NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado

 

 

 

 

 

 

 

SINAIS DOS TEMPOS

21/09/2004

 

"Há quem se sinta, na forma de vida atual, como um náufrago que não consegue flutuar".

Ortega y Gasset, 1937

 

Quando os estrategistas da campanha de Lula cunharam a expressão "um brasileiro igualzinho a você" foram de uma perspicácia sem igual. A "elite" (entre aspas, porque não há mais elites no Brasil, só ricos e letrados, de um lado, e a massa pobre e ignara, do outro, tão iguais a Lula quanto nem imaginam) que ainda não havia aderido por inteiro ao PT, torceu o nariz, mas é isso mesmo: Lula é o brasileiro médio por excelência, o genuíno representante do homem-massa, o falcão que se livrou do falcoeiro, como previu o poeta. É o homem-massa no poder.

 

Quando recentemente ele disse que é uma metamorfose ambulante, foi também feliz: muda de idéia conforme a direção dos ventos, ou seja, da opinião do homem médio. Lula é um médium das massas, ostenta na testa, por inteiro, a opinião pública. Enxergar essa fatalidade é uma necessidade, mas é também um exercício de horror. Há um medo apavorante no horizonte, a espreitar-nos como Nação. Ortega y Gasset escreveu seu belo livro A Rebelião das Massas na segunda metade da década de trinta, os incríveis Anos Trinta, que colocaram a civilização de joelhos, ferindo-a de morte. Previu, como Jung, como Nietzsche, como Hayek, como Voegelin, como Mises, como Aron, palavra a palavra, o que viria imediatamente, quando Mussolini, Stalin e Hitler, e outros menos cotados, os homens-massa daqueles tempos, tomaram as rédeas do poder. Era um encontro com o destino.

 

Nas palavras do filósofo espanhol:

 

"Todo destino é, no fundo, dramático e trágico. Quem não sentiu o perigo do tempo palpitar em suas mãos não chegou às entranhas do destino, não fez mais que tocar sua mórbida face. No nosso, o ingrediente terrível é colocado pela avassaladora e violenta sublevação moral das massas, imponente, indomável e equívoca como todo destino. Aonde nos leva? É um mal absoluto, um bem possível? Aí está, colossal, instalada em nosso tempo como um gigante, signo cósmico de interrogação, uma guilhotina ou uma forca, mas também um possível arco triunfal!"

 

Naqueles tempos ainda havia a possibilidade de se ter dúvidas sobre os acontecimentos. Era o novo que acontecia, os contemporâneos como Ortega e Gasset ainda tinham o direito a pontos de interrogação. Agora é o velho que se repete, a macaquice do Novo Mundo copiando os pecados do Velho Mundo. A Humanidade, enquanto massa, nunca aprende. Nem há mais forcas e guilhotinas, instrumentos pouco eficientes para a morte no atacado, como é o costume da modernidade. Nem como antonomásia servem mais, depois dos fornos crematórios, dos gulags, dos massacres, das limpezas étnicas que a moderna maquinaria de guerra pode fazer em pouco tempo.

 

A lembrança desse trecho citado vale pelo alerta, o de que o homem-massa é a Sombra coletiva, o ogro devorador de homens. Dessa geléia informe e estúpida que é a massa humana, sequer os chamados homens de ciência escapam. A estupidez é generalizada. Há na massa a alegria dos girinos cuja poça d'água, rasa, seca ao sol, tornando-se o seu próprio túmulo. É a alegria dos estúpidos. O apelo que os dirigentes políticos fazem às massas é direto ao coração, ou seja, ao irracional, ao material, ao animalesco, ao mais elementar. A nossa campanha eleitoral em curso, toda ela, deveria ir para o manicômio, juntamente com os donos dos discursos. A boçalidade não pede mais licença para ocupar a sala de visitas.

 

Faltou ao filósofo investigar o efeito da "vanguarda" do tipo leninista que são os políticos que lideram os homens-massa. Olho para eles e vejo os Smith do filme Matrix, as montarias do Diabo, o Mal encarnado. É a mediocridade maléfica, Mefistófeles manobrando nosso Fausto de fancaria. Onde vai parar? Quando começará a correr o rio de sangue? Ortega y Gasset não sabia a seu tempo, e nem eu sei agora. Mas sei que o tempo está próximo.