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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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TEMPOS DAS
DILIGÊNCIAS 12 de dezembro de 2008 Lula
anunciou um pacote de medidas anticrise, incluindo uma
redução de IPI para carros de até mil cilindradas. Meditei sobre a
inutilidade prática dessa medida, vez que a taxa do imposto é de apenas 7% do
valor do veículo. Quero aqui pensar sobre o automóvel, esse grande luxo
moderno que nos deu mobilidade e produtividade, mas também multas,
estacionamento caro, seguro exorbitante, bandidos nas esquinas e toda sorte
de aproveitadores e ladrões que querem se apossar da renda do proprietário de
automóveis. O maior deles o Estado, com sua extensa lista de impostos,
inclusive IPI. A cara-dura com que o Estado nos rouba é de surpreender, se
algo ainda surpreende os pagadores de impostos. Quero
fazer uma previsão. Esta crise que agora se instalou vai mudar de forma
permanente a relação da população com o automóvel. Prevejo que uma parcela
considerável dela deverá abandonar o seu uso, pelo simples cálculo econômico.
É claro que estou pensando especialmente naqueles que residem nos grandes
centros urbanos, como São Paulo. A perseguição aos motoristas particulares é
tamanha que a relação custo/benefício ficou descompensada. O Código Nacional
de Trânsito transformou simples acidentes em crimes bárbaros, de difícil e
cara defesa jurídica. As multas alcançam valores proibitivos e são aplicadas
de forma aleatória e injusta. Os limites de velocidade são estabelecidos para
confundir os motoristas e criar um excesso de velocidade arbitrário que não
guarda relação nem com a segurança, nem com a tecnologia dos carros, nem com
nada, exceto a ânsia multadora do Estado. Nesse
contexto, o problema de financiamento, a aparente crise de crédito, torna-se meramente acessório para explicar
a queda de vendas de automóveis. Creio que elas deverão despencar porque o
custo da posse e uso de carros alcançou valor altamente significativo no orçamento
das famílias de classe média, de sorte que a sua remoção torna-se a maneira
mais curta e racional para resolver problemas financeiros emergentes. A crise
terá o poder de obrigar as pessoas a pararem para pensar quanto do que ganham
é transferido ao Estado (e a particulares oportunistas, como os donos de
estacionamentos) pelo simples fato de serem donos de carros. O automóvel de
fato virará ou um bem de luxo ou para uso empresarial. Restará um florescente
mercado de taxis. Penso até que a Volkswagen deveria mudar de nome, pois o
mesmo perderá qualquer sentido, vez que carros não são mais para o povo, nem
os de até mil cilindradas. Será
interessante ver a queda na arrecadação de IPVA, esse abuso tributário
evidente. Toda a indústria de material de transporte deverá sofrer dura
retração. O fascínio que o automóvel exerceu até agora sobre as gentes deverá
ser substituído por uma visão mais pragmática e racional. Formas de locomoção
abandonadas, como o simples andar a pé por curtas distâncias (por exemplo,
até dois quilômetros) serão resgatadas. Até dá para se antever uma melhora
geral nas condições cardiovasculares da população por conta disso. O que uma
severa crise econômica não é capaz de fazer? Provavelmente
outras formas de locomoção, como bicicletas e veículos motorizados sobre duas
rodas, terão uso mais intensivo. Aliás, em São Paulo eu vejo sempre
motoqueiros andando como nuvem, que cresce dia a dia. Na hora do rush
verdadeiros enxames de motoqueiros a transitar por entre os veículos nas vias
públicas estão sendo formados todos os dias. É possível que seu número
aumente rapidamente. Fogem do trânsito e do roubo estatal, os motoqueiros.
Por vezes encontram a morte. Só não
virá de novo mesmo o transporte animal, porque o asfalto cobriu toda
possibilidade de nascer pasto. É estéril. Cavalo não combina com concreto. As
velhas diligências não renascerão, certamente. Mas a pressão política para
uma oferta de melhor serviço de transporte coletivo acontecerá, bem como
sobre o seu preço. A cidade de São Paulo já dá um gigantesco subsídio às
tarifas e será chamada a alargar os gastos nessa área. O mundo
que vai surgir no momento pós-crise será algo diferente do atual e uma das
suas características será um uso mais restrito de automóveis. Não lamento. Será
um protesto silencioso contra o esbulho tributário, que torna artificialmente
escasso um bem que poderia ter seu uso democratizado. Talvez um fato assim
possa acordar a multidão para a necessidade de reformar o Estado, de
reduzi-lo, de colocá-lo a serviço da coletividade, acabando com o que temos
hoje, o nauseante privilégio que algumas classes adquiriram de viverem à
custa dos pagadores de impostos, sem precisar trabalhar. Quem viver
verá. |
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