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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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PETER DRUCKER E O LIBERALISMO 24/07/2011 “O segredo e a
existência de nossa era não são a libertação e o desencontro do eu. Do que
ela representa, o que deseja, o que criará – é o
terror”. Thomas Mann, em A Montanha Mágica Foi com grande prazer que reli trechos do
livro Melhor
de Peter Drucker: Homem, Sociedade, Administração
(São Paulo, Editora Nobel, 2001). Meus leitores devem se lembrar da resenha
que fiz de outro livro dele, no qual sublinhei ter sido Drucker
o único autor que, ainda nos anos setenta, fez o diagnóstico correto da
sociedade norte-americana, apontando seu caráter coletivista, e foi ele o
profeta da crise que se instalou desde 2008 (Economia
Política da Crise). O autor fez o seguinte diagnóstico: “1. A economia baseada
em produtos primários “desatrelou-se” da economia Industrial; 2. Na própria economia industrial, a produção
desatrelou-se do emprego; 3. Os fluxos de capital e
não o comércio de bens e serviços tornaram-se o
instrumento e a força motriz da economia mundial. É possível que os dois não
tenham se desatrelado, mas o elo ficou bastante solto e, o que é pior,
totalmente imprevisível. Essas mudanças são permanentes e
não-cíclicas.” Drucker não tinha ainda vivido para ver o
deslocamento de parte importante da base industrial dos EUA para a China,
fenômeno que não tinha como imaginar. Em paralelo, multiplicou-se nos EUA (e
no resto do mundo) a clientela do Estado, sob muitos pretextos – raciais, de
sexo, recrutados para as guerras –, de tal modo que uma vasta camada de
desocupados ou improdutivos passou a viver de renda estatal. Sem nenhum
planejamento e até mesmo consciência do processo, os EUA construíram uma
sociedade de bases coletivistas, que agora está em crise. Drucker foi verdadeiramente clarividente
quando escreveu: “A terceira mudança
fundamental é o surgimento da economia simbólica
— movimentos do capital, taxas de câmbio e fluxo de crédito — como
diretriz da economia mundial, no lugar da economia real: o fluxo de bens e serviços — e acima de tudo,
independente desta. É a mais visível e, no entanto, a menos compreendida das
mudanças.” Diante dele desenvolvia-se a economia mefistofélica do
dinheiro falso, ancorada nas teorias dos irmãos siameses Milton Friedman e
Keynes. Coloco esse assunto como prolegômeno
deste artigo. Peter Drucker foi muito mais do que
um teórico da Administração. Foi um filósofo que percebia com muita nitidez o
que se desenrolava ao seu tempo, que é o nosso tempo. Adiante ele vai
incursionar pela filosofia política e aqui foi incisivo: “É tido quase como um
axioma na literatura política e histórica nossa liberdade ter raízes no Iluminismo e na Revolução Francesa. Essa
crença é de tal modo generalizada, sua aceitação tão
completa, que os descendentes do racionalismo do século XVIII apropriaram-se
da palavra Liberdade, denominando-se liberais.” E mais: “Há
uma linha reta que liga Rousseau a Hitler — uma linha que abrange Robespierre, Marx e Stalin. Longe de serem as raízes da
liberdade, o Iluminismo e a Revolução Francesa representam as sementes do
despotismo totalitário que hoje ameaça o mundo.” Claro que Drucker, como todos os
grandes intelectuais do seu tempo, investigava a
causa final do totalitarismo. E a achou. Ao contrário dos liberais tolos que
enveredaram pela senda dos direitos humanos e da crença essencial no Estado
como ente (ainda que reduzido) que pudesse salvar os homens dele mesmo, Drucker, como Leo Strauss, Eric Voegelin
e outros filósofos do mesmo nível apontaram o dedo na direção certa: Roussseau e, com ele, toda a tradição totalitária que
remonta a Epicuro. Se Drucker aceitava as teses do
livre mercado e do liberalismo econômico, não podia deixar de ver na vertente
liberal o elemento revolucionário da mesma natureza que o marxismo. Ao
escrever essas linhas provavelmente atraiu contra si a
ira de muitos dos contemporâneos. Pode-se perceber que, do ponto de vista da
filosofia política, Drucker foi essencialmente um
conservador. Argumenta então duramente contra a razão, essa deusa entronizada
pelo Iluminismo, ficando subentendido na exposição que forças superiores
atuam na história. Ele completou: “Todos os dogmas básicos
do racionalismo durante os últimos cento e cinqüenta anos não foram apenas irracionais, mas basicamente
anti-racionais. Isso foi verdade no racionalismo filosófico dos iluministas
que proclamava a racionalidade inerente do homem e no racionalismo
utilitarista da geração de 1848 que viu na ganância do indivíduo o mecanismo
pelo qual a “mão invisível” da natureza promovia o bem comum. E é
particularmente verdade no racionalismo do século XX que considera o homem
determinado psicológica e biologicamente. Cada um desses
princípios nega não só o livre-arbítrio, como também a razão humana. E cada um desses princípios pode ser transformado em ação
política apenas pela força e por um governante absolutista.” Recuperar essa análise de Peter Drucker é essencial no momento, pois a crise que se
desenrola está fazendo com que esses liberais “absolutistas” voltem com seus
argumentos de outrora, sofismando ao dizer que o totalitarismo tem os meios
para fazer superar as crises. Estamos vendo a Europa e o euro derreterem. A
verdadeira raiz da liberdade está no movimento conservador, que ele
corretamente apontou ser aquele que realizou a Revolução Americana. Os
economistas de fachada liberal, apoiados em Friedman e Keynes, insistem em
apregoar que sabem os caminhos que minoram o sofrimento humano, desde que
tenham o poder absoluto para implantar o que julgam ser o mais racional. Mais
Estado e não menos Estado, o chamado Estado mundial, é por isso que clamam os
supostos liberais no momento, baseados em seu utilitarismo consequencialista. Ler Drucker
é um antídoto contra essas tentações totalitárias. A conclusão de Peter Drucker não
pode ser esquecida: “O mergulho de
Rousseau no absoluto irracional tornou os conceitos básicos do Iluminismo
politicamente eficientes.” Cabe lutar para que, de novo e de novo, o
totalitarismo não triunfe. É uma questão de vida ou de morte. |
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