NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado

 

 

 

 

 

 

 

 

O SABER DOS ANTIGOS

15/06/2008

 

Eu conhecia do Giovanni Reale o seu monumental livro HISTÓRIA DA FILOSOFIA, em três tomos (São Paulo, Editora Paulus, 1990), escrito conjuntamente com Dario Antiseri. Por anos tem sido a minha obra de referência em assuntos filosóficos. Nesta obra temos um estilo seco e direto, quase cirúrgico, de expor as diferentes escolas filosóficas sem emitir juízos de valor. Pura exposição pedagógica.

 

Qual minha surpresa ao ler o pequeno livro do autor, O SABER DOS ANTIGOS – Terapia para os Tempos Atuais (São Paulo, Editora Loyola, 2002). O livro foi publicado originalmente em 1995. É uma obra de combate. O velho filósofo italiano deixou de lado as filigranas e foi para a praça pública, qual um Sócrates renascido, para lutar contra os modernos sofistas. Na verdade, o livro começa citando Nietzsche, profeta e teórico do niilismo, ou seja, o maior dos sofistas modernos, e fecha com Platão, aquele que demonstrou a Verdade e desautorizou Protágoras e sua gangue. É um livro imprescindível.

 

Vejamos o que Reale nos diz no Prólogo do livro: As causas profundas dos males do homem de hoje são justamente esses disfarces niilistas dos valores supremos que caíram (como tais) no esquecimento. A meu ver, tais males e os vários disfarces niilistas dos valores perdidos a eles vinculados podem ser resumidos nos dez itens apresentados a seguir:

 

1-    o cientificismo e o redimensionamento da razão do homem em sentido tecnológico;

2-    o ideologismo absolutizado e o esquecimento do ideal do verdadeiro;

3-    o praxismo, com a exaltação da ação pela ação e o esquecimento do ideal da contemplação;

4-    a proclamação do bem-estar material como sucedâneo da felicidade;

5-    a difusão da violência;

6-    a perda do sentido da forma;

7-    a redução do Eros à dimensão do físico e o esquecimento da ‘escala do amor’ platônica (e do verdadeiros amor);

8-    a redução do homem a uma única dimensão e o individualismo levado ao extremo;

9-    a perda do sentido do cosmos e da finalidade de todas as coisas;

10-                      o materialismo em todas as suas formas e o esquecimento do ser, a ele vinculado”.

 

Estes dez itens dão títulos aos dez capítulos do livro. Dá para se ter uma idéia do mergulho profundo que faz o filósofo, chamando todos os homens letrados do mundo às falas, abrindo-lhes os olhos. Ler esse livro é sair das trevas da ignorância.

 

No Epílogo, Reale deixa as duas mensagens de Platão aos homens de todas as épocas: a idéia da “con-versão” e a “oração do filósofo”. O resumo de toda a história da filosofia. A con-versão é o voltar-se para a contemplação do Bem, conceito que depois será levado adiante pelos cristãos. Voltar a alma para o Bem, voltar-se das puras aparências para a Verdade. O conceito é intuitivo e não preciso aqui aprofundá-lo.

 

A “oração do filósofo” está no final do diálogo Fedro, considerado por Reale a obra-prima de Platão. Não vou reproduzi-la aqui, remeto o leitor a ambos os livros, ao diálogo Fedro e à obra do Reale, que esmiúça o texto de forma magistral. Um ateu ou um niilista que venha a ler esse pequeno grande livro vai ter um problema existencial para resolver, especialmente se for alguém já vivido e inteligente. Terá que jogar fora todo o lixo ocidental que carrega em si.