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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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SANGUE NEGRO 16/11/2008 Há obras de
arte proféticas e mais o são quando não foram pensadas para isso. Refiro-me
ao filme SANGUE NEGRO, dirigido por Paul Thomas Anderson (autor do roteiro),
cujo título em inglês é muito apropriado (“There will be blood”), mas o título em
português ficou mais sintético e poético, refletindo bem o que é o filme. O
ator principal é o grande Daniel Day-Lewis, atuando de forma esplêndida. O
filme ganhou dois Oscars, de Melhor Ator e Melhor
Fotografia e, a meu ver, deveria também ter ganhado o de melhor filme, perdido
para o também bom filme ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ, mas inferior à obra de
Anderson. É um filme
profundamente religioso, que desde o primeiro momento retrata o Mal e a
possibilidade de redenção. A narrativa é emocionante e nada óbvia. Nenhuma
cena pode ser antevista, é sempre uma grande surpresa. Os elementos
religiosos estão postos desde a primeira cena: o fundo de uma mina de ouro (a
moeda por excelência, que brota das profundezas). O personagem Daniel (vivido
por Daniel Day-Lewis) é um homem que incorpora o espírito do próprio Demo
sobre a terra. É uma saga que lembra o FAUSTO, de Goethe, só que aqui Fausto
e Mefisto formam uma unidade. Da exploração de ouro, na virada do século XIX
para o século XX, Daniel muda de ramo e parte em busca do ouro negro, o
petróleo, cuja demanda cresce com o surgimento da tecnologia de motores a
explosão e outros usos associados ao petróleo. Daniel
torna-se um produtor de petróleo e um acidente na exploração mata o pai de um
bebê que trabalha com ele. Ele adota a criança, agora órfã e pai e mãe,
usando o garoto para se apresentar como pai viúvo exemplar e, assim, ir
ganhando a confiança das pessoas. Jamais se apresenta como o aventureiro
ganancioso que é, sem família e sem projetos que não
enriquecer. O principal da história começa a se desenvolver quando um certo Paul se apresenta a Daniel para lhe oferecer
informações sobre uma rica reserva de petróleo, na fronteira da Califórnia.
Essa reserva compreende a terra de muitos pioneiros, entre eles a família de
Abel, pai de Paul e de seu irmão gêmeo, Eli, um sujeito que quer ser pastor a
qualquer custo. A história
principal é esse duelo entre Daniel e Eli, entre Mefisto e o falso profeta. A
igreja fundada por Eli tem o sintomático nome de Igreja da Terceira
Revelação. Claro, não há terceira revelação alguma, uma paródia demoníaca
para a primeira (Abraão/Moisés) e a segunda (Cristo). A terceira revelação é
o reino desse mundo. O duelo entre os dois personagens vai num crescente até
o final do filme. Quero
chamar a sua atenção aqui, meu caro leitor, para duas cenas antológicas. A
primeira é quando acontece a tragédia do incêndio da primeira torre de
exploração erguida na grande jazida da cidade de Little
Boston. O filho adotivo, que observava o trabalho dos homens, é arremessado
longe e perde a audição (elemento importante das novas peripécias). O que é
mais relevante aqui é que um auxiliar de Daniel vem lamentar as perdas com o
incêndio da torre. Ele desdenha dizendo que aquilo nada significa diante da
confirmação de que eles estão pisando em um mar de riquezas. A segunda
é a cena final, já em 1929 (atenção para a data), quando o pastor Eli vem à
casa de Daniel, agora uma mansão requintada e sombria, que tem, ao lado do
escritório, um espaço para jogar boliche. [O simbolismo do jogo de boliche
não é circunstancial. Há relatos arqueológicos de que esse jogo já era
praticado no antigo Egito. Lutero o apreciava tanto que, como o personagem
Daniel, mandou fazer um local para sua prática dentro da sua casa. Ganhar o
jogo na Idade Média significava “entrar no Céu”, derrubar os pinos equivalia
a livrar-se dos pecados.] O pastor
Eli, ricamente vestido, em contraste com a simplicidade das vestes que usava
no começo do filme, ambientado na virada do século, vem lhe oferecer uma oportunidade
de exploração em uma jazida que foi a única não comprada por Daniel, à época.
Day-Lewis aqui dá um show de interpretação, de prender a respiração. O pastor
quebrou pela débâcle de 1929 (quantos não estarão chorando a miséria neste
momento, pastores e não pastores, mas adoradores do ouro negro, com a débâcle
de 2008?) e tentar fazer negócio com ele. Daniel ouve tudo. Diz que a
condição para ele negociar é Eli confessar que é um falso profeta e que Deus
não existe. Abjurar da fé que prega. Eli reluta, mas, desesperado, declara o
que Daniel pede. A cena é deprimente, desesperante, mas encantadora,
verdadeira arte cinematográfica. Daniel o faz repetir várias vezes, sempre
mais alto, a sua apostasia. Depois lhe
diz que nada há a negociar, pois na terra que ele quer vender não há petróleo
algum, e que é ele, Daniel, o verdadeiro portador da Terceira Revelação. Em
seguida, Daniel o assassina com um pino de boliche. Entra o mordomo e
pergunta se quer alguma coisa. Daniel, sentado de costas e tendo ao lado o
cadáver de Eli encharcado de sangue escuro (negro!), responde lacônico: “Não, eu acabei”. Penso, meu
caro leitor, que essa débâcle de 2008 é como que a terceira revelação citada
no filme e nisso consiste seu caráter profético. Quem viver verá. |
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