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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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ORTEGA E O CRISTIANISMO 11/10/2008 Em 1933,
Ortega y Gasset apresentou um curso em doze lições,
depois publicado em 1942 sob o título E Ortega
tomou o tema a partir de um aniversario bem significativo. Em 1633 Galileu,
diante do Santo Ofício, em Roma, teve, nas palavras mordazes do filósofo, que
“abjurar da física”. Aquele
julgamento terá sido o último grande e desesperado esforço da Igreja Católica
para contornar o incontornável, a ascensão destrutiva da modernidade, vale
dizer, do Mal. A retratação de Galileu não fez a roda do
tempo voltar atrás, mas serviu como divisor de águas. Desde então fé e
razão puseram entre si um abismo, que ainda não foi transposto. Não obstante
os esforços de santos homens como João Paulo II e Bento XVI, autores de
maravilhosas e esclarecedoras encíclicas sobre o tema. (Sim, a Igreja
Católica, como sempre, e tirando esses episódios lamentáveis como o de
Galileu, sempre ensinou que fé e razão andam juntas e seus clérigos mais das
vezes foram grandes cientistas, como Copérnico e Kepler). Os cientistas
seculares de hoje é que se fecharam na sua redoma hermética, impenetrável às
coisas sagradas. Senhoritos satisfeitos. Ortega ponderou, numa nota de rodapé: “Ello me hubiera permitido celebrar con
algún decoro ese tricentenario de la deplorable escena que sería un error
interpretar simplemente como una lucha entre la fe y la razón, y menos aún
entre Em artigo
anterior eu mostrei que a obra do Ortega é agnóstica, embora seus
grandes insights tenham raiz cristã. Por exemplo, quando ele enfaticamente
defende o “direito à continuidade”
está, nada mais nada menos, que defendendo o direito à Tradição cristã. Seu
erro maior foi, contraditoriamente, desprezar a raiz judaico-cristã do
Ocidente, por isso não logrou ir além do diagnóstico da rebelião das massas e
da ausência dos egrégios orientando as gentes. Não é possível fazer o
chamamento dos homens à responsabilidade e à Tradição sem restaurar as
virtudes cristãs e seus princípios. Os egrégios sempre foram os homens de fé
e seu sumiço coincidiu com a epidemia do ateísmo. Ortega era
também um filho do Iluminismo e do kantismo. Arguto observador da história e
da filosofia, ele precisava explicar para si mesmo as catástrofes que previa
e que testemunhava, desde que se tornou escritor, no
início da década de 10. Viu o despedaçamento da Espanha e da Europa, do
mundo, em desespero atroz, sem nada poder fazer. Viu a emergência das massas
estúpidas, que passaram a mandar no mundo, exatamente como neste instante
agora mandam no mundo. A humanidade estava sem rumo, como está sem rumo neste
momento. As manchetes dos jornais do dia não permitem nenhuma margem a dúvida de que estamos em uma esquina muito perigosa da
história, tal e qual há um século. A crise
econômica, que surpreendeu a todos e atordoou toda a gente Urbe et Orbi,
é a face mais branda e inicial de suas manifestações, apenas o prolegômeno do que virá, como Ortega bem o viu em Por isso
ler Ortega é ter um mapa do caminho, um roteiro dos acontecimentos que
assomam (e assombram) no horizonte. Dediquei os últimos anos da minha vida a
estudar a obra do filósofo, bem como a de Strauss e a de Voegelin,
outros profetas do século XX. Fui invadido pelo sentimento de déjà vu, que me angustiou e tirou o sono
muitas vezes. Bem se diga que a repetição é apenas aparente: desde os anos
trinta a humanidade ficou mais hermética, mais poderosa,
mais insensata, mais atéia. Mais arrogante. Temos agora todos os meios
para dizimar a civilização, meios que Ortega nem desconfiava à época. Quem tem
o gatilho do apocalipse é gente moralmente inferior, que aprendeu da vida o
desvalor, que não tem o sentido da existência, que ignora a transcendência. Importa
aqui tentar mostrar como Ortega via o cristianismo, pois daí deriva seu erro
capital. O ponto é relativamente simples: o filósofo espanhol via no
cristianismo uma mera manifestação cultural, histórica, igual às demais que
apareceram. Ortega não conseguiu entender que Cristo era a confirmação dos
profetas e que São Paulo e Moisés não eram radicais alucinados enquanto
homens porque o quiseram. Gente igual àqueles radicais em política que
pululam nos tempos de crise. Não cabe o paralelo. Homens como Moisés e São
Paulo radicalizaram porque tiveram a experiência mais radical de todas, de *ver* Deus. Radicalíssima
experiência, da qual não se pode sair sem ter de cumprir a missão dada. No
fundo insubornável de seu ser esses homens descobriram a verdade e foram pregá-la ao mundo. Ao
equiparar essa experiência com outras, Ortega se enganou. Cabe perguntar: qual
é o Deus de Ortega? Em alguns momentos fica claro que é o mesmo Deus de
Aristóteles, aquele que cria as circunstâncias. (Veja-se a
seguinte passagem: “En todas sus
dimensiones, pues, es nuestra existencia un enfronte perenne de dos elementos
heterogéneos -el hombre y su antagonista, ese «otro» que no es el hombre y lo
rodea, lo envuelve y aprisiona, llámesele circunstancia o mundo o Dios o como
se quiera”.) Deus
identificado erroneamente como natureza, e não como realidade transcendental,
o próprio Bem que se deu a conhecer e se preocupa com a sua criatura. Ao fazer
isso, vemos como Ortega é um apogeu do Iluminismo, pois o homem, em sua obra,
se equipara a Deus, age por si e cria a sua própria realidade a despeito do
Criador. O agnosticismo aqui se metamorfoseia em gnose: o homem salvando-se a
si mesmo. Vai além Ortega, ao dizer que o homem precisa salvar as
circunstâncias para salvar-se. Salvar o Criador! É a mais alta manifestação
de arrogância espiritual que um filósofo poderia imaginar. E, quando fala do
social, dessa segunda natureza que não vem de Deus e nem do homem enquanto
tal, Ortega identifica uma terceira dimensão que não tem criador. Se autor há
do fato social é o próprio homem. A criatura aqui fica maior que o Criador.
Deus nada é no universo de Ortega, exceto a circunstância biofísica. Um
perfeito absurdo. Por isso
ele não pôde compreender nem Moisés e nem São Paulo, aqueles radicais que
outra coisa não poderiam ser, pois que contemplaram
a realidade mais radical, a raiz de todas as coisas. Então o
filósofo persegue uma miragem falsamente explicadora das crises, a sua teoria
das gerações. Perde-se em infinitas contas para dar um nexo aos câmbios
históricos. E não consegue ver a única constante explicativa, a de que
periodicamente a humanidade rebela-se contra Deus, desde o Antigo Testamento.
Moisés sobe à montanha e seu povo passa a fazer bezerros de ouro, a adorar Baal, o deus desse mundo, o Estado. Ele, Moisés, que teve
a missão específica de libertar seu povo do Egito, outra maneira metafórica
de dizer: libertar seu povo do Estado. Canaã é a utopia da sociedade
perfeita, sem Estado. A cada geração é preciso um Moisés para libertar
novamente o povo de Baal. A
encantadora prosa de Ortega, revelando seu poderoso intelecto, por vezes
ofusca a compreensão de suas deficiências filosóficas. E esta aqui, sobre as
manifestações de Deus na história, é a mais notável. Por isso Ortega pôde ver
a crise em sua inteireza, pôde fazer o diagnóstico correto, mas não pôde dar
a receita para a sua superação. Debalde maldisse a ausência dos egrégios.
Para fazê-lo teria que ter-se feito cristão. Só beijou a cruz ao morrer. Era
tarde demais. |
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