “V” se dá em
sacrifício para completar o exercício da justiça contra os poderosos, é
sublime. Creedy, o Beria
do filme, a besta assassina, atira e fura mortalmente a sua armadura. “V”,
todavia, sobrevive o bastante para realizar a sua vendetta.
E diz uma frase lapidar: “Por baixo da armadura não está apenas carne, mas
Esperança” (cito de memória). Haverá uma maneira mais bela e poética,
sintética, de alguém se dizer cristão? Como no Matrix,
os Irmãos Wachowski deixam claro sua inspiração cristã,
pois não se pode falar da civilização ocidental, como o faz o filme, sem
falar do cristianismo de forma afirmativa e maiúscula Eis o filme. Vê-lo é um deleite para o
espírito, uma instrumento de inspiração, um consolo para quem, como nós
brasileiros, estamos a flertar sem pudor com o totalitarismo. Resposta a um e-mail – Em 24/06/2006 Nivaldo: Não viu
nada de gay???? O mote é simples: o problema maior
daquele governo, segundo o filme, não são os campos de concentração, os
experimentos biológicos, a falta de liberdade de expressão, mas sim o simples
fato de que eles não permitiram duas lésbicas de usufruir
do "amor que não ousa dizer o seu nome". As outras
atrocidades são nada perto deste "preconceito" que o governo
totalitário faz contra seus cidadãos. Além
disso, o romance entre V e Evey é inverossímil,
além de ter diálogos mal escritos. Na obra de Alan Moore,
a relação é entre mestre e discípula, não entre amante e amado. Para mim, o filme não passa de uma bobagem
inconseqüente. Abraços Caro Amigo Você está errado. O gay
no filme significa duas coisas. Primeiro, que uma
sociedade aberta deve tolerar os diferentes, mesmo que esses sejam seus
inimigos declarados. Os totalitários querem a uniformidade. O filme é
sensacional precisamente por sublinhar esse lado do totalitarismo. Em segundo, é que está associado ao gay tudo
que há de ruim. Corão, suásticas nazistas,
deformação psíquica. O gay não é pintado favoravelmente, mas é posto como
vítima da uniformização totalitária, o que é correto. O gay do filme é também
um totalitário, não luta pela liberdade, mas pela substituição do
totalitarismo por outro. Isso é simplesmente genial. Nem os movimentos gays
perceberam o malho que tomaram. Sem falar que associar o Corão
com gay foi audaz. Alan Moore, se tivesse feito o roteiro, seria um outro filme. Os
Irmãos Wachowski é que deram o toque final. Esperança, mais que carne, por baixo da
armadura! Não há romance entre os personagens principais, caro amigo, pois são figuras arquetípicas, uma duplicidade. A forma pura masculina e
feminina de heroísmo. A Verdade e seu Guerreiro. Think about. Veja o filme de novo. A questão das lésbicas é uma historieta
paralela, a enfatizar a necessidade da tolerância. Para mim o charme mais encantador está na
alusão ao Conde de Monte Cristo. Que é o Monte Cristo? O Gólgota.
O nobre (o indivíduo) que acha no Gólgota a sua
liberdade e o seu tesouro, a sua Justiça. O Gólgota,
o lugar do Santo Suplício. Mais cristão que isso só se ele elevasse lá o
Cruzeiro. Nivaldo |
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