NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado

 

 

 

 

 

 

 

VAN GOGH E NIETZSCHE

06/04/2007

 

Estou em rápida passagem por Amsterdã e hoje tive a rara oportunidade de visitar o museu dedicado a Van Gogh. Em belíssimo prédio modernista, que contrasta com a arquitetura tradicional da cidade, aloja o melhor do pintor holandês. Algumas de suas telas causaram-me forte impressão e não pude deixar de meditar sobre o significado delas, bem como da biografia do pintor, um grande gênio.

 

Os paralelos com Nietzsche saltam aos olhos. Se este morreu louco Van Gogh tinha seus momentos de franca loucura, chegando a se internar numa clínica na França. Em seus acessos chegava ao limite da auto-mutilação, tendo certa vez cortado fora um pedaço da orelha esquerda. Ficava louco de pedra. Por fim, atirou em si mesmo em meados de 1890 num gesto de loucura final. Um ano antes Nietzsche afundou-se na própria insanidade, dela nunca mais voltando. Ambos foram um fracasso comercial durante a própria existência, ninguém comprava suas obras.

 

O paralelo pode ser estendido também ao poeta Walt Whitman, formando o trio que moldou a filosofia, a arte e a poesia no século XX. Viveu no mesmo interregno de tempo. São, esses homens, o requinte da modernidade, seu produto mais notável. Gravada em uma parede do museu pude ler que Van Gogh dizia que sua técnica era “natural”, a palavra mágica da modernidade, repetida para dar ênfase ao uso da razão, em oposição a qualquer coisa que tivesse conteúdo religioso-transcendente. Quão diferentes são seus temas daqueles dos tempos renascentistas! Deus está fora de sua agenda (a exceção é o quadro Pietà, que mostra um Cristo disforme, o luto fechado da Mãe, a sombra sobre o céu visto desde dentro do Sepulcro, como se o Mal o levasse e ao Mundo junto. É o Mal, e não Cristo, quem está verdadeiramente compondo o quadro). Só homens, mulheres e a paisagens são retratados.

 

Whitman, por seu turno, cantou o Mal como ninguém o fez, como pude demonstrar em recente comentário sobre sua obra. Nietzsche e Van Gogh morreram loucos. Whitman, empobrecido e esquecido, morreu solitário até mais não poder. Será o “naturalismo” (uso a palavra no contexto, e não como o termo técnico empregado na história da arte) uma forma de loucura? Ou será a modernidade ela mesma uma loucura que devora, um a um, os seus autores?

 

Não escapa aos olhos de quem vê os quadros do pintor que seu traço está carregado de sombras do Além, que nada têm de “natural”. A Terra é retratada devastada, assim como seus personagens. É sua técnica, na verdade, o anti-naturalismo, apropriadamente apelidada de impressionismo. Somente um estudo sob a ótica da psicologia analítica poderia revelar o sentido (se há algum) do conjunto da obra. Van Gogh pintou a loucura do Ocidente moderno mais do que a própria loucura. Sua mente delicada e triste queimou-se ao revelar essa realidade que se dava aos seus olhos, a realidade das sombras, dos traços desfocados, dos conteúdos tétricos, a morte e o Além como presenças em cada uma das peças. Por isso sua obra é triste, embora emblemática para a compreensão do nosso tempo.

 

Não me escapou que na peça Noite Estrelada uma lua é retratada em foram de Crescente, símbolo largamente enfatizado por Whitman. Quando há igrejas retratadas é em paisagens de cemitérios, com corvos e outros símbolos das trevas em derredor, o mesmo pássaro preto cantado por Whitman. A impressão que causa é de grande terror, no qual vivia mergulhado. O Mal em ação. Como em Whitman. Como em Nietzsche. Não é ao acaso que escreveu: “A noite é mais ricamente colorida do que o dia”, algo perfeitamente absurdo. Retratou as trevas, não a luz, algo bem paradoxal para um pintor.

 

Há um elemento de narcisismo em seus muitos auto-retratos. É um símbolo da modernidade, que coloca o Eu como centro de tudo, o perfeito demiurgo a criar o Mundo. É como se o artista quisesse nos dizer que ele criava não apenas o Mundo, mas a si mesmo. Uma pista sobre o pensar desses tempos de decadência do Ocidente.  Sua morte trágica nega veementemente essa pretensão da modernidade, que é só arrogância, fogo fátuo, o homem arvorando-se a assumir o lugar de Deus e destruindo-se no processo. Tem sido tragédia sobre tragédia, e não apenas no plano pessoal. Os milhões de mortos do século XX são o resultado de toda essa loucura infernal. Quantos mais morrerão?