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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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RESPOSTA A JUNG 08/01/2011 Quando li
pela primeira vez, por volta dos trinta anos, o opúsculo de Jung RESPOSTA A
JÓ sofri um choque soberbo. Até então me considerava ateu e nunca havia
levado a sério nem a teologia e nem as Escrituras. O livro de Jung teve o
poder de descortino duplo: de um lado, mostrou que meu ateísmo não passava de
ignorância tola; do outro, me dava uma resposta racionalista ao drama da
encarnação. Se esse pequeno livro não me viesse às mãos meus interesses
intelectuais teriam sido outros e certamente eu seria hoje outra pessoa. Jung teve
experiências espirituais fortíssimas e, como ele mesmo registrou, para ele a
fronteira entre o transcendente e o imanente era transparente. Sua
autobiografia e o formidável seminário que deu sobre o Zaratustra de Nietzsche,
entre 1934 e 1939, mostram como sua alma estava atormentada pelas questões
relativas a Deus e à existência moral do homem. Jung teve sonhos e visões
fabulosos, alguns premonitórios. Como ninguém ele compreendeu Nietzsche na
sua experiência com o Mal, mas o fascínio com o numinoso
o impediu de ver o Mal como Mal. No seminário em que ele estudou o Canto
Noturno do Zaratustra, por exemplo, Jung se recusou a fazer a tradução do
texto do alemão para o inglês, pois, segundo ele, ali falava o próprio Deus
Vivo. Quanto engano! O Deus vivo não falava pela alma de Nietzsche. O
atormentado filósofo, como um Van Gogh das Letras,
lidava mesmo era com a personificação do Mal. Thomas Mann fez muito bem em
tomá-lo como personagem principal do magnífico DOUTOR FAUSTO, no qual relata
o ocaso da Alemanha tomada por Mefisto. No Canto
Noturno falou a figura mais solitária e isolada já criada por Deus, a mais
triste da criação que já existiu. Penso que o próprio Anjo Caído está
presente ali. Jung errou
dramaticamente no seu livro RESPOSTA A JÓ. O drama da encarnação de Cristo foi
um ato de bondade unilateral de Deus para com o homem, sua criatura
preferida. Pensar que o homem, mesmo um santo como Jó,
tenha algo a dar a Deus é delírio perigoso. Tudo que o homem tem, inclusive sua frágil existência, vem de Deus. Tentar
uma leitura psicológica dos diálogos bíblicos para dar um sentido e mostrar
uma conexão lógica de um suposto amadurecimento de Deus carece de senso de
verdade. E, relendo o Livro de Jó, bem poderíamos
apropriadamente imaginar que as palavras que lá estão atribuídas ao Criador
podem, com alto grau de realismo, ser as do próprio
Satã usando o nome de Deus em vão para confundir e desemcaminhar
o santo Jó. O equívoco de Jung foi total no seu
intento. Jung viveu intensamente
o ateísmo e o demonismo do seu tempo e foi testemunha ocular do poder de
destruição que o Mal, solto sobre a terra, pode realizar. O mundo foi
incendiado àquela época, tudo que era sagrado foi profanado, a própria fé na
ação do homem e na ciência, compreendida como redentora em substituição à verdade
revelada, foi abalada. O homem chegou em 1945 desamparado de Deus e de si
mesmo. Mas Jung
tem o grande mérito de ter mostrado que o homem não é senhor de sua própria
casa, que outras forças atuam na sua alma atormentada e, mais importante, se
o homem não buscar o Bem, fatalmente estará nos braços do Mal. Como em 1945
(e nos fatídicos anos que lhe antecederam) o mundo está hoje. Com a mesma
crise financeira, a desesperança, o desemprego, o emergir de potências hostis
poderosas até então inexpressivas. A história está de novo em movimento e os
fatores anímicos elementais estão em ação, mesmo
que as massas deles não se dêem conta. Se há uma
resposta de Deus a Jó é a mesma que foi dada para
mim e para você, meu caro leitor: o homem é a criatura que por ele vela o
Deus Misericordioso. Mas o homem precisa descobrir novamente o contato com o
transcendente, com o Deus de nossos pais. Precisa ter a humildade de saber
que não é capaz de criar. O Criador é só um e o homem não pode substituí-lo.
A resposta está dada e é conhecida. |
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