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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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UMA ILUSÃO
PERIGOSA 30/01/2008 Quero aqui comentar o artigo
publicado na Folha de São Paulo de
hoje (“Bolívia: a multidão constituinte”), de autoria de Antonio Negri e Giuseppi Coco. O
primeiro autor é aquele implicado no planejamento e fuzilamento do político
italiano Aldo Moro, membro que foi das Brigadas Vermelhas à época e que
cumpriu pena na Itália por isso. O segundo autor é um dedicado discípulo seu.
Esse artigo, embora curto, é muito importante pelo que diz e pelo que fica
implícito. Um notável comunista europeu
comentando o que se sucede por aqui já é um símbolo: a revolução do Foro de
São Paulo está em marcha e é objeto da análise dos seus principais
intelectuais orgânicos. Há duas questões a analisar: os fatos que se sucedem
e o que pensam desses fatos seus teóricos. Vejamos o primeiro parágrafo: “A Bolívia constituinte de Evo Morales e Álvaro García Linera
concentra o conjunto dos processos de transformação democrática que
atravessam e revolucionam a América do Sul, seus movimentos sociais e as
experiências dos "novos governos" de Brasil, Argentina, Equador e
Venezuela”. Fato: a Bolívia é bem o
espelho da subversão dos valores democráticos que está a ocorrer em todo o
continente. Um segundo fato: isso só foi possível pelo apoio da Venezuela e principalmente
do Brasil, por sua complacência na nacionalização dos hidrocarbonetos,
espoliando a Petrobrás e os consumidores de gás importado de lá. Evo não é nada, é um mero joguete no tabuleiro de xadrez
que está sendo jogado no Palácio do Planalto. Uma piscada
de Lula e o índio cocaleiro voltaria para a
oca, de onde nunca deveria ter saído. Continuam os autores: “Os novos movimentos, dos quais Evo é a expressão, não só renovaram as lutas a favor do
controle público do fogo, do ar, da água e da terra, dando nova força aos
tradicionais projetos de "independência" nacional e
desenvolvimento, mas foram eles mesmos fato
inovador, que mostrou sujeitos de tipo novo, em particular, a multiplicidade
das comunidades indígenas”. Fato: Evo é criação
do Foro de São Paulo, o veículo que “renovou” as lutas revolucionárias na
América do Sul. Fato dois: o controle dos “elementos” fogo, ar, água e terra
(e votos) se deu pela estatização (Bolívia) ou pela
tomada do poder central onde já haviam sido estatizados
(Venezuela, Brasil). O sujeito do processo revolucionário aqui não são os
índios nem os supostos explorados, mas a classe de revolucionários
profissionais que foram alçados ao poder em tempo recorde, por meio do voto e
de forma sincrônicas em vários países. Nunca foi tão fácil tomar o poder de
Estado, sem disparar um tiro que seja. Então onde o autor fala de índios,
entenda-se a vanguarda revolucionária, que é ela mesma quem manda, articulada em escala continental. Continuam os autores: “A reivindicação do controle público sobre
recursos naturais se articulou assim com a redefinição das próprias
características do Estado em direção a um Estado pós-nacional, fundado na
multiplicidade dos sujeitos. Ainda mais interessante, tudo
isso visa também uma gestão democrática das empresas públicas: democracia e
desenvolvimento devem andar juntos”. Aqui a porca entorta o rabo. Que
diabos seria um “Estado pós-nacional”? Rigorosamente um Estado anexado por
outro, feito província de um império. É disso que os gajos
estão falando, da recriação de uma espécie de República Socialista Soviética
da América do Sul e ficam com esse palavrório que à primeira vista nada
significa. Chamo a atenção do leitor para o potencial de violência embutido
nessa tese, pois desde o Tratado de Tordesilhas a América espanhola manteve a
sua unidade na diversidade, assim como a América portuguesa manteve-se unida
sob a bandeira do Brasil. Uma tentativa imperial certamente conflagrará a
região. Essa história de pós-nacional
esconde o jogo que já toda gente sabe: a criação de um império continental
com capital em Brasília. Isso certamente faria eclodir guerras e rebeliões em
todos os recantos. Cento e cinqüenta anos de paz desapareceriam num passe de
mágica se esses malucos levarem seus projetos às últimas conseqüências.
Quando se enxerga o que se passa é que a lógica do jogo da diplomacia de Lula
fica clara: Evo, Hugo Chávez,
FARC e todos os governantes encabestrados pelo Foro
de São Paulo estão agindo na direção do mais trágico erro político que o governo
brasileiro poderia cometer, que é cair na tentação
imperial. Isso poderá custar anos de guerra e a vida de muita gente. “Na Bolívia, diferentemente da Venezuela e de modo mais eficaz, os
movimentos são diretamente o motor do processo de transformação do Estado. O
caráter inovador da revolução boliviana está no fato de o poder constituinte
se inserir no sistema das fontes do direito. Ele não é apenas um momento
constitutivo (puramente inicial) da legitimidade constitucional, mas fonte
continuamente produtiva do direito. Disso derivam transformações fundamentais
propostas pela nova carta constitucional: a descentralização do Estado, as
autonomias, o Estado plurinacional, a
multiplicidade das instâncias de poder etc”.
Quanta baboseira. A fonte do direito a que ele se refere são os agentes da
vanguarda revolucionária que perseguem seu projeto de poder, que lograram
impor a sua vontade pela manipulação pura e simples. Até agora esses agentes
encontraram terreno livre e nenhuma oposição (exceto na Colômbia), inclusive
dos EUA. As elites dirigentes e econômicas desses países estão inermes,
paralisadas, sem reação diante da catástrofe que se avizinha. Penso que essa
falta de oposição pode ter chegado ao fim e no Brasil o sinal mais forte
dessa realidade foi o posicionamento do Senado Federal pelo fim da CPMF. Lula não terá uma re-reeleição
“democrática” pelo voto direto, pois o Senado, hoje, recusaria qualquer
emenda constitucional nesse sentido. É questão em aberto o que vai acontecer
se Lula realmente ficar inelegível, pois as forças de esquerda lideradas pelo
PT não dispõem de um outro cabo eleitoral à altura. Só restaria o caminho da
força bruta, que lamentavelmente não vejo como descartado. “Por isso, o enfrentamento contra o bloco do biopoder
se concentra na Constituinte. Ao mesmo tempo, o enfrentamento tem duas
dimensões: de um lado, o retorno do tradicional racismo neocolonial; de
outro, o uso "separatista" pelo bloco do biopoder
da abertura democrática representada pela proposta das autonomias. Os autores se voltam para o
conjunto, fazendo da Bolívia o centro de convergência dos interesses
estratégicos revolucionários: “Primeiro,
as contradições internas às relações com Brasil, Argentina e Chile se
desenvolvem no marco do apoio diplomático dos novos governos desses países ao
processo constituinte boliviano e do isolamento continental do separatismo
quase fascista dos departamentos da "media-luna"
(liderados por Santa Cruz). Em segundo lugar, outro terreno importante -que,
pela novidade, exige cuidado e prudência- é o das decisões de Petrobras e BNDES de multiplicar os
investimentos na Bolívia”. Ora, BNDES e Petrobrás são órgãos do Estado
brasileiro, que estão sendo usados de forma espúria para apoiar e financiar o
movimento subversivo do país vizinho. Novidade como fato histórico, sim, mas algo
perfeitamente previsível dentro dos movimentos dos agentes revolucionários em
ação no conjunto desses países.
Vejam a maluquice dos autores:
“O Estado plurinacional
é também pós-soberano: mergulhado nas dinâmicas horizontais da
interdependência”. É uma confissão dos maus propósitos, mas é também uma
profecia. O conceito de Estado plurinacional e pós soberano para um país fraco como a Bolívia, vizinho do
gigante Verde-e-amarelo, tem um nome preciso no vernáculo:
província. É disso que a dupla de autores fala quase sem se perceber. O sonho
comunista transformará o Brasil no país mais odiado da América do Sul, criará
enfrentamento imediato com a Colômbia, com os EUA, com todos os países
governados por governos sãos e com eventuais governos nacionalistas que
sucedam malucos como Hugo Chávez e Evo Morales. O bom desse artigo é que, em meio à
linguagem idiota, os autores fizeram o prognóstico mais preciso do que deve
ocorrer nos próximos anos. Será a Bolívia a Polônia brasileira? Quem viver
verá. |
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