NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado

 

 

 

 

 

 

 

Refletindo Sobre a Verdade
11/08/2002

"Para isso nasci e para isso vim ao mundo: para dar testemunho da verdade. Quem é da verdade escuta a minha voz."(João, 18:37)

Nesses tempos bicudos em que vivemos, em que a mentira foi elevada à conta de instituição respeitável, especialmente no que tange ao trinômio imprensa/política/universidade, cabe uma pausa para refletir sobre a verdade.

Raymond Aron, no seu saboroso livro "O Espectador Engajado", afirmou:

"O amor à verdade e o horror à mentira, creio que é o que há de mais profundo em minha maneira de ser e de pensar. E justamente para poder expressar a verdade, é preciso ser livre".

Aron associa diretamente a condição de liberdade para que se possa chegar à verdade. A primeira conclusão que se tira é que o triunfo da verdade em regimes políticos totalitários torna-se impossível, vez que a condição de liberdade desaparece. Pessoas vivendo sob a opressão até podem cultivar a verdade isoladamente, mas essa deixa de ser um bem coletivo, passando a ser um precioso tesouro guardado por indivíduos diferenciados, que passam a fazer a resistência à tirania, a muito custo.

O fato de existir liberdade, todavia, não garante o triunfo da verdade. É necessário o esforço individual para persegui-la e aceitá-la. Os arautos da mentira estão por toda a parte -- o Mal é sempre a Mentira -- que assedia a todos nós. Fazer a escolha entre o trigo e joio é tarefa de uma vida inteira, que exige a totalidade do esforço do indivíduo. Desde livros, passando pelo discurso dos professores nas cátedras, passando pela imprensa, a arte em geral e sobretudo o discurso político, é sempre um esforço grande discernir entre a verdade e a mentira, e a escolha correta envolve uma decisão moral interior. Não por acaso o Diabo é também conhecido como o grande Mentiroso e, para mim, deixo claro, por Diabo entendo mais que uma metáfora, é uma realidade imediata.

Em um antigo texto que não consegui localizar, Olavo de Carvalho associa a verdade com a virtude da coragem. A sua busca e a sua conquista não é para os fracos de caráter. Em outro texto não menos denso ("O poder de conhecer", de 04/08/2001), o filósofo afirma:

"Perguntaram-me uma vez, num debate, como eu definia a honestidade intelectual. Sem pestanejar, respondi: é você não fingir que sabe aquilo que não sabe, nem que não sabe aquilo que sabe perfeitamente bem. Se sei, sei que sei. Se não sei, sei que não sei. Isto é tudo. Saber que sabe é saber; saber que não sabe é também saber. A inteligência não é, no fundo, senão o comprometimento da pessoa inteira no exercício do conhecer, mediante uma livre decisão da responsabilidade moral. Daí que ela seja também a base da integridade pessoal, quer no sentido ético, quer no sentido psicológico. Todas as neuroses, todas as psicoses, todas as mutilações da psique humana se resumem, no fundo, a uma recusa de saber. São uma revolta contra a inteligência. Revoltas contra a inteligência -- psicoses, portanto, à sua maneira -- são também as ideologias e filosofias que negam ou limitam artificiosamente o poder do conhecimento humano, subordinando-o à autoridade, ao condicionamento social, ao beneplácito do consenso acadêmico, aos fins políticos de um partido, ou, pior ainda, subjugando a inteligência enquanto tal a uma de suas operações ou aspectos, seja a razão, seja o sentimento, seja o interesse prático ou qualquer outra coisa."

É a mesma mensagem de Aron, colocada em termos mais sistemáticos. Liberdade e verdade estão aqui também indissoluvelmente associadas, agora explicitada a dimensão moral do ato de conhecer. O conhecedor da verdade tem que recusar qualquer cabresto, especialmente aqueles que procuraram condicionar a busca pelo conhecimento a alguma teleologia política. O compromisso com a verdade pode levar os seus amantes aos limites mais subversivos.

Em um outro texto anterior ("A mentira como sistema", de 23/11/2000), Olavo, procurando demonstrar a sociopatia de Marx e dos marxistas em geral, conclui:

"Daí a diferença entre a dialética clássica, de Sócrates e Aristóteles, e a dialética moderna de Hegel e Marx. A primeira era a arte de reduzir as contradições à unidade; a segunda, a técnica de fazê-las proliferar até que não possam mais ser abrangidas na unidade de uma visão intelectual e extravasem para a vida ativa, semeando o ódio e a guerra sem fim. A primeira supera as contradições da "práxis" na unidade superior da consciência contemplativa; a segunda alastra para o reino da "práxis" o ódio a si mesmo que atormenta o intelecto incapaz de repouso contemplativo".

Quando sabemos que os nossos partidos políticos, praticamente todos eles, refletem a crença marxista, não apenas na intenção programática, mas sobretudo na ação de conquista do poder, é que se pode ter a grau de imersão em que a sociedade brasileira está mergulhada na mentira institucional. O perigo que ronda o nosso País é temível, pois uma explosão de violência política é o caminho natural para os sociopatas. A leitura dos jornais diários dá náuseas: claramente vemos que os escritores -- jornalistas e articulistas -- praticam a mentira mais descarada a fim de satisfazer os interesses de seus senhores, em prejuízo do público.

O momento eleitoral que vivemos é especialmente favorável para observar a ação enganosa, todo o esforço que envolve a classe letrada no sentido de ludibriar a maioria, para a manutenção dos seus propósitos políticos inconfessos. Vetustos senhores e senhoras se prestam às mais mesquinhas artimanhas mentirosas. Realmente, procurar discutir a verdade é hoje uma condição de saúde mental. A mentira institucional é uma arma enlouquecedora das multidões.

A nossa verdade -- a verdade do Ocidente -- começa na mensagem de Cristo, que é o seu fundamento último. Quem não a recebe e a transmite faz apenas o jogo do Opositor, cuja arma mais usada é a mentira sistemática. Onde há mentira, o Mal está instalado. Dito isso, podemos afirmar que o Brasil está mergulhado nas trevas mais terríveis. Para usar a frase do último filme de George Lucas (por sinal, fraco): "É o lado escuro das trevas, que a tudo obscurece".