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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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SACRIFÍCIO CONTRA A OPRESSÃO 31/01/2011 Ontem,
como sempre, fui assistir ao programa Manhattan Connection e lá foram exibidas
as imagens do jovem tunisino Mohamed Bouazizi, que se imolou pelo
fogo diante do palácio do governador.
Fiquei comovido, as imagens são chocantes. Ali não se tratou de um gesto
político. Foi um ato de desespero de alguém que chegou ao limite da opressão
pela pobreza e pelo poder de Estado, que caiu sobre ele impiedosamente.
Tomaram-lhe as poucas mercadorias que comerciava, bateram-lhe, cuspiram-lhe.
O limite da opressão. Se na
origem o protesto foi existencial, uma revolta contra o próprio destino, o
resultado foi político. As forças latentes que queriam a mudança do governo
não perderam a chance de usar uma história tão espetacular e tão comovente. O
ditador Zine El Abidine foi apeado do poder.
Vale a velha frase de sempre: muda-se tudo para nada mudar. Não creio que as
instituições ocidentais possam ser copiadas pelos países com maioria
islâmica. Nisso o coro dos analistas políticos está errado. Mesmo a
secretária de Estado Hillary Clinton está errada por partir do suposto de que
a democracia, como a conhecemos no Ocidente, é o remédio a ser implantado em
toda parte. O risco
que corre a Tunísia, assim como agora o Egito, é de ver o poder de Estado
tomado por um partido revolucionário que deseja a teocracia islâmica, como
aconteceu no Irã. O sacrifício do jovem tunisino terá sido em vão se isso
vier a acontecer. Sem trocadilho, é sair da frigideira para cair no fogo.
Aqueles que viram Khomeini tomar o poder puderam assistir a um dos maiores
tormentos que pode acontecer a um povo em regime de implantação de uma
revolução. É ilusão pensar que pudéssemos ter as instituições da sociedade
aberta ocidental clonadas por passe de mágica onde a religião e Estado estão
praticamente fundidos. É assim a natureza do Islã. Mesmo onde o poder é laico
nos países islâmicos a presença religiosa é total. O máximo
que se pode esperar de países assim é o surgimento de déspotas esclarecidos,
como foi o caso da Turquia no início do século XX com Kemal Atartük. Este
praticamente diferenciou a Turquia dos demais países islâmicos, inclusive por
adotar os caracteres ocidentais para a grafia da língua, até então feita em
arábicos. Não ao acaso a Turquia é o que o mundo muçulmano produziu de mais
parecido com o Ocidente. Para além
das questões políticas ficou o desespero diante das imagens do homem em
chamas, um patético protesto de um indivíduo isolado, que não cometeu crime
algum, diante do ogro estatal. Como não se comover? Como não se perguntar
sobre o sentido das coisas? Nada há de novo sob o sol. |
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