O TEÓRICO DOS PAMPAS
27/02/2012
A esquerda doutrinária gosta muito de
falar em teoria e de teorizar. Para ela, a teoria é o mapa do caminho para o
poder e para nele se manter. Mas acontece que não conseguem teorizar, pois a
sua ciência política não passa do saco de maldades inaugurado por Maquiavel e
levado às últimas consequências por Marx e Lênin. Seus livros e artigos não
passam de carta de má intenção, declarações solenes do mal que praticarão
enquanto estiverem no poder de Estado.
Tem sido assim desde sempre. Nenhum
grupo político revolucionário chegou ao poder sem ser precedido de múltiplos
escritos, que seus membros procuram cumprir. Mas há sempre uma versão
exotérica, "para ganhar as eleições", e uma esotérica, que procura
orientar a militância e os dirigentes partidários. Os que cultuam o
marxismo-leninismo são os mais disciplinados nessa coerência entre a teoria e a
práxis. O verdadeiro revolucionário não improvisa, é portador de disciplina e
segue fielmente os manuais "teóricos".
Ao ler o artigo de Tarso Genro no site Carta Maior (Uma
agenda para a esquerda só pode ser mundial) pude constatar que, embora seja
tão mau escritor quanto teórico, ele continua sendo sincero, como costumam ser
os revolucionários. Não escondeu nada da agenda do seu grupo político. O
delírio pseudo teórico é de dar pena e medo. Já no primeiro parágrafo podemos
ler:
"Conceber a obtenção de conquistas reais
dentro do regime capitalista da selvageria financeira, implica considerar que o
capitalismo – ele próprio – pode ser mais democrático, política e
economicamente. Isso supõe aceitar que ele também pode sair da "enrascada"
em que se encontra - sem que haja uma revolução - ainda mais forte, mais
agressivo e ainda mais autoritário do que no presente. E que, via de
consequência, essa saída pode e deve ser disputada, mesmo que não haja uma
ruptura, pois dela podem resultar coisas piores, ou melhores para a humanidade.
Nesta última hipótese, para perspectivas de menos guerras, menos injustiças e
desigualdades, com a criação de um ambiente mundial política e culturalmente
mais favorável aos ideais democráticos do socialismo: ou seja, criar condições
fora da antítese do "quanto pior, melhor", pois a vida tem
demonstrado que "quanto pior, pior"."
Tarso Genro sabe mais do que ninguém
que a crise atual é do modelo socialista e o colapso que vemos na Grécia é
aqueles que se espera para os Estados socialistas, que mais não fizeram que não
endividar seus países e emitir moeda falsa além da irresponsabilidade. Isso
nada tem a ver com o capitalismo, que é uma forma espontânea de organização
social, mas tem a ver com o voluntarismo coletivista que preside a mente de
todo revolucionário socialista. Para melhor malhar o inimigo imaginário, Tarso
Genro se refere sempre ao capitalismo como algo personificado, pensando que este
maquina contra as "conquistas" dos socialistas, quando na verdade o
socialismo está apanhando da realidade, da simples e eterna lei da escassez.
Partir desse falso ponto é que lhe
permite "teorizar" sobre a ação do seu grupo político. Fazer do
capitalismo personificado uma espécie de Judas a ser malhado é condição sine qua non
para se manter na Segunda Realidade revolucionária. Vejamos sua primeira
"tese":
"O presente artigo, não tem o propósito de
apresentar uma agenda “unitária” para a esquerda mundial, mas visa chamar
atenção para a necessidade de construí-la, a partir das forças políticas de
“dentro” de cada país. Este “dentro” contém “em si”, o “fora”, o mundo
globalizado por inteiro na sua política e na sua economia. A repressão, o
constrangimento, a repressão de “dentro”, no próprio sistema democrático,
contém o “fora” sistemicamente. O “dentro” e o “fora” integram a mesma
totalidade. O que implica dizer que não existem mais estratégias políticas
“contra o fora”, como no período de formação dos estados nacionais, mas somente
estratégias “com o fora”, ou seja, a transformação nacional e internacional
está contida no mesmo processo transformador. "
Tarso Genro defende explicitamente que
o caminho é o governo mundial. É provável que, na sua cabeça, a América do Sul
tenha a capital em Brasília, mas isso é só uma hipótese. Friamente o que vemos
é um governador de Estado importante, ex-ministro, trair os interesses
nacionais de forma explícita, colocando a subordinação do país sem qualquer
pudor ou temor de críticas. É como se só seus seguidores estivessem lendo o seu
texto.
Seu besteirol conclusivo: "A internacionalização
radical da política outorgada pela teoria ao proletariado universal foi
realizada pelo anti-humanismo universal do capital financeiro, que capturou os
estados e suprimiu soberanias".
A desonestidade é que
a proposta do governo mundial é tese esquerdista desde a origem, mas está
colocada como uma ação má do capitalismo. Não esperemos coerência do teórico
dos pampas.
Depois de perorar sobre a mudança na
divisão internacional do trabalho e suas consequência para os trabalhadores,
usando os velhos clichês marxistas e inovações dignas de riso, como o tal
trabalho "imaterial", Tarso Genro escreveu: "Tal contexto
abarca a natureza do consumo, a redução do espaço público para a fruição livre,
a uniformização de uma indumentária que integra, pela aparência, os setores
assalariados com os padrões das classes privilegiadas".
Ele é incapaz de reconhecer que os
ganhos de produtividade verificados nas últimas décadas simplesmente elevaram
os padrões gerais de consumo, graças aos mecanismos de mercado, que transferem
aos preços os tais ganhos.
Na sequência, coloca a sua segunda
"tese": "É o capítulo da disputa pela a hegemonia, portanto,
para instituir políticas de desenvolvimento e políticas públicas de coesão
social, que apontem para um novo Contrato Social, cuja bases não são somente as
instituições republicanas clássicas, mas as combinações destas instituições com
as formas de democracia direta, presenciais e virtuais".
O sonho jacobino de
Tarso Genro é fazer referendo a cada 24 horas, com as hordas politicamente controlada
legitimando a ditadura em que possivelmente ele seria um dos mandatários. É o
sonho de Rousseau, fecundado pelos delírios de Marx.
Completou a sua
retórica jacobina: "Só a democracia
política exercida de forma plena, sobre a gestão do Estado e na definição das
suas políticas globais, é capaz de expor a desumanidade das contradições que
separam, cada vez mais, regime democrático e capitalismo".
Sua terceira "tese": "A crise
emendou a vitória do tatcherismo sobre a esquerda européia com o fim da URSS; a crise do "sub-prime" com o "euro"; a ocupação do
Iraque com o fracasso do Presidente Obama; a emergência do Brasil no cenário
mundial com a "flexibilização" da social-democracia
européia. O
que pode, neste contexto, unificar distintas matizes da "nova" e da
"velha" esquerda -contra as políticas de decomposição das funções
públicas do Estado- é o exercício, pelo Estado, de políticas antagônicas às
ditadas pelas agências privadas, que hoje orientam as políticas de Estado e são
responsáveis pela crise. Não é a derrubada do Estado para a instalação de uma
nova ordem, que, de resto sequer tem suporte social para configurá-la, que está
na ordem do dia".
Bem interessante a
expressão "funções públicas do Estado", como se pudesse haver alguma
função privada do mesmo. Retórica vazia de quem não tem o que dizer.
Sua conclusão: "Trata-se de um período não revolucionário e
de reação política, de falência tanto dos modelos socialistas dito marxistas,
como dos modelos da social-democracia clássica: o
neoliberalismo está com a sua hegemonia abalada, mas ainda não sucumbiu".
É bem típico do
teorizar pampeiro: usar toda a retórica marxista, suas categorias, para afinal
declarar que os modelos socialistas estão falidos. Ora, é de se perguntar por
que ele os usa. Implicitamente Tarso Genro recorre à prevalência do modelo do
marxismo cultural, que tanto tem dado certo no Brasil, na esteira da revolução gramsciana, que afinal o pôs no poder. Daí o autor perorar,
na sequência: "A integração,
portanto, das "lutas sociais" com as "lutas políticas"
tradicionais, promovidas pelas esquerdas modernas e pós-modernas, pode ser
baseada numa agenda comum, que remeta para a recuperação das funções públicas
do Estado".
Tarso Genro se
declara um esquerdista pós-moderno, seja lá o que isso signifique.
Sua grande conclusão
é que os partidos de esquerda devem radicalizar: "Se os partidos de esquerda não reduzirem as suas taxas de pragmatismo e
não se unificarem numa agenda política avançada, inclusive em termos de reforma
política, não atentarem para esta nova etapa estratégica -que deverá ser
enfrentada pelo nosso Estado Democrático e suas instituições políticas- tudo
que obtivemos até agora poderá ser perdido. O fortalecimento democrático,
financeiro, político e militar, do Estado brasileiro (combinado com ousadas
políticas de combate às desigualdades sociais e regionais), é a grande
contribuição que o nosso país pode dar ao mundo para uma saída da crise por
fora da tragédia grega.
O ato falho aqui é a externalização do temor de perder "tudo", ou
seja, o poder que alcançaram. Teme uma contra revolução. É como se dissesse: - "Camaradas
revolucionários, cuidem para seguir
minhas orientações teóricas, sob pena de perecer". É preciso atentar para
os delírios de Tarso Genro, pois esse será o caminho a ser trilhado: a tal
radicalização da democracia direta e a integração ao governo mundial. Tarso
Genro sabe que é essa a garantia de que precisa para se perpetuar no poder.