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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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QUERO IR PARA A LUA 24 de novembro de 2008 Ao Rubem de
Freitas Novaes, um amigo otimista Sim, meu caro leitor, estamos em meio a uma grave crise, de
escala planetária. Ela nos afetará enquanto país e enquanto indivíduos
isolados. Não há que ter ilusão e o certo é cada um se preparar para o pior,
que cautela não faz mal a ninguém. Isso significa adiar gastos, poupar o que
for possível e viver dentro de um orçamento curto. A idéia esquerdista de que
se deve gastar para manter a bicicleta andando é tonteira besta e deve ser
ignorada. Mais do que nunca precisamos restabelecer as bases naturais do
processo econômico e elas se iniciam na poupança individual. Os jornais
do final de semana exaltaram a enormidade da queda de preços das commodities
no mercado mundial, fato que afetará a nossa balança comercial diretamente. É
provável que nossos superávits dos últimos anos desapareçam. Da mesma forma,
a chegada de capitais de risco deverá minguar, mesmo
com o governo Lula mantendo os juros nos patamares indecentes de sempre.
Esses dois fatos combinados podem reduzir rápida e drasticamente as reservas
internacionais e trazer de volta a velha senhora que nos ameaça desde a
Proclamação da Independência: a crise cambial. Ela é sempre mortal e costuma
ser o ponto de partida para a disparada inflacionária. Como já
vivi meio século pude testemunhar muitos desses momentos entre nós. Mas devo
dizer também que não vivi nada parecido com o que está posto agora. O único
paralelo é a crise de 1929, mas esta, entre nós, ficou circunscrita à
economia de exportação, com destaque para o café. Na década de trinta o
Brasil ainda tinha cerca de 80% de sua população residindo no campo e toda a
gente exercia algum tipo de atividade que permitia a subsistência. Hoje a
proporção é inversa e está todo mundo integrado à economia monetária, no
sistema de trocas. Cito aqui
dois elementos para sublinhar a fonte dos meus terrores: nos anos trinta o
combustível principal que queimava nas residências era o carvão vegetal ou
lenha e “botar água” no pote, tirada do poço ou da fonte, era atividade
cotidiana de quase todas as famílias. Hoje, não. Todos têm que queimar gás de
cozinha e pagar a conta da água encanada. Nem lenha há onde colher nas
grandes cidades. Uma suspensão temporária do rendimento de uma parcela
elevada da população pode significar uma interrupção nessas duas funções
básicas da vida, o cozinhar e o “botar água” na caixa, por simples falta de
dinheiro. Dá para se visualizar o tamanho da tragédia. Fico a
imaginar um cenário de elevação brusca de desemprego em uma cidade como São
Paulo. É um convite à desordem e ao crime, em face do efeito aglomeração e em face de não existirem
mais as grandes famílias de antigamente, cujos membros se apoiavam
reciprocamente. A redução das famílias, com menos filhos e casamentos
tardios, eliminou aquela forma de “seguro” familiar que era o arrimo dos
desamparados. Muita gente hoje está sozinha consigo mesma, possuindo alguns
poucos parentes. Não há muro de proteção algum que não aqueles erigidos pelo
Estado. E é aqui
que está a grande contradição e o grande perigo. A origem da crise é a ação
exorbitante e desastrada do próprio Estado, tanto nos EUA, na Europa e aqui
mesmo entre nós. Em toda parte. Na hora mais decisiva, em que a crise
econômica provavelmente vai se transformar em crise política, as pessoas
estarão na máxima dependência do ente estatal. E, vejam,
todas as recomendações dos gerentes
da crise em escala mundial sempre partem de um duplo (falso) suposto: de que
a solução da crise depende de mais ação estatal e de que este tem força e
meios para enfrentá-la. Se assim fosse a crise não se instalaria jamais,
vejam a enorme mentira estampada. A
recomendação é falsa porque a crise tem como lógica interna precisamente
enfraquecer o Estado e reduzi-lo, a fim de trazê-lo a proporções humanas. É
uma necessidade dos tempos. A crise é, antes de tudo, a crise dessa forma de
Estado. Precisamos restaurar o velho estado liberal, a velha moralidade
judaico-cristã, restabelecer a simplificação das relações jurídica.
Lamentavelmente não se fará isso de forma negociada e racional,
politicamente, negocialmente. Ao contrário. Só um
tranco de proporções cataclísmicas para restabelecer a vida humana como
sempre foi. Depositar
na ação do Estado a esperança de que escaparemos, seja no plano coletivo,
seja no plano individual, das seqüelas da crise é uma ilusão. O Estado Total
não tem esse poder. Quando chegar a etapa política da crise econômica – e a
eleição de Obama pode ser
considerada como um efeito direto da crise – é que veremos o bicho na sua
real proporção e na sua crua ferocidade. Se eu pudesse pegava o primeiro
foguete para a Lua e assistiria de lá as peripécias. Infelizmente só temos
esse mundo. Terei que ser um observador participante dessa mega tragédia que
se avizinha, mesmo a contragosto e com total
consciência do que se passa. Quem viver
verá. |
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