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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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OS FILHOS DO FAUSTO 15/05/2011 “Esse é a quem amo, quem almeja o Impossível”.
Goethe É preciso sublinhar um fato importante na
obra FAUSTO, de Goethe: os nascimentos que ocorrem ao longo da obra. O filho
de Fausto assassinado por Gretchen; o filho da filosofia (ou da alquimia), o
Homúnculo; e o filho de Fausto com Helena, o Eufórion.
A obra tem nesses nascimentos seu fio narrativo e compreendê-la é compreender
o que cada um significa. Aqui estamos diante do mais sofisticado e hermético
simbolismo. A ligação entre os três não é óbvia. Desvendar os segredos do
FAUSTO é desvendar o elo que os une. No pacto firmado por Fausto com Mefistófeles
trocou-se a alma do primeiro pelos poderes do segundo para lhe proporcionar
sexo, dinheiro e poder. O pacto é antecedido pelo encontro de Mefistófeles
com Deus ele mesmo, usando do paradigma exposto no Livro de Jó. O curioso dessa cena inaugural é que Deus diz que seu
Favorecido, aconteça o que acontecer, já tem para si a graça. Mefistófeles
não compreende assim e vai tentá-lo com permissão divina, para tomar posse de
sua alma. Ao contrário do personagem bíblico, um homem incorruptível e
temente a Deus, Fausto é amoral, entrega-se alegremente a Mefistófeles e o
mundo além vida é um desvalor. Seu primeiro grande
crime é o assassínio de toda família de Gretchen, começando pelo
envenenamento da mãe, passando pela matança do irmão e, do sofrimento e do
abandono, o desespero de Gretchen a leva a matar o bebê recém nascido, vindo
ela própria a subir ao cadafalso pelo crime. Gretchen, a infanticida, é
também uma Favorecida, alcança a salvação apesar dos crimes por ela
cometidos. Fausto vai à cozinha da bruxa, onde toma o
elixir da juventude. Este elixir tem o poder de lhe dar um apetite sexual
descomunal, uma espécie de super Viagra avant la lettre.
Fausto envelhece no romance, portanto pode-se concluir que por juventude do
elixir devemos entender apenas a virilidade descomunal. Na cozinha da bruxa
Fausto se apaixona pela imagem do espelho, obviamente ele mesmo, que se
enxerga como Helena de Tróia. Mefistófeles declara então que, desde aquele
momento, ele verá Helena em qualquer mulher. Estamos aqui diante da Anima, o
conceito psicológico desenvolvido posteriormente por Jung. Uma das conseqüências
do elixir da juventude é o ímpeto onanista incontrolável desenvolvido por
Fausto, narrado em diversos momentos, indicando que ele estava apaixonado por
si mesmo. Amor sui,
como diria Santo Agostinho. Quando Fausto vai fazer a magia em busca de
Helena, a pedido do Imperador, desce ao Reino das Mães com a chave dada por
Mefistófeles, que é seu próprio falo. Fausto ali tem o sentimento
megalomaníaco de querer possuir todas as mulheres em idade fértil, pois vê
nelas a projeção de Helena. A chave lhe cresce às mãos e o ato masturbatório é descrito sem restrição. A lanterna mágica
da qual as figuras fantasmagóricas de Páris e
Helena emergem nada mais é do que a genitália feminina. À visão de Helena (=o
feminino em geral e a beleza por antonomásia) Fausto tenta raptá-la e a cena
se conclui com seu desmaio. Em sono surge então a figura de seu antigo fâmulo
(discípulo) que é a expressão de sua Sombra. Esse fâmulo é que vai produzir,
como que de partenogênese, a figura do Homúculo
(ser sem peso e hermafrodita), nascido com intelecto adulto e com corpo em
miniatura. O fâmulo, agora bacharel, é ele mesmo todo arrogância de quem
supõe tudo saber: “Antes
de eu criá-lo, não havia o mundo; Fui eu
quem trouxe o sol que do mar brota; Comigo
a lua iniciou sua rota; Em meu
caminho abrilhantou-se o dia, A terra ao meu encontro florescia.” Vê-se a enorme inflação que se apossou da
Sombra intelectual do Fausto, que se pretende um substituo de Deus. É dele
que o Homúnculo vai ser parido, na retorta alquímica. Vê-se também o delírio
do idealismo filosófico por inteiro, o de que o universo é o pensado ou, em
termos goethianos, o microcosmo se sobrepõe ao macrocosmo.
O delírio de Paracelso realizado, de criar “um ser humano fora do corpo feminino e de
uma mãe natural”. Aqui se tem a ânsia por se tornar andrógino, masculino
e feminino no mesmo corpo, que é o tema do livro. O próprio Mefistófeles
aparecerá neste figurino, fundido com as fórquias,
uma medonha figura de mulher portadora de falo, enquanto governanta de
Helena. A imagem do andrógino é a própria expressão da indiferenciação
satânica, que será a marca da modernidade. A genialidade de Goethe consiste em retratar
o que seus contemporâneos pensavam em termos filosóficos e teológicos e, ao
mesmo tempo, apontar a loucura dos seus propósitos, ainda que de forma
intuitiva e, exteriormente, concordando com eles. É claro que o Homúnculo
haveria de perecer, como muitas das loucuras da modernidade e seu mergulho na
Segunda Realidade. Mas, antes, vai narrar sua epopéia em busca dos antigos
filósofos pré-socráticos, Tales e Anaxágoras, para esclarecer o que seria a
natureza e a origem da vida. O fogo ou a água é a origem de tudo? Em busca da
resposta o Homúnculo morre, ele que nasceu do forno alquímico, na ânsia da
união amorosa com Galatéia, forma transformada de
Vênus/Helena. Por fim, tem Eufórion,
o filho de Fausto com Helena, que tive oportunidade de comentar em artigo anterior.
No texto, comento que Helena é a representação de Vênus, cujo símbolo é a
Estrela da Manhã, o próprio pentagrama, o duplo feminino infernal de
Mefistófeles. Eufórion é o próprio homem moderno no
apogeu da sua loucura e a psicologia suicida do mesmo antecipa a de Hitler. A
honestidade intelectual de Goethe é radical. Ele nunca se deixou enganar, ele
sempre soube que a modernidade é a filha dileta do mal. Seu poema, anticristão
e sobretudo anti-católico, deixa os leitores
perplexos. Aquilo que ele canta é o destrutivo e o
que deve perecer. Que homenagem maior eu poderia fazer ao grande poeta
alemão? Exaltar sua honestidade, que está acima e além de sua arte. Leio o
FAUSTO como leio uma crônica: um canto que é um lamento. Os filhos da
modernidade são os filhos de Fausto fecundado por Mefistófeles. Era tenebrosa
que ainda não teve um fim. Ao contrário, aproximamo-nos do apogeu. |
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