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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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QUESTÕES
DE DIREITO 01/01/2012 Ando lendo o romance AS BENEVOLENTES, do Jonathan Littell (Rio de Janeiro, Objetiva, 2007) e já
superei uma boa metade do volumoso
livro. A narrativa é chocante, ali vemos que todas as leis e todos os marcos
civilizatórios foram derrogados. Um delírio coletivo sanguinário tomou conta
de toda a gente na Alemanha de Hitler. Penso que algo equivalente deu-se com
a revolução bolchevique, tão sanguinária e tão genocida quanto. Diálogos
inseridos pelo próprio Littell demonstram o
parentesco ente o nazismo e o comunismo. Littell, como Thomas Mann, fez do seu
personagem um doutor. No caso, em Direito. Muito apropriado que um doutor em
Direito, leitor de Kant, tenha aceitado alegremente ser um carrasco da SS. O
próprio Doutor Fausto encarnado. O que choca no nazismo não é que o
populacho, sempre infame e de instintos baixos e primitivos, tenha tido as
rédeas do poder. Não! Foram os sofisticados intelectuais que aderiram sem
peias ao irracionalismo homicida que redundou na hecatombe da II Guerra
Mundial. [Importa observar que no Brasil algo semelhante tem acontecido
com a nossa classe letrada em relação ao PT. Alegremente deram sua adesão e
seu consentimento. Por sorte este partido não teve forças para o terceiro
mandato de Lula e não conseguiu governar o Estado de São Paulo, o que impediu
até agora a tentação autoritária de governar por decreto. Mas o anseio para
estar acima do bem e do mal não é escondido pelos petistas e é questão de
tempo e oportunidade que se sintam à vontade para negar os valores
elementares da civilização. Como na Alemanha, a adesão dos letrados se deu em
simultâneo com a adesão dos empresários. Por isso que não há oposição no
Brasil, como não houve oposição a Hitler.] Nos últimos anos tenho tentado me dar uma resposta para essa
questão da perda dos valores civilizacionais, o mergulho no irracionalismo
genocida. A resposta que encontrei está no âmbito da filosofia política, com
o respectivo desdobramento no campo do Direito. O corte essencial se deu no
Renascimento, com a emergência do Estado nacional, e a Reforma, que deificou o
direito positivo. A reviravolta na ciência política, desde Maquiavel, levou à
superação do direito natural. Desde então a fonte do Direito deixou de ser
transcendente para se escorar unicamente no poder do príncipe. Esse foi o
declínio civilizacional que abriu caminho para todos os crimes amparados nas
razões de Estado, que temos visto desde as guerras religiosas. O abandono do direito natural consolidou-se nos juristas do
século XVII, especialmente com Hobbes e Grocius.
Então a expressão direito natural passou a designar algo diverso do que até
então se entendia por ela. A fonte do Direito foi transferida para a razão, o
que equivale a dizer: para o príncipe. O golpe final veio com a democracia de
voto universal, que deu às massas o poder de demandar seus preconceitos e
instintos baixos para o governante, que se viu na contingência de procurar
atende-las. Governar deixou de ser a busca do bem comum para ser o cultivo
das multidões insaciáveis. O fim da II Guerra Mundial levou a que juristas e filósofos
meditassem sobre o totalitarismo. Era preciso responder: como foi possível?
No plano conservador a resposta foi dada adequadamente por Eric Voegelin e Leo Strauss: o ponto estava no positivismo
jurídico e o caminho de volta à civilização levava ao retorno ao direito natural.
Foram derrotados pela corrente alternativa, a que vinha do jus-naturalismo de
Hobbes e Locke: pela tese dos direitos humanos. A ironia é que as boas intenções
liberais que tentaram conter a lama negra do totalitarismo com essa
perfumaria já estavam derrotadas pela empolgação da tese pelos radicais de
esquerda, que fizeram dos direitos humanos panfletos telegráficos para
subverter a ordem liberal e restaurar o cinismo do positivismo jurídico com
toda pompa. Viu-se, na segunda metade do século XX, o triunfo das teses do
partido revolucionário, primeiro nas organizações multilaterais, como a ONU,
depois pela paulatina substituição da legislação de cada país por sua forma jurídica
uniformizadora em escala planetária. Nomes como Norberto Bobbio e John Rawls prevaleceram, a partir do ponto de vista de Antonio
Gramsci, sobre as posições conservadoras. Se é certo que Eric Voegelin e Leo Strauss inspiraram Ronald Reagan e os
Bush, sua influência não passou de inspiração para o governante, jamais para
a estrutura do Estado. O direito natural não poderia ser restabelecido se
todas as escolas de Direito ensinavam a visão alternativa. O pensamento único
em direito virou uma realidade. Foi a vitória completa do igualitarismo
revolucionário. [Uma das coisas notáveis da política em São Paulo é a enorme
taxa de rejeição de José Serra. Mesmo os acadêmicos vinculados à sua escola
de origem, a Unicamp, rejeitam-no vigorosamente porque José Serra ousou
defender as privatizações. Pecado imperdoável para aqueles que desejam uma
economia plenamente estatizada, mesmo contrariando a experiência que mostrou
ser irracional e contraproducente a estatização total. Essa gente quer isso.
É a sua meta e é questão de tempo que a alcancem. A rejeição a José Serra é a
mesma de que padece Fernando Henrique Cardoso, pelas eventuais coisas boas
que fizeram enquanto governantes.] Os tempos de crise que se abrem agora colocam os mesmos
problemas e os mesmos riscos e dilemas que foram colocados para aqueles que
viviam na década de Trinta do século passado. Aderir ou não aderir não é
pergunta que se faça, já que todos aderiram ao poder estabelecido. A
impressão que tenho é que os milhões de mortos no altar da estupidez não
deixaram lições preventivas, exatamente porque essa nefasta experiência não
trouxe impactos no mundo jurídico. De novo o positivismo nas letras jurídicas
triunfa. Por isso que a agenda revolucionária em matéria de costumes não
encontra objeção de consciência. O ambientalismo, o
gaysismo, o abortismo, a
destruição acelerada da família monogâmica encontram-se em estado avançado. A
supertributação é vista como normalidade. Se é a
vontade do governante, só cabe obedecer
e não questionar. Sabemos muito bem onde esse caminho levará. Basta ler o
livro de Jonathan Littell. O matadouro pode estar
na curva do tempo. |
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