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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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POR QUE LER ORTEGA Y GASSET 12/08/2008 Eu não leio Ortega por mero
gosto, embora o filósofo espanhol seja talvez o mais refinado escritor que eu
já tenha lido, usando uma prosa que tangencia a poesia e mais das vezes
escreveu poesia em prosa. Nem pelos temas, tão variados e tão candentes. E
nem pela sofisticação, que sobra no escritor. Nem mesmo sua fabulosa análise
dos fatos históricos de seu tempo de vida, tão diáfanos diante de seus olhos,
é o motivo. Tudo isso é muito importante, mas empalidece em face do que é
realmente fundamental no filósofo celtibero: sua necessidade vital para que
os homens conscientes de hoje possam pensar e agir na realidade. Quero aqui
explorar essa razão vital orteguiana. E esta é pura
atualidade. Leio Ortega por instinto de
sobrevivência. Sua obra é uma bóia salva-vidas para o náufrago que me sinto,
largado em pleno oceano revolto. Abrir seus livros é refrescar os pulmões, um
jato de ar fresco para quem está quase afogado. E aqui quero me referir ao
tema que o tornou mundialmente famoso: a rebelião das massas. Se, a seu tempo, esse fenômeno era o que emergia e apavorava,
o mesmo podemos dizer dos dias de hoje com muito maior gravidade. Lembremos
que Ortega começou a escrever sobre o assunto no livro ESPANHA INVERTEBRADA
(1923), na verdade o tema já estava no livro inaugural, MEDITACIONES DEL
QUIXOTE (1914). Atentemos para as datas: a Primeira Grande Guerra, o
comunismo na Rússia, os loucos Anos Vinte. Em 1930 veio a público o livro A
REBELIÃO DAS MASSAS, em véspera de Hitler chegar ao poder e de vir a barbárie que viria, a ação (rebelião) do homem-massa tão
temida por Ortega. À época o Brasil era um mero
coadjuvante no cenário internacional e
ainda não tínhamos essa figura distinta por aqui, o homem-massa, como o
elemento hegemônico na sociedade e na política. É bem verdade que ele já estava
aqui, gestando no PCB, no meio dos anarquistas e no embrião positivista do
Estado. Hoje sua presença está consumada na estrutura de poder.
Definitivamente, o fenômeno que Ortega viu na Espanha e na Europa mundializou-se, junto o Brasil. Lula é a expressão mais
acabada desse processo e o PT a organização política que levou às últimas
conseqüências a arte de cortejar o homem-massa por aqui. O Brasil entrou em
decadência antes de chegar à
civilização. O grande perigo que Ortega via
no homem-massa é que ele deixou de ter passado, ignorando as fontes da
civilização. Perdeu o senso do real. Ficou incapaz de incorporar a história
ao presente. Perdeu o sentido da “razão
histórica”. E a história é a
própria vida, o que torna o homem humano, distinguindo-o das bestas. O homem-massa
tornou-se o “senhorito
satisfeito”, o herdeiro da
civilização que nada pagou por ela e que não tem compromisso com seus
fundamentos. Esse verdadeiro garoto mimado da história humana usa as
ferramentas da civilização sem os freios civilizacionais, e duas delas são
especialmente caras e perigosas: o Estado e a técnica. O Estado foi criado como o
instrumento de eliminação do caos, pressupondo o exercício da Justiça e da
moral mais elevada pelos governantes, ao lado do legítimo exercício da força. O gênio de
grandes homens o instituiu na origem como uma coisa divina, uma aquisição
transcendental. Perseguia-se na lei positiva a expressão da lei natural. O
que vemos agora? O contrário de tudo isso. A lei agora é utilizada para a
regulamentação do que é mais nefando e, pior, para a escravização dos homens
e para a eliminação do que pode haver neles de egrégio. Não se admite nada
fora da média. Essa é uma das razões porque se persegue obstinadamente a
igualdade da distribuição de renda: é o emblema mais acabado do império
ideológico do homem-massa. Igualdade para todos, em tudo, bradam as massas. O
comunismo é o ideal mais desejado. A lei deixou de proteger as minorias,
conspira agora contra elas e, por vezes, elimina-as. Ser cristão, por
exemplo, tornou-se algo bastante perigoso no mundo se hoje. Os Estados viraram predadores
de seus próprios súditos, com suas cargas tributárias inviáveis, com suas regulações incumpríveis e sua
polícia onipresente. As prisões andam abarrotadas. O Ocidente, que sempre
praticou e ansiou pela liberdade, que a exportou para todos os rincões da
Terra, hoje se vê na contingência de copiar o modo do Oriente, de viver sem
liberdade. A ferramenta “Estado”, criada pelo homem,
voltou-se contra seu criador nas mãos do homem-massa. De instrumento de
libertação do caos virou instrumento de escravidão, de reimersão
no caos. A outra ferramenta é a
técnica, filha da filosofia e das ciências. A técnica minimizou os riscos
existenciais e deu riquezas nunca antes imaginadas. O
homem-massa pensa que as técnicas lhe chegaram como vem o ar, como uma
dádiva. E esquece que o mesmo compromisso que gerou o Estado gerou as
técnicas: o compromisso da ética. Ao se esquecer de como as coisas foram
geradas no processo histórico, o garoto mimado da história usufrui sem
compromissos. Ao fazê-lo, vemos a técnica se colocar contra o criador e virar
também um instrumento de escravidão: consumo compulsivo, controles, bombas
(atômicas inclusive), meios de destruição de massa. A caixa de Pandora foi
reaberta pelo homem-massa triunfante no comando da técnica. Ler a obra de Ortega é atentar
para tudo isso e perceber o grande perigo em que vivemos. Mas Ortega não
poderia ver que o homem-massa aprendeu no processo. Sua maldade conseguiu ser
maior do que sua estupidez. O filósofo temia a ação direta, o instrumento por excelência daqueles tempos. As
massas duelavam em plena rua, com suas bandeiras fascistas, nazistas e
bolchevistas. De certa forma, esse instrumento continua, sendo o Estado a sua
alavanca. Os sistemas tributários e as múltiplas polícias, por exemplo, serão certamente sua forma mais ostensiva de atuação. Mas
enquanto Ortega escrevia outro sujeito também o fazia, na prisão: Gramsci.
Este destilou o veneno mais fantástico para a ação das massas, ensinando a
tomada do poder pela tomada homeopática do Estado. O Brasil será talvez o locus onde esse
processo, substituto da ação direta, alcançou madurez.
Assumiram o poder de Estado sem disparar um só tiro e as instituições foram
postas à mercê do senhorito satisfeito sem qualquer
violência. Um caso exemplar! Compreender Ortega é o ponto
de partida para o enfrentamento da situação de perigo. O antídoto contra o
homem-massa é o homem diferenciado, egrégio, aquele que cultiva a história e
a filosofia. Aquele que conscientemente se treina para a liderança, que, com
coragem, vai duelar contra as idéias coletivistas onde elas forem pregadas.
Esse ser egrégio não duela por vaidade ou por esporte, mas por instinto de
sobrevivência. A história ensina qual o caminho que o homem-massa escolhe, qual o destino reservado àqueles que o seguem. No
fim será sempre destruição e morte, antes passando pela escravidão. Ler
Ortega é um acordar para esses perigos, talvez por isso sua filosofia esteja
novamente entrando na moda, vez que vivemos tempos de grandes perigos. É como
um remédio amargo para a doença terminal, aquele que dá uma esperança. Mas é
amargo ainda assim. Despertar é viver, despertar para continuar vivo. |
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