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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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THOMAS MANN HOJE 20/09/2011 Nos últimos meses mergulhei na obra de Thomas
Mann e de seus comentaristas, com o objetivo de apresentar um curso sobre o
autor agora em outubro (A
música do apocalise - Thomas Mann e a lenda do
Doutor Fausto). Eu tinha clareza do que queria, mas esse mergulho me
permitiu ir além: ver o autor alemão em sua plenitude, seu lento processo de
amadurecer para ser a consciência crítica do seu povo. A obra de Thomas Mann
é o fecundo diálogo com as obras de Goethe e Nietzsche, especialmente estes
dois. O decorrer da sua vida permitiu que ele partisse do deslumbramento
inicial da juventude para a crítica mais implacável e corrosiva. No Doutor Fausto essa crítica se mostra por
inteiro. É o mesmo Fausto de Goethe reescrito sob a pele de Nietzsche que lá
aparece. O livro é um apogeu. Com as guerras e a subida dos nazistas ao poder
Thomas Mann não teve dúvida de que estava diante do mal
mefistofélico integral, encarnado na saga de seu povo, a amada Alemanha. A
história da Alemanha então se confundiu com a história de todo o mundo, pela
guerra, pela ânsia opressora dos nazistas e pela violência sem tamanho que
perpetrava. Mann percebeu onde foi dar aquele conceito de germanidade que ele próprio
havia abraçado com firmeza ingênua em 1918, ao publicar o livro mais ridículo
que poderia ter feito: o Considerações de um
Apolítico. A germanidade é desses conceitos
alucinados que só intelectuais fáusticos poderiam
fabricar. Propunha um abismo entra os germânicos – a Alemanha – , tida por berço da cultura,
em oposição e contra a civilização,
identificada difusamente com a França, mas que na verdade é o cristianismo e
o catolicismo. Foi a base para a política racista e
genocida de Hitler. Certamente Thomas Mann descobriu que ele também contribui
para a explosão de violência louca dos anos trinta e quarenta, ainda que de
forma inconsciente. Thomas Mann, todavia, era grande demais e
ético demais para cair nessa estreiteza caricata de forma permanente. Na
verdade, não obstante as idéias idiotas contidas no
Considerações de um Apolítico, a exegese da obra dele mostra que,
desde o início, ele colocou reservas severas a essas idéias. Tomemos o livro
A Morte em Veneza. Ali está o esticismo em seu
esplendor, apresentado de maneira bela e sofisticada, uma obra digna de um
Platão. O que nos diz? Que o esteticismo é morte, é louco, é o Mal. Sem tirar
e nem pôr. Viu o real, embora estivesse integralmente mergulhado no quadro da
cultura do início do século XX. Essa grandeza ética vai explodir em 1922, ano
em que proferiu o famoso discurso que, no espaço de duas laudas, negou tudo
que escreveu em 1918. E repudiou violentamente o bestseller
da época, o livro de Spengler A Decadência do
Ocidente. Motivo: trabalhar com o ingênuo e mortal conceito de cultura x
civilização. Em 1924 veio à luz o livro A Montanha Mágica,
o melhor dos seus livros. É um superlativo de símbolos, de psicologia, de
religiosidade, de inconformismo com a modernidade. Hans Castorp,
o personagem, concluiu os seus dias nas trincheiras da I Guerra Mundial. O
próprio ambiente do romance é um asilo para tuberculosos, quando a doença não
tinha cura. Seu diagnóstico continha algo como que
uma sentença de morte. Uma doença pulmonar, do pneuma,
do espírito. Tinha gente de toda Europa e do resto do mundo buscando
tratamento. A humanidade inteira infectada pela pestilência espiritual. Aqui
também a herança de Goethe está presente. O próprio Mefistófeles atua naquele
ambiente infernal. Será no Doutor Fausto que esse amadurecimento
espiritual será exposto com todas as letras. Hitler é a conseqüência lógica
da Reforma, de Goethe, do germanismo em sua batalha contra a civilização. De
tal modo o livro é importante que arrisco dizer que
Thomas Mann foi único que compreendeu o que estava em jogo, desde a origem,
quando o processo todo estava em marcha e as potências do Ocidente ainda
falavam em desarmamento voluntário. Por isso Thomas Mann nunca fez concessões
aos nazistas. Esse ponto de sua biografia o enobrece e exalta. Um gesto assim
peremptório – que lhe custou dinheiro, bens, a própria nacionalidade – mostra
como a sua consciência história foi aguda. E como jamais recuou na denúncia
do Mal. Coragem e verdade combinadas, como em um Goethe renascido. Os paralelos com os tempos de hoje são óbvios.
O mundo em crise; a Europa em crise. Entender o que se passa exige o resgate
de Thomas Mann, a voz que continua a ser a consciência critica do povo
europeu. |
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