NIVALDO
CORDEIRO: um espectador engajado
UM LIVRO CENTENÁRIO
23/03/2008
“Onde quer que eu esteja
em minha caminhada, acontece que estou sempre à mesma distância de Deus”.
Thomas Morus, na Utopia
Em 1904 Max Weber
publicou um livro memorável – A ÉTICA
PROTESTANTE E O ESPÍRITO DO CAPITALISMO – obra esta que, não obstante seus
erros crassos e sua falsificação da história, é tida e
havida como um marco insuperável da sociologia pelo conhecimento convencional. É
o livro-texto obrigatório para todos os estudantes universitários do Ocidente,
quiçá do mundo, que entope seus cérebros com falsas verdades e mentiras
inteiras. O autor não apenas enganou-se, mas enganou também as gerações
sucessivas que o têm lido obrigatoriamente nos cursos superiores. Meus filhos, que
são estudantes universitários, tiveram que encarar ainda uma vez a maçaroca
insípida do alemão, obrigados que foram por seus
professores de Humanidades, especialmente do curso de Sociologia, a digeri-lo.
Como uma
falsificação histórica dessa envergadura e uma mentira científica – na verdade,
a negação da ciência – pôde se manter de pé e atual para os acadêmicos de todo
o mundo? Pretendo dar uma breve resposta nas linhas que se seguem. A sociologia
de Weber acaba por se tornar mais um capítulo tardio da Reforma religiosa.
Weber não esconde sua admiração por Calvino, embora ele próprio não professasse
religião. Da sua obra emerge a caricatura de seguidores católicos como seres
retrógrados e avessos ao progresso do conhecimento, sendo supostamente os
hereges protestantes o seu oposto. Uma absurda falsificação. Desde Orígenes que
a Igreja optou pelo Deus dos filósofos, denunciando os deuses mitológicos dos
Estados antigos, deuses estes que se confundiam com a própria pessoa do
imperador. Jesus não representava os costumes, mas a verdade, para relembrar o
famoso dito de Tertuliano. Por isso era o Logos, o
mesmo Logos de Platão e Aristóteles. Por isso o cristianismo católico – o
cristianismo por antonomásia – era tão subversivo e de fato, depois da figura
excelsa de Agostinho, conseguiu domesticar o poder absoluto do Estado. Tão
subversivo foi o cristianismo que submeteu o império, moldando-lhe o sistema
jurídico, e por séculos implantou na Europa o que Paul Johnson acertadamente
chamou de Sociedade Total, que se
opõe ao monstro atual ao qual chamo de Estado
Total.
Antes de
Agostinho só Platão conseguiu esse tento, ao dar caráter jurídico ao Estado, um
grande momento de iluminação pelo qual os governantes
desde então passaram a exercer o poder mediante leis previamente aprovadas
pelos representantes do governados, mesmo que por vezes esse representante legislador
viesse a ser uma oligarquia ou mesmo um déspota como Júlio César. Desde então
nenhum homem foi obrigado a nada senão pela força da lei. A esse processo foi
seguida a implantação da igualdade jurídica de todos os cidadãos, culminando
com o banimento da escravidão praticamente em todo o Globo. A escravidão é
eliminada por obra e graças do cristianismo. Cristianismo é liberdade.
O cristianismo
foi o segundo passo decisivo na domesticação do poder depois da descoberta de
Platão, filósofo que foi contemporâneo do profeta Isaias. O Deus único de
Israel não era um Deus estatal, não tinha território e o povo escolhido devia-lhe obediência e não ao poder político. Estava
proibido de adora os bezerros de ouro, vale dizer, Moloch
e Baal, formas de deuses estatais. Esse é o
significado do magnífico símbolo da libertação do povo hebreu do Egito e,
depois, do exílio babilônico. Não era uma mera libertação de uma dada situação
de cativeiro, mas a libertação do reino desse Mundo contra o qual Cristo veio
se opor. A libertação da alma imortal precisa negar o poder de Estado
mitológico. O Faraó representava a escravidão de toda a humanidade ao poder
mitológico dos Estados em todos os tempos. Reencarnações do Faraó nos tempos
modernos foram Hitler, Lênin, Stalin e Mao, para ficar nos mais conspícuos. Em Cuba o processo é
plasticamente representado pelas sucessivas fugas em embarcações precárias
contra o Faraó mumificado Fidel Castro, em busca da liberdade. Os que morreram
pulando o Muro de Berlim mostraram o quando custa chegar a Canaã sem que Deus
de novo faça o milagre de abrir passagem no Mar Vermelho.
Weber, com a
enorme acumulação de dados eruditos e irrelevantes sobre religião, não foi capaz de
ver esse óbvio, essa grande marcha humana em busca da liberdade cuja fundação é
o Deus de Israel e a sua sacramentação na história
pelo Advento de Jesus de Nazaré. Cristo diante de Pilatos
é a expressão acabada desse processo de civilização. O que é a verdade? Perguntará
o romano espantado. O homem sem a ajuda de Deus jamais teria escapado aos
grilhões dos Faraós de todos os tempos, dos Césares
tão arrogantes quanto efêmeros.
Onde o erro
de Weber? Na premissa de que a sociedade capitalista emergiu por conta de
mudança nas questiúnculas teológicas das heresias cristãs, especialmente
aquelas variedades provindas do Calvinismo. Ora, a base capitalista da
sociedade foi um processo milenar que vem desde a antiguidade, passando pelo formidável
desenvolvimento da agricultura no tempo medievo por obra dos monges católicos,
especialmente aqueles vinculados à Ordem de São Bento e a dos monges
irlandeses. Os monges dominaram a natureza, aumentaram a produtividade do
trabalho e, sobretudo, introduziram formas de trabalho assalariado que
revolucionaram o processo produtivo. Questiúnculas teológicas não tiveram
qualquer importância para a vida prática. E, essencialmente, as heresias
cristãs eram ainda cristãs e a questão relevante era comparar a cristandade com
outras formas de civilização ossificadas e paralisadas no tempo, como a
islâmica, a chinesa e a hindu.
O
judeu-cristianismo desencanta a natureza e, sobretudo, desdiviniza
a política. O imperador não é mais o deus vivo. Quando muito o é pela graça de
Deus, com a obrigação de respeitar os preceitos da Igreja e da Bíblia, o
direito natural fundado em base teológica, de fazer imperar o reino da Justiça.
Por que o
capitalismo surgiu na Europa cristã e lhe deu o domínio político, militar e
cultural de todo o mundo, submetendo as culturas mais retrógradas desde pelo
menos o século XV? Porque o cristianismo é a civilização por antonomásia e
dominou porque tinha para dar às demais civilizações o sentido civilizacional. As heresias foram meros desvios que nenhum
poder heurístico têm sobre esse processo civilizador. O Ocidente deu sua
ciência, sua técnica, suas leis, suas instituições, sua liberdade aos povos
conquistados. Seu progresso foi a grande dádiva para o mundo.
Weber não
notou que muito mais relevante do que as heresias teológicas reformadas foi a emergência das filosofias mortas da antiguidade,
nomeadamente o epicurismo e o estoicismo, que dominaram de forma avassaladora a
inteligentzia
ocidental desde o Renascimento. Weber ignorou solenemente esse fato mais
formidável do pensamento e da religião, pois afinal essas duas escolas
filosóficas são a alternativa materialista ao cristianismo. São incompatíveis
com o cristianismo e foram derrotadas nos século IV e não deveriam ter sido
exumadas. Num primeiro momento essas idéias neopagãs permitiram
romper com certas amarras espirituais que não deveriam ter sido rompidas, pois
eram os diques que de certo modo domavam o Mal que impera na alma do homem.
Essa ênfase na matéria e a negação do Espírito por parte desses filósofos
explicam de forma muito clara a aceleração da dominação da natureza, cujo tento
mais eminente é a capacidade que a humanidade tem hoje de auto-destruir-se no holocausto atômico. Era contra
esse Mal intuído em potência que homens como João, o Apóstolo, pregavam . O Apocalipse de São João é uma desesperada
proclamação desses perigos transcendentes. O Mal opera e hoje está na mão de
pessoas moralmente desqualificadas e apartadas de Deus a decisão de apertar os
gatilhos do Armagedon. Já o fizeram uma vez, nada
impedirá que o façam novamente.
O erro
metodológico de Weber fica evidente já nas páginas iniciais de seu livro, ao
citar o longo trecho de Benjamin Franklin, sustentáculo de seu argumento.
Certo, Franklin vinha de família calvinista, mas as suas idéias não eram mais
cristãs, embora talvez nem mesmo ele tivesse se dado conta disso. Franklin era
maçom e até hoje tanto a Igreja Católica como a Presbiteriana não aceitam em
seus meios quem milita na maçonaria, o que já torna problemática a sua
confissão religiosa. O mais relevante, todavia, é que Franklin, como Jefferson
e outros intelectuais de peso da América e da Europa, estavam já totalmente
tomados pelas idéias estóicas que se disseminaram no mundo desde a Renascença.
A elite européia que rompeu com Roma caiu nas garras das idéias pagãs. A
própria Declaração de Independência dos
EUA é uma peça estóica acabada, fazendo coro com sua co-irmã Declaração Universal dos Direitos do Homem
e do Cidadão, editado pela Assembléia Nacional Francesa. As teses da
Vontade Geral, da igualdade e dos direitos vindos antes do deveres foram
resgatadas das tradições estóicas. E mesmo a idéia de um governo mundial que
encontrará em Kant o seu grande teórico é genuinamente estóica e se encontra na
obra A República, de Zenon.
É espantoso
que um intelectual da envergadura de Weber não tenha se dado conta da importância
do Estoicismo e do Epicurismo que avassaladoramente tomaram conta das idéias
ocidentais. Essas filosofias darão suporte ao desenvolvimento das ciências – a
manifestação mais conspícua é o surgimento da teoria do valor-utilidade que
alcançou tal hegemonia que não se produz uma linha em ciência econômica, e nas
ciências sociais em geral, que não esteja firmemente baseada nela. Weber
ignorou o mais importante. Questiúnculas teológicas não tiveram nenhuma
importância na formação do capitalismo moderno. O risível é que toda a gente
bem pensante, influenciada pelo erro de Weber, pensa que sim. Grande engano. A
mentira tornou-se a substituta da verdade. É a Babel revivida na mente dos
cientistas modernos.