NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado

 

 

 

 

 

 

 

PARA AMANSAR A BESTA

12/02/2008

 

No artigo anterior (Direito Natural e Vontade Geral) fiz alusão a uma possível cristianização do poder, fato que gerou diversas comunicações de leitores querendo entender melhor o que eu penso sobre o assunto. Adianto que dizer Estado cristão é construir um oxímoro, pois a proclamação da verdade cristã é a perfeita negação do poder de Estado. É a eterna pergunta de Pilatos diante do Salvador: “O que é a verdade?” Desde os primórdios da cristandade, enquanto não chega a Parusia, há que se viver nesse mundo de Deus, confrontado com a besta estatal. O que fazer?

 

É impossível haver um Estado de essência cristã, mas é possível amansar a besta por três maneiras diferentes. Em primeiro lugar, havendo um número considerável de pessoas cristãs na estrutura do poder de Estado obviamente a ética cristã passaria a prevalecer sobre ele, como vimos no período que permeia a queda do Império Romano e a consolidação da modernidade, simbolizada pela Revolução Francesa. Afinal, um cristão se conhece pelas obras.

 

Em segundo lugar, e decorrente do primeiro, desenhando o sistema jurídico de modo a positivar o direito natural fundado em base teológica, vale dizer, sucateando a falsificação do direito natural que procede da tradição de Hobbes e Locke. O cristianismo, herdeiro do judaísmo e da “boa” filosofia grega, tem as chaves do conhecimento moral para formar a sociedade segundo a natureza humana e segundo a vontade do Criador. A desconexão do direito natural da fonte transcendente foi o passo decisivo para a emergência do totalitarismo belicista e genocida como vimos desde o século XX. O sonho ateu de criar uma sociedade sob o Estado mínimo apenas em nome da razão mostrou-se uma quimera.

 

Por fim, a redução do tamanho do Estado ao mínimo suficiente para que suas funções clássicas se mantenham operacionais. Não é por acaso que o Estado tem se expandido sistematicamente desde o início do século XX. Virou um substituto de Deus, seus seguidores são acólitos religiosos. Fizeram do Estado o Arquiteto da Grande Sociedade, a Terceira Via que é pura falsificação. Querer que o Estado seja o aperfeiçoador e o redentor do homem é uma mistificação muito perigosa. Ele jamais será isso, mas pode ser o que agora temos: o colocador de grilhões sobre toda a gente, escravizando e devorando seus servos.

 

Um Estado orientado pela ética cristã necessariamente será o Estado mínimo proposto pelos liberais clássicos.

 

Alguém poderia perguntar-me: mas não foi o PT criado e eleito pela Igreja Católica do Brasil? Sim e não. É claro que boa parte da CNBB e do clero brasileiro bandeou-se para o comunismo e transformou os templos em locais de proselitismo político. Mas, ao fazerem isso, deixaram de ser cristãos e passaram a ser meros cabos eleitorais do PT, sem qualquer aval da Santa Sé e mesmo contra a vontade dos sucessivos papas. Esse clero não é a Igreja, ela é o que o papa é.

 

Da mesma forma, o PT tem tido apoio de igrejas cristãs evangélicas. Agora recentemente vimos que esse “bispo” Edir Macedo deu para pregar o aborto, depois de fazer dos representantes políticos da sua seita parte da base política do governo. Seus operadores estiveram no rol dos recebedores do “mensalão”. Será o “bispo” um cristão? Evidente que não, será certamente o seu oposto.

 

Por conta dessas confusões de papéis à primeira vista pode ser tudo a mesma coisa, mas não é. Para amansar a besta há que se ter primeiro a vitória da cristianização dos apóstatas, meta ainda mais distante e difícil do que ter numerosos cristãos na estrutura do Estado. O fato sociológico do Estado Total veio para ficar muito tempo e produzir muito sofrimento. A besta jamais foi tão poderosa quanto agora.