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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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REBELIÃO
DAS MASSAS 15/07/2008 “De todos os males do autoritarismo,
nenhum é superior à destruição do conceito de legalidade”. Paulo Brossard Em ato
público realizado ontem, em apoio ao juiz Fausto Martin de Sanctis e contra o presidente do STF, Gilmar Mendes,
declarou o também juiz Helio Egídio Mattos Nogueira: "Hoje ele não é só o juiz Fausto, hoje ele
é a magistratura." Obvio que a magistratura não é o juiz Fausto (que
não se perca pelo nome), mas todo o Poder Judiciário e
sobretudo sua hierarquia superior. O juiz Fausto é um mero juiz de primeira
instância e nada mais. Essa retórica rebelde revela aspectos da tragédia
nacional que está em curso. O que é essa
rebelião dos juízes de primeira instância que não uma demonstração cabal do
que Ortega y Gasset chamou de rebelião das massas?
Visto o fato com frieza, o que temos é o anseio da quebra total da hierarquia
judiciária, da lei ela mesma; a anulação de qualquer freio para que os juízes
de primeira instância – exemplares acabados do “Senhorito Satisfeito” – pratiquem sua caricatura de justiça sem ter que
apresentar quaisquer justificativas e se submeter a nenhuma instância
superior. É rasgar o espírito da lei e da Constituição em vigor. Veja você,
caro leitor, a que ponto chegou a degradação social
no Brasil: supostamente juízes são homens bem formados, compõem uma casta
separada e vivem de estudar para julgar. Espera-se de juízes uma vida privada
compatível com a função e nessa vida privada está pressuposta a aquisição
continuada de cultura geral capaz de torná-los, ao longo da vida, homens
distintos, uma elite. O que vemos é o emergir do oposto de tudo isso. Os
integrantes da carreira judiciária vêem-se como justiceiros das massas
desembestadas, querem proferir suas sentenças ao sabor da opinião pública,
esquecendo-se completamente do marco legal e até mesmo legislando
ocasionalmente. Se o paciente julgado for um empresário, a sanha vingativa
aumenta exponencialmente. Os juízes rebelados viraram agentes da luta de
classe marxista. Esse
movimento acintoso tem desdobramentos ainda mais graves. Falou-se em
impeachment de Gilmar Mendes, presidente do STF. Isso seria um ensaio para um
golpe de Estado, seria a remoção preliminar de um dos entraves para que o
partido governante possa exercer, na plenitude, poderes discricionários. Não
é, portanto, uma banalidade. É muito grave. Digo que não creio no sucesso
imediato da empreitada, mas o simples fato de ter sido posta é indicativo da
trajetória que estamos a percorrer. Escrevi em
artigos anteriores que a Polícia Federal adquiriu um pendor persecutório
contra empresários indefectível, sempre trabalhando, os seus agentes, como
atores em um palco: diante de câmaras de TV, praticando rituais de imolação
de suas vítimas cujo desfecho e ponto alto é a indefectível colocação das
algemas, seguida do desfile de camburões pelas ruas. A humilhação completa de
suas vítimas, mais das vezes nunca consideradas culpadas em decisão final da
Justiça. Esses gestos têm por objetivo
a demonstração cabal de poder absoluto. Temos aqui todos os ingredientes de
uma ditadura policial. Até agora as
instâncias superiores da Justiça têm sido um freio contra o arbítrio policial
e judicial e o próprio presidente do STF tem dado reiteradas declarações
condenando essa espetacularização do processo investigatório,
que grande prejuízo traz, de forma irreparável, aos investigados. Talvez
venha daí a ira dos juízes de primeira instância, mais das vezes jovens
simpatizantes das causas igualitaristas, contra as
instâncias superiores. O fato é que Gilmar Mendes tem tido uma postura irrepreensível
à frente do STF, com decisões sóbrias e elegantes e sempre em favor da
Justiça, em honra da tradição do Direito brasileiro. Mas as massas em
rebelião rebelam-se justamente contra isso: contra o certo, o elegante, o
justo. Querem o seu oposto: o anárquico, o feio, o injusto. A lei de Lynch. Vivemos
tempos de grandes perigos. |
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