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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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O RUBOR DA PÓLVORA 17 de junho de
2010 Publicado originalmente
na revista Dicta&Contradicta
Dados técnicos: Cormac McCarthy. Meridiano de sangue ou O rubor crepuscular
no Oeste. Tradução de Cássio de Arantes Leite. Rio de Janeiro: Editora
Objetiva, 2009. Até
publicar Meridiano de sangue, Cormac McCarthy era um autor relativamente desconhecido, mesmo
nos EUA. Ganhou uma bolsa em 1981 que lhe permitiu dedicação integral à
escrita do livro, que veio a ser publicado em 1985. Foi um sucesso
instantâneo. Quem o leu sabia que estava diante de obra maiúscula, uma das
maiores do gênero publicada nos Estados Unidos do final do século XX. McCarthy nasceu em Rhode Island, nos Estados
Unidos. Estudou na Universidade do Tennessee, em Knoxville, e serviu na Força Aérea entre 1953 e 56. Desde
o primeiro romance, de 1965, já teve nove obras publicadas. No Brasil, vários
de seus títulos estão disponíveis pela Editora Objetiva e pela Companhia das
Letras. Foi também agraciado com importantes prêmios literários, como o National Book Award e o National Book Critics Circle Award. Meridiano
de sangue foi publicado no Brasil originalmente
em 1991 pela Nova Fronteira, cuja edição estava esgotada. Agora, a Objetiva
nos presenteou com essa nova edição. Uma leitura obrigatória para aqueles que
querem estar atualizados com o que há de melhor na literatura mundial – além
do fato de que McCarthy ficou mais conhecido no
Brasil depois da adaptação do livro Onde os fracos não têm vez (No country for old
man) para o cinema, em película dirigida pelos
irmãos Coen, ganhadora de quatro Oscars. O entusiasmo do público e da crítica por
Meridiano de sangue pode ser medido pelos comentários de Harold Bloom,
feitos em mais de uma ocasião: “Hoje”, declarou a um repórter, “conheço
quatro romancistas americanos ainda em atividade e dignos de nosso louvor.
Thomas Pynchon ainda escreve. Meu amigo Philip Roth,
que ora dividirá com Stephen King o prêmio [da National
Book Foundation] pelo ‘valor da obra’, é um
grande comediante e certamente teria algo engraçado a dizer sobre isso. Há Cormac McCarthy, cujo romance Meridiano
de sangue é digno de Moby-Dick de
Hermann Melville, e Don DeLillo,
autor do grande livro Submundo”. Em outra entrevista, Bloom afirmou que McCarthy
“alcançou a genialidade com esse livro”.
Não é para menos. A
história é ambientada em meados do século XIX na fronteira do Texas com o
Novo México e conta a saga rumo ao oeste, objeto de tantas obras na
literatura e no cinema. A narrativa começa em 1833, data de nascimento de Kid, o personagem principal do romance, junto com o Juiz Holden. Partindo do fato histórico de que as autoridades
governamentais mandaram expedições de caça e extermínio aos índios, pagando
por escalpo, McCarthy constrói seu argumento em
torno desse evento. Jamais idealiza os índios, cuja moralidade é retratada no
mesmo nível da dos recém chegados; a violência é não apenas a parteira da
história, é a parteira da vida e a indutora da
civilização; o livro é uma reflexão profunda sobre o mal e seu papel na
marcha civilizadora, com ecos de Heráclito e seu polemos,
a guerra como a origem de todas as coisas. O
Juiz Holden é este personagem enigmático.
Inevitável vê-lo como uma forma de Mefisto. Sua psicologia remete às seitas
gnósticas dos primeiros séculos, especialmente àquelas cultuadoras
da dualidade de Deus e mesmo da supremacia do mal. Não há como não associar
sua figura às seitas ofitas e cainitas,
derrotadas pela ortodoxia cristã. O que faz, segundo o romance, a
diferença entre os civilizados e os bárbaros é o rubor da pólvora. O Juiz dá
a pólvora, feito um Prometeu modernizado. Aqui reside o abismo. Na passagem
em que o Juiz fabrica a pólvora, sob o forte cheiro infernal do enxofre,
salvando os celerados do massacre certo, decifra-se a charada: a pólvora
enviava as almas ao diabo. É neste momento que o juiz Holden faz o seu discurso de apologia à guerra, na
passagem mais marcante de toda a obra: “A
guerra é o jogo supremo porque a guerra é em última instância um forçar da
unidade da existência. A guerra é deus”. Será ele quem levará a guerra à
Cosmópolis? É neste momento que Cormac McCarthy dá o seu aviso profético: o de que o ocidente
resplandecerá no rubor da destruição e da violência. |
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