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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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SARNEY E LULA 26 de junho de 2009 Os jornais
de hoje relatam que José Ribamar Sarney está atribuindo ao seu apoio ao
presidente Lula o que chamou de “campanha midiática” contra a sua pessoa.
Mais ou menos assim: os fatos relatados de nepotismo, devidamente
comprovados, que remontam à nomeação de sua filha Roseana quando o próprio
Sarney tornou-se presidente da República, nada têm de imorais. O malfeito não
estaria na raiz do escândalo. As práticas nepotistas deveriam ser
consideradas normais e conformes às tradições políticas. O barulho se deveria
exclusivamente porque o presidente do Senado está na base de apoio do
governo. Convém
lembrar que, desde a eclosão da crise, Lula tem dado declarações protocolares
de apoio a Sarney sem, no entanto, entrar no mérito das denúncias. Ao mesmo
tempo, o PT age dentro do Congresso contra o ex-presidente. Qual a lógica
dessa dança política? Em primeiro
lugar, Sarney sempre foi aliado de Lula, mas sempre foi mal aceito pelas
hostes petistas. Sarney ligou seu nome ao Regime Militar e isso é
inesquecível para as esquerdas. Por outro lado, foi Sarney quem abriu a
avenida para a conquista do poder pelas esquerdas, coroada com a chegada de
Lula Lá. Sem a morte de Tancredo Neves a trajetória de ambos, Sarney e Lula,
seria bem outra. Sarney foi a semente e Lula é o
fruto maduro dessa simbiose reciprocamente proveitosa. Para ambos, vale a
paráfrase a Caminha: “Em se pagando,
tudo dá”. Ou, relembrando o velho Severino Cavalcanti: “É dando que se recebe”. Um segundo
ponto que precisa ser sublinhado é o instinto de sobrevivência político
amoral do ex-presidente. Sarney, desde a origem, sempre fez qualquer acordo e
qualquer aliança para se manter no poder, sem perguntar nem como nem de onde
viria o apoio. Essa é a sua característica mais saliente. Mas
Sarney, embora seja afável ao ponto da subserviência a Lula, tem agenda
própria, por vezes conflitante com a do presidente em exercício. Sua história
é a de um político tinhoso e vencedor. Só em 2009 dois fatos maiúsculos
aconteceram, em favor de Sarney e em prejuízo do PT: a eleição da Mesa do
Senado, quando Sarney peitou os interesses da agremiação governista, fazendo-se
presidente da Casa, e a cassação de Jackson Lago, muito ligado ao PT, que deu
lugar à própria filha de Sarney,
Roseana, no governo do Maranhão. Vi esses
fatos acontecerem e fiquei a imaginar qual seria o contra-ataque vermelho.
Está aí. Essa sucessão de denúncias, vindas a público em doses homeopáticas
diárias, tem autor. E o único grupo com organização e fontes capazes de gerar
esse estremecimento é o PT, partido que se infiltrou por todos os recantos do
Estado brasileiro, agindo de forma revolucionária, com acesso a tudo. Essa
campanha contra Sarney tem autor: é o PT. A troca de
gentilezas públicas entre Lula e Sarney não passa de ritual que esconde a
realidade. Sarney infligiu duras derrotas ao PT, com sérias implicações para
a sucessão presidencial, motivando a vingança ora em curso. Por outro lado,
Sarney sabe disso, mas faz o discurso oposto, como se o inimigo não fosse o
próprio Lula. Ambos os políticos têm índole conciliatória, o que favorece
esses rapapés públicos. A demonstração recíproca de cinismo chega a ter
recorte literário, tal a radicalidade. Mas não se engane, meu caro leitor: a luta que se trava é entre dois
colossos. Mas o velho Sarney está em desvantagem, porque não dispõe dos meios
de espionagem e de ação de mídia que tem o PT. Entrou nessa luta perdido.
Seus aliados são de ocasião, enquanto a tropa do PT tem sólida formação
ideológica e comando centralizado. Enquanto
não temos o desfecho estamos vendo o desfilar da sordidez das nossas práticas
políticas, pois decidiram abrir os baús do velho sótão maranhense. É o lado
bom e profilático do processo, embora eu não creia que as práticas venham a
mudar. Ao contrário. A esquerdização escancarada
das ações políticas leva a essa degenerescência crescente. Pense, meu caro
leitor: o que representa a meia dúzia de parentes do Sarney nomeados, por
mais repugnante que seja o fato, perto dos milhares e milhares de cabos
eleitorais que a corriola petista tem empregado no Poder Público? Dos
concursos inúteis abertos apenas para acomodar a corriola? Sarney saiu mais
barato e mais limpo que o PT. Infelizmente, a opinião pública ignora esses
fatos elementares. Lembrando que um erro não paga outro: Lula e Sarney são farinha do mesmo saco. Merecem-se. |
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