NIVALDO
CORDEIRO: um espectador engajado
www.nivaldocordeiro.net
QUEM SÃO
OS FASCISTAS
17/02/2008
Li
de um fôlego o livro de Jonah Goldberg LIBERAL FASCIM – The
Secret History of the American
Left, From Mussolini to the Politics Meaning,
que ainda não chegou em tradução brasileira. O livro
não por acaso está na lista dos mais vendidos da www.amazon.com . Escrito em estilo panfletário,
linguagem em torrente de fogo, Goldberg mostra documentalmente a verdade mais
óbvia: que a esquerda política dos EUA é que é fascista de crença, ela que
rotineiramente acusa os conservadores de sê-lo. A farta documentação é
sublinhada por uma narrativa poderosa das personalidades históricas. Os
sucessivos presidentes, desde Wilson, têm seus governos esmiuçados. Fabuloso.
Alguém
poderia argüir que é um livro norte-americano para um público local. Errado. O
que Goldberg revela é também a nossa imagem e semelhança. Veja você, caro
leitor, que a nossa esquerda acusa o regime militar de “fascista” todo tempo e, no entanto, quem tem agigantado o Estado,
regulado a vida privada e mesmo destruído o modo de vida tradicional, incluindo
a criação de um racismo institucional que nunca houve em nossa história
republicana é a esquerda, ela mesma que se apossou do
Estado em 1985 para não mais largá-lo. Quem são os fascistas?
Goldberg
traça paralelos incríveis entre a história da Alemanha e da Itália com a
história dos EUA do mesmo período e mesmo de momentos mais recentes. Mostra que
a raiz da ação política e da ação governamental, desde Wilson, tem sido
basicamente a mesma que deu fundação ao nazismo e ao fascismo italiano. Mostra
mais, a cumplicidade entre os mesmos grupos políticos, as mesmas crenças, as
mesmas motivações. A inspiração na Prússia de Bismark.
Eugenia, abortismo, gaysismo,
ambientalismo, regulação da vida prática, destruição
dos laços familiares, absorção da formação infantil pelo Estado: todo o projeto
totalitário foi posto em prática na terra de Tio Sam.
Até o nome Terceira Via foi tomado dos fascistas. Os verdadeiros fascistas dos
EUA, aqueles doutrinários, estão no Partido Democrata. Criaram o que ele chamou de “mommy state”, o
Estado que esmaga o indivíduo pelo excesso de cuidados que chamou para si. Mãe
terrível que devora seus próprios filhos.
Uma
das práticas típicas do fascismo é o ativismo, especialmente o de caráter
bélico. E o ativismo pacifista também. Então tivemos a curiosa situação de ter
naquele país um governo esquerdista fascista que fazia a guerra e que
mobilizava seus militantes para fazer passeata contra a mesma. Uma completa loucura
cuja lógica só pode ser captada quando se olha a coisa
na sua dinâmica política, à luz de sua gênese e da filosofia inspiradora.
E
o fato é que o resultado desse processo foi o vertiginoso crescimento do
Estado, cuja arrecadação já supera 30% do PIB. E crescendo a cada período, não
obstante espasmódicos momentos de redução dos impostos, feitos por presidente
republicanos. Mas estes também passaram a defender a causa fascista do Estado
grande, na crença de que assim se legitimam e podem se manter no poder. Elegem-se
para deixar tudo como está, até porque não teriam força no Congresso para fazer
o que precisaria ser feito. A verdadeira batalha política que se trava no campo
eleitoral é saber quem será mais populista e mais “mommy” para os eleitores. Lá como
cá. Quem dá mais bolsa-família?
Goldberg
destaca a aliança entre o big business
e os fascistas, embora estes digam que são os conservadores os representantes
das grandes corporações. O que desse conluio resulta é a criação de barreiras à
entrada artificiais nos mercados e a cartelização de
tudo. Quando uma nova empresa se destaca, como a Microsoft, é questão de tempo
que os burocratas ponham as mãos sobre ela. O caso da empresa de Bill Gates
demonstrou isso. Não há como alguém escapar de pagar os lobbies e os elevados
gastos com políticos e advogados.
Acertadamente
o autor tributa a Nietzsche a grande responsabilidade filosófica
de inspirar essa virada nos valores e de ser o patrono dos totalitários. Mas,
infelizmente, sua análise pára aí. É verdade que Goldberg gostaria de restaurar
uma ordem conservadora e que ele é um franco lutador da causa do livre mercado.
Mas Nietzsche sozinho não explica o século XX e a emergência do Estado Total
(ou fascista, como ele chama, o que é a mesma coisa). Para compreendê-lo ele
teria que voltar ao Renascimento, a Maquiavel, a Hobbes e a Locke, pelo menos. E
bem sabemos como esses autores são os queridinhos dos que defendem o
liberalismo clássico de forma acrítica. Foi a arrogância da
razão defendida por esses filósofos que destruiu a ordem estabelecida pelos
valores judaico-cristãos e sem entender o verdadeiro significado que tomou o
Direito Natural com os modernos não se compreenderá o que está se passando.
Goldberg falhou clamorasamente aqui.
O
autor sublinha a semelhança das políticas dos presidentes conservadores com a
agenda dos fascistas do Partido Democrata. Esse ponto é muito importante.
Firmemente creio que, lá com cá, a alternância de poder entre os partidos não
consegue recolocar as coisas no trilho, não tem como reduzir o tamanho do
Estado Total. Muito ao contrário. Então o que vemos é que, qualquer que seja o
eleito, lá como cá já sabemos que nada vai mudar, ou melhor, que teremos, o povo, que pagar mais impostos e agüentar mais
regulação da vida privada. A pergunta é: qual é o limite desse processo? Onde
vai parar? Na Europa já há Estado arrecadando cerca de 50% do PIB. Toda a gente passou a depender, direta ou
indiretamente, do Estado. Na prática as liberdades cessaram.
Na
América e aqui também. O que vejo é a criação de um enorme Estado policial, que
regula tudo e, ao fazê-lo, cria mais e mais cargos de inspetores estatais para
garantir que as leis malucas criadas sejam cumpridas. Uma rosca sem fim. Um
exemplo claro são as leis de trânsito, sempre cheias de boas intenções e que,
na prática, estão destruindo a liberdade de ir e vir. Mas a coisa também vai
para áreas de indiscutíveis questões morais, como o aborto e o casamento gay.
Ver essas questões pela ótica de saúde pública ou suposta igualdade de direito
é desfocá-las: nem aborto é questão de saúde e nem
casamento gay é questão de igualdade. Na prática o que se vê é a destruição
daquilo que sempre se considerou mais sagrado, tendo-se em troca a
institucionalização de crimes e de vícios milenarmente abominados.
Os
mesmos ativistas que fazem campanha contra o tabaco são aqueles que pelejam
pela liberação das drogas ilícitas. A coerência é total, contrariando as
aparências: ambas as ações servem para abolir a liberdade individual,
sujeitando-se as pessoas ao coletivo anônimo impessoal da burocracia do Estado.
Além disso, mantêm a agenda febril do ativismo. O mesmo vale para as questões
envolvendo alimentação, obesidade, doenças em geral. A obsessão com a saúde era
uma das coisas mais caras a Hitler e Mussolini. Antes como agora.
Evidente
que estamos vivendo uma forma de culto pagão ao Estado, um renascer de Baal. Essa gente progressista não esconde que cultua o
paganismo, ao tempo em que rejeita como anátema as coisas da tradição
judaico-cristã. Ambientalismo, Nova Era, Mãe-terra, Orientalismo: todas essas coisas são
maneiras de negar as verdades bíblicas tão cultivadas no passado. E aqui
Goldberg chama Hollywood de a maior agência de propaganda da história, por
produzir filmes em série em defesa da ideologia fascista. É certo que alguns
dos filmes comentados não caberiam nessa estética fascista, como os do Clint Eastwood e os dos Irmãos Wachowski. A metralhadora giratória de Goldberg, todavia,
não poupou ninguém. Tomei como uma hipérbole.
Ler
o livro é útil também para acompanhar as eleições que estão em processo nos
EUA. O discurso e o papel de cada um dos pré-candidatos ficam mais claros para
estrangeiros. E podemos ter uma certeza: nesse jogo político insano que é
jogado nos EUA todos perdem, o mundo todo perde, pois a verdade da alma está
perdida: a religião do Estado Total escolherá seu sumo sacerdote e as coisas continuarão como sempre foram. Mais
guerras virão, mais direitos também e, claro, mais impostos. Onde irá
parar?
Receio
que se não houver um renascimento vigoroso dos valores tradicionais, inclusive
por parte das igrejas, isso não vai parar. A esquerdização
das igrejas no EUA foi a mesma que vemos por aqui. No
começo os fascistas infantilizaram os eleitores, toda a gente. Mas depois eles
mesmos foram infantilizados, passaram a acreditar nas suas próprias propagandas
fajutas, de sorte que se perdeu o discernimento. Toda a classe dirigente
enlouqueceu, perdeu o descortino da realidade. Vive-se num sonho gnóstico muito perigoso. Nunca devemos esquecer que essa
gente tem o poder de comando sobre os gatilhos atômicos e já deram prova real de
que não hesitarão em apertá-los de novo. Lamentavelmente Goldberg não leva às
últimas conseqüências o seu raciocínio. A derrocada dos fascistas históricos – Hiltler e Mussolini – tem a nos dizer que esse é o caminho
da destruição: acabará tudo na mais insana empreitada, morrendo todos no final
de uma maneira violenta.
Quem
viver verá.