|
|
NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
|
|
|
|
|
|
|
TEMPO DE RESISTÊNCIA 01/09/2008 Existir é resistir (*). O que a revista Veja
registrou em sua última edição, em matéria de escutas telefônicas envolvendo os poderes Legislativo e Judiciário, ao arrepio de todas
as leis, é gravíssimo. Sintoma de que está em vigência um Estado policial,
completamente fora do controle no Brasil. Existir é resistir. Quando os limites da moralidade
pública chegam nesse nível de baixeza não é apenas a existência das
instituições que corre perigo. A das pessoas também. Foi assim em toda a
parte e não podemos nos esquecer da clássica história da Alemanha nazista, em
que um bando de celerados decididos destruiu a ordem democrática desde
dentro. Não trouxeram apenas a guerra, vieram os fornos crematórios, o Mal Lógico praticado em total inteireza. Existir é resistir. Não sei o que fará o corajoso e
íntegro Gilmar Mendes, presidente do STF, e nem o que aquela Corte que
preside decidirá. Se ficar barato, na demissão de alguns tantos bagrinhos
dedicados à espia dos titulares das instituições, então não haverá
resistência alguma ao arbítrio e os celerados tomarão conta de tudo nessa
infeliz República. Não pode ser aceita a tese de que esses gatos pingados
fizeram o que fizeram sem uma ordem direta, desde cima. Não se pode também
fechar os olhos para a realidade de que se praticam essas ilegalidades em
larga escala, desde que Lula assumiu o poder. Pode-se até se aceitar que o
presidente da República não deu a ordem, mas algum ministro haverá de ter
dado. Nenhum bagrinho na espia teria o que fazer com a gravação das conversas
das autoridades que não passá-las ao chefe, prenhe de propósitos inconfessos. Existir é resistir. É tempo de dar um basta, de dizer “Não!” ao arbítrio que nos ameaça. Sem uma
trava histórica digna do desafio haverá a rendição da ordem instituída e os
celerados bandoleiros darão os passos seguintes da sua previsível
caminhada. E a resistência terá que
ser feita por aqueles a quem a História incumbiu de fazê-la: as próprias
autoridades espiadas, que estão fora do poder Executivo, que executou as
escutas. Nem a Gilmar Mendes e nem a Garibaldi Alves e nem aos seus pares
poderá ser dado o crédito da omissão. Omissão aqui é débito com todos os
brasileiros. Não resistir é suicidar-se. Eu sinto
que pessoas íntegras como Gilmar Mendes resistirão, mas poderão ficar
sozinhas. As instituições que representam estão fragilizadas, sem apoio
popular. O STF, por exemplo, não pode ser considerado um guardião das leis
quando estas mudam a cada minuto. A nossa (des)ordem
legal é mutante, cambiante. A sanha legiferante tem
sido usada para deformar o sistema jurídico, que não mais protege a
propriedade privada, algumas liberdades pessoais (veja-se a tal Lei Seca, a
plena invasão do foro íntimo de decisão), a privacidade, que já gravam até as
conversas do presidente do STF. Até a
soberania nacional está sendo erodida por decretos
do Executivo, como pudemos ver com a demarcação contínua de vastas reservas
indígenas na zona de fronteira, verdadeiros enclaves doados sem consulta aos
brasileiros, alienando a herança das futuras gerações. Não tenho registro de
algum povo que tenha alienado seu território sem nenhuma ameaça externa. Nem
a frágil Geórgia diante da Grande Rússia encolheu-se. Perdeu, mas lutou. Resistir é condição de existir. A covardia e a omissão não
protegerão ninguém em particular, mas custarão caro no plano coletivo. O desafio
de lutar pela liberdade e pela democracia está novamente posto aos
brasileiros. Haverão de resistir? (*) Frase
extraída do Prefácio aos Franceses, escrito por Ortega e Gasset
em 1937 para livro A REBELIÃO DAS MASSAS. |
|