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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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OS MOTORES DA HISTÓRIA 25/10/2008 Tem sido
interessante acompanhar as campanhas eleitorais pelo Brasil, em paralelo com
a campanha eleitoral para a presidência dos EUA. Haveria algo em comum nessas
campanhas? Penso que sim. E penso também que algo de muito errado está no
processo de escolha dos dirigentes políticos nesses sistemas eleitorais. É o
que pretendo argumentar aqui. A democracia
moderna, na origem, como imaginada pelos teóricos do Iluminismo, pressupunha
duas coisas para o sufrágio universal: a existência de partidos com
plataformas políticas definidas (e sua alternância no poder) e também a
existência de uma elite social que servisse de exemplo para a sociedade e
fosse sua condutora. Pressuposto que um homem de Estado deveria ter reputação
inatacável, patriotismo, formação adequada e discernimento além da média
quando diante das peripécias do exercício do poder. E, sobretudo, que o
Estado fosse o “mínimo”, deixando aos particulares as ações econômicas e o
exercício da liberdade. A propriedade privada é aqui o fundamento do processo
social e político. O chamado
Estado de Direito define esse arcabouço institucional que é a pré-condição
para a sobrevivência da democracia. No centro do processo político estava o
indivíduo como pessoa, sujeito de seu próprio destino. O papel do Estado
deveria ser manter as condições para que os destinos individuais pudessem se
realizar com o mínimo de perturbação. Homens como Locke, Adam Smith e
Montesquieu teorizaram sobre essa forma de organizar o Estado. É bem
verdade que, dos tempos do Iluminismo, tivemos também o emergir das idéias
totalitárias, a própria negação da chamada “democracia burguesa”: Rousseau e
seus filhotes, especialmente Marx. Para esses teóricos a pessoa individual
não tinha a menor importância, prevalecendo o coletivo, a presença sufocante
do Estado como sujeito da história. Socialismo e comunismo são as suas
idéias-chave. Essas idéias foram banidas em todos os países durante o século
XIX, que conheceu o triunfo do liberalismo clássico. A idéia-força da
liberdade sob a lei conduziu os destinos das nações, abolindo-se os
absolutismos de diversos matizes, a escravidão e as barreiras ao livre
comércio e à livre iniciativa. Ao entrar
o século XX verificou-se uma mudança profunda. Em primeiro lugar, a
emergência dos movimentos totalitários, sejam aqueles originados em golpes de
Estado (Rússia e China na primeira metade do século), sejam aqueles
originados pelo processo eleitoral, como Hitler e Mussolini. Vieram as
Grandes Guerras e a grande crise econômica de 1929. O capitalismo jamais foi
o mesmo. Desde então as instituições liberais foram, pouco a pouco, cedendo
espaço às idéias socialistas. Aconteceu o duplo movimento de crescimento da
tributação como proporção do PIB e a elevação dos gastos ditos como
“sociais”. Em paralelo, a regulação da vida civil como jamais houve. Essa
metamorfose teve como grande teórico o italiano Antonio Gramsci, que
influenciou gente como Norberto Bobbio e John Rawl, que não hesitaram em defender a prevalência da
idéia de igualdade sobre a de liberdade. Essa maneira de ver a realidade
política dominou o imaginário das juventudes universitárias e da imprensa
mundialmente, legitimando o novo Estado de bem-estar social. Voltemos
ao ponto. A democracia baseada no sufrágio universal só poderia conviver com
as idéias liberais se o Estado fosse reconhecido como um instrumento a ser
severamente controlado e vigiado pela sociedade, devendo limitar-se ao mínimo
possível, isto é, custar pouco e interferir nada no cotidiano das pessoas. Na
medida em que a idéia de igualdade sobrepõe-se à da liberdade e que se
aceitou ser o Estado um instrumento legítimo de redistribuição de renda,
quebrou-se essencialmente o equilíbrio para que a ordem democrática como
aquela conhecida no século XIX pudesse existir. As
campanhas eleitorais em curso mostraram fielmente a transformação ocorrida. O
homem-massa eleitor é agora cortejado não para eleger os melhores partidos e
as melhores pessoas para governantes. Ele agora é chamado a escolher quem vai
colocar “mais” e “melhor” o Estado a serviço de seus apetites, de suas
idiossincrasias, de suas ilusões. O discurso político de todo postulante aos
votos parte do suposto da estupidez factual da maioria dos eleitores, que não
compreende o Estado e nem os movimentos políticos, mas que julga ser seu
“direito” ter todas as benesses que as classes políticas lhes prometem em
troca do seu voto. É crença que o Estado tem a obrigação de prover as
necessidades básicas, do emprego à escola, da saúde à aposentadoria. Essa
crença decreta o fim da democracia, que supõe o indivíduo capaz de prover-se
a si mesmo. Então podemos
ver a repugnante sujeição dos postulantes aos votos ao mais desbragado
populismo, ao discurso mais irracional, às promessas mais tacanhas e
inexeqüíveis. As campanhas eleitorais são verdadeiras odes à bestialidade. E,
quando no poder, os eleitos procuram desesperadamente cumprir as promessas
tolas de campanha, ao preço de sufocar as liberdades individuais e de
exorbitar crescentemente na tributação. O mundo de hoje tem o formato
fascista que nem mesmo seus teóricos originais poderiam imaginar: tudo pelo Estado; nada fora do Estado;
nada contra o Estado. Estamos efetivamente diante daquilo que tenho
chamado de Estado Total. A crise
econômica ora em curso é resultado direto desse caráter fascista/socialista
que tomou as instituições de Estado hodiernamente. A primeira coisa que fazem
os governantes eleitos nesse sistema eleitoral irracional é esquecer as leis
econômicas. Tentam, via sistema legal, criar uma economia ideal, pela qual a própria
lei da escassez poderia ser suprimida, estabelecendo a igualdade de fato.
Claro que a realidade não se dobra a cacoetes jurídicos e nem à vontade
arbitrária dos governantes. A crise veio justamente provar essa verdade
comezinha e corrigir os abusos. O problema
se agiganta porque os passos seguintes rumo ao Estado Total são facilmente
previsíveis: a guerra e o totalitarismo, bem como a supressão do ritual
eleitoral. Observar os acontecimentos é angustiante, é como alguém na base de
uma montanha que vê chegar a avalanche inexorável. É
um encontro com o destino. Estou convencido de que, eleito, Barack Obama se dobrará à tentação cesarista. Será
inexorável. Combater a crise econômica pela criação de guerras, maiores ou
menores, tem sido um fato na história dos EUA. A própria crise de 1929 só foi
superada pelo esforço para a Segunda Guerra. Uma saída do mesmo tipo agora
será muito tentadora e quase automática. E a
história mostra que a social-democracia tem sido o abre-alas dos
totalitarismos comunistas. No Brasil podemos ter algo do tipo, uma repetição
do que se viu na Rússia, visto que a experiência pacífica de tomada do poder
pelos socialistas chegou ao seu limite com Lula. Para piorar o cenário
nacional temos, como nunca, o desafio aos interesses nacionais de governos
vizinhos, o que abre as portas para eventuais conflitos bélicos, de desfecho
imprevisível. O
aprofundamento da crise econômica inevitavelmente fará mover os motores da
história. O rumo a ser tomado será o do Oriente, ou seja, o lugar onde não
sopram os ventos da liberdade. Mais do que nunca é o tempo de temer o futuro.
Em tempos assim é preciso convocar a verdadeira elite, os homens e mulheres
capazes de enfrentar os perigos e de levar a um porto seguro os destinos
coletivos, preservando a liberdade. Infelizmente, não os vejo. A elite
naufragou nas hordas dos homens-massa. Não mais existe. |
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