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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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TEMPOS OBÂMICOS (II) 06 de novembro de 2008 No artigo anterior tentei mostrar que a idéia de
mudança, associada à campanha do presidente eleito, é falsa, visto que Barack Obama é a expressão política
mais acabada da radicalização da estrutura de poder instalada no Estado
norte-americano. Foi essa estrutura de poder que gerou a crise atual. E qual
é esta estrutura? Aquela que deposita no poder de Estado a esperança de que
ele tenha as soluções para todos os problemas humanos, seja por medida
legislativa, seja pela ação direta do ente estatal. Essa estrutura de poder
determina a expansão continuada da oferta de moeda, dos gastos públicos e das
ações militares. É nisso que essa gente acredita. Dominando a Casa Branca e o
Congresso, os liberais esquerdistas poderão agora levar a sua pseudo política ao limite do possível. Naquele
artigo sublinhei a falsa crença de que seria possível, via ação estatal,
suprimir a lei da escassez. Quero aqui sublinhar outras crenças, não menos
perigosas e falsas. [O discurso sóbrio de Obama em
Chicago foi apoteótico em face da platéia prostrada a seus
pés. As imagens foram assustadoras, até gente como Colin Powell chorando. Fez-me
lembrar de Hitler no seu auge, desprovido da fúria vingativa que portava o
alemão. Hitler também invocou o efeito raça
a seu favor. As manifestações populares por todo o mundo foram algo
assombroso também, visto que o eleito nada tem a ver diretamente com
africanos, europeus e asiáticos. As massas mundiais, de fato, identificam-se
com a pessoa carismática do presidente eleito. Sóter,
um salvador, é o que todos enxergam, em delírio alucinado. Mas ele não pode
ser isso, é na verdade o oposto disso. Sua única e irredutível proposta é pôr
o Estado a serviço dos apetites das massas, satisfazendo os dois vícios mais
comuns, a preguiça e ócio. E prometendo o que não pode prometer: a eliminação
do risco existencial. A decepção das massas será tão rápida quanto foi a sua
adesão. O principio de realidade não tolera os sonhos. A crise está aí para
ser enfrentada.] Uma das
questões práticas relevantes que Obama terá pela
frente é a guerra no Iraque. Não consigo imaginar uma saída rápida e
unilateral das forças expedicionárias que lá estão. Se assim for feito a
guerra civil se instala de imediato e um confronto entre os xiitas iranianos
e os sunitas sauditas será questão de dias. A presença norte-americana ali
garante que esses brigões não briguem. A saída das forças dos EUA e o
conseqüente conflito elevariam o preço do petróleo a números imprevisível,
desestabilizando ainda mais a economia mundial. O preço em vidas também seria
brutal. Isso obrigaria um retorno, mais caro e mais custoso, das forças que
ora estão lá. E um retorno seria pior também porque o Irã teria que ser
enfrentado e, com ele, talvez Rússia e China. Em resumo, uma saída rápida e
unilateral seria algo tão estúpido como foi a
política unilateral de desarmamento feita pela Inglaterra e EUA na década de
Trinta do século passado. Da mesma
forma, não enfrentar a ameaça nuclear do Irã, em termos categóricos, é
convite para que as forças israelenses o façam. Nesse cenário teríamos também
um desastre do qual poderia se esperar qualquer coisa, até uma guerra mundial.
Não é possível querer a paz omitindo-se das responsabilidades militares. Os
clérigos que controlam o Irã só conhecem o argumento da força. A
necessidade de enfrentamento dos déficits públicos dos EUA, tanto o
orçamentário como o da balança comercial, impõe o contrário de uma política
expansionista: é preciso reduzir gastos e aumentar impostos. Obama foi eleito prometendo justamente o oposto. Na
melhor das hipóteses ele se curvará ao princípio de realidade e fará o que
precisa ser feito, mesmo ao preço de perder sua popularidade. Ainda não perdi
as esperanças de que, por detrás do discurso populista, esconda-se alguém com
vocação de estadista. Na pior hipótese tentará o salto para
a frente, gastos alucinados bancados por emissão de moeda. O desastre
viria em breve tempo. Obama tem a simpatia de toda a gente, mas essa simpatia deveu-se a
circunstâncias únicas, pela sua origem, sua cor e seu discurso. Sua promessa
de paz e distensão mundial exigirá o oposto do que as multidões gostariam que
viesse. Os governos europeus querem ter mais influência política, assim como
Rússia, China e Japão. A equação não fecha. Poder anda de mãos dadas com
responsabilidade. Não é possível tê-lo sem exercê-lo. Será interessante
observar quais serão as opções tomadas por ele. Quaisquer que venham a ser
desagradará muita gente. Só torço para que ele não dê as costas à realidade
como ela é. Seria sua pior opção. |
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