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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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SARNEY NÃO SAIRÁ 04 de junho de 2009 Eu ouvi na
TV o discurso do senador Aluisio Mercadante, do PT, ontem, no plenário do Senado.
Começou “detonando” José Sarney, o presidente da Casa, e acabou de maneira
cordata e suplicante à bancada do PMDB, partido que tem em Sarney o seu líder
maior, em nome da governabilidade. É preciso decifrar esse enigma, pois
compreendê-lo é compreender a própria essência do nosso processo político, a
alma coletiva brasileira. No mesmo
dia mais uma acha de lenha foi jogada na fogueira em que queima o velho
cacique do Maranhão: a denúncia de que uma valiosa casa de sua propriedade
teria sido omitida da declaração de bens à Justiça eleitoral. Veja, caro leitor, como as denúncias contra ele se repetem
com a regularidade com que o planetas giram em torno do sol. A ação
desestabilizadora contra o velho ex-presidente continua ativa e é provável
que os próximos dias tragam mais um pouco de suas doses homeopáticas. O PT é
isso: como uma hidra, tem muitas cabeças. Mas só aparentemente atuam em
sentido contrário. Toda essa dança contra a atual direção do Senado tem um
sentido, o sentido da sucessão presidencial. Por ali necessariamente passam,
não apenas as articulações para a definição de nomes e de apoios, como também
os atos formais que demandam a forma de lei, poder importantíssimo em ano
eleitoral. O PT perdeu para Sarney esse precioso instrumento de poder e não
se conforma. Desde então jogou seus exércitos de arapongas e de jornalistas
alugados contra o atual presidente do Senado. A campanha midiática contra ele
é intensa e sem tréguas. Convém que
recapitulemos os fatos. Sarney praticou atos nepotistas repugnantes,
de longa data, foi conivente e beneficiário dos atos ditos secretos do
Senado, está envolvido, direta ou indiretamente, no conjunto das
irregularidades que vieram à mídia. Nunca deixo perder de vista a informação
de que Sarney construiu uma imensa fortuna pessoal e, que eu saiba, nunca
trabalhou em nada na vida, que não no ofício de político profissional.
Estamos fatalmente diante de um indício de enriquecimento sem fato gerador
determinado, em si elemento suficiente para uma investigação do Ministério
Público. Ocorre isso com ele e com os 100% dos seus “companheiros” senadores,
todos estão na mesma situação, como de resto toda a oligarquia política que
comanda a República. Então ninguém vai mexer nesse vespeiro, todos têm rabo
preso. Ninguém quererá fazer perguntas difíceis de responder. Da mesma
forma que os casos provados e comprovados de nepotismo nem serão objeto de
investigação, pois que já eram fatos sabidos por aqueles que acompanham a
cena política. A deixa foi dada pelo próprio presidente do STF, Gilmar
Mendes, quando disse que a publicação dos atos “secretos” supriria a falha
formal. O único fato novo é que os jornalistas assalariados do PT puseram a
notícia na primeira página dos jornais. Ora, Sarney já viveu muito mais que
isso. Um olhar sobre a história da chamada Nova
República mostrará que, quem enfrentou o velho Sarney, acabou se dando mal. A
começar pelo ex-presidente Fernando Collor. O poder que esse homem alcançou,
poder real, de comandar deputados, senadores, ministros, altos burocratas do
Executivo, graúdos do poder Judiciário, é imenso. Ninguém mexe no
ex-presidente sem colher um contragolpe fulminante. O fato de ter peitado o
PT no começo do ano, e vencido, mostra isso. Lula
percebeu a realidade política com clareza, embora seus asseclas, de olho na
sucessão, tenham recebido passe livre para praticar a sua guerra de
guerrilhas, desde que não ultrapassem a linha vermelha. O discurso do senador
Mercadante foi exemplar para mostrar isso. O tom indignado do início de sua
fala deu lugar a murmúrios conciliatórios do final. Se o PT tem seus arapongas infiltrados, para produzir em série
notícias de nossas práticas políticas nefandas, Sarney tem as grandes
informações, aquelas dos acordos políticos secretos que sacramentaram Lula e
o PT no poder e as grandes negociatas feitas com dinheiro do Erário desde
pelo menos 1985. Sarney sabe tudo de todos porque todos tiveram que negociar
com ele. Sorte do PT: o velho Sarney ama tanto o poder que se tornou mesmo um
conservador, do tipo que só tolera aquelas mudanças que na prática acabem por
nada mudar. Por isso
Sarney não vai sair, nem de um jeito e nem de outro. Porque ele tem grande
poder pessoal, que emana não apenas dos cargos que ocupa, mas de sua história
política. Imagine, caro leitor, se Sarney resolver
falar do acordão para permitir a eleição de Lula
presidente, ou daquele que enterrou o “mensalão”,
ou mesmo do varejo do dia a dia que envolve o seu grupo político no poder
Executivo. Lula tem plena consciência disso, mas seus barbudinhos
revolucionários estão encarregados de dar um jeito de conseguir uma
alternativa sucessória que mantenha os vermelhos no poder. Está posto o
impasse: o estratégico ou o tático? Sarney só
sairá de onde está por obra de Deus. Tirante um chamamento do divino, o PT
terá que engoli-lo. Sarney é a personificação de todos os nossos vícios
coletivos. Ele, sim, é o que poderíamos de chamar de “um brasileiro igualzinho a você”. É a nossa esclerose política,
nosso descenso espiritual, a decrepitude daquilo que se chama de virtudes
cívicas. Sarney tem muito poder e sabe como usá-lo. Essa falange dos neófitos
petistas não é capaz de derrotá-lo no seu próprio campo. |
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