NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado

 

 

 

 

 

 

 

ORIGENS DA CRISE

26 de novembro 2008

 

Não posso deixar de comentar o belíssimo artigo de Thomas L. Friedman, publicado no New York Times ("Falência total"), No texto ele não apenas descreve a irresponsabilidade com que os banqueiros – em especial o Citibank – construíram as bases da crise, como também reflete sobre as conseqüências dela. Convido você, caro leitor, a ler a tradução no site do UOL, acessível pelo atalho.

 

Em resumo, Friedman mostra que essa crise não é do capitalismo e nem dos seu pressuposto, a moralidade liberal que se aplica inclusive e sobretudo à indústria bancária. A crise é do Estado e de seus clientes, entre eles empresas bancárias que desaprenderam suas boas práticas e passaram a jogar com papéis pobres, fabricados artificialmente com o propósito especifico de alimentar uma longa e gorda “cadeia produtiva” de interesses: lucros e dividendos, comissões, elevados salários e bônus de diretores e gerentes, impostos: era o jogo do ganha-ganha em que todos contavam implicitamente com a participação do Tesouro como pagador de tudo, em última instância.

 

Os planos trilionários de socorro às empresas falidas, amparados em emissão de moeda, mostraram que essa gente acabou por se dar bem no plano pessoal, transferindo à coletividade o custo de sua irresponsabilidade. Pelo menos estão se dando bem nesse primeiro momento.  Esse fato coloca em relevo a questão da ética da economia capitalista, do perfil do Estado necessário a uma sociedade sadia, a formulação da política econômica e os limites estatais para a administração da moeda e da dívida pública.

 

Nenhum bailout foi feito impunemente e trarão conseqüências dramáticas para o sistema econômico e toda a sociedade. Muito provavelmente as conseqüências desastradas da ação dos governantes bem intencionados e despreparados para lidar com a crise serão piores do que as da crise em si. Ironia trágica, em que o remédio é maior e pior do que a doença. Em última análise, o que estamos a ver é o rasgar de todas as leis econômicas, de todos os códigos éticos e todos os limites da prudência na gestão da coisa pública. A falência total da moralidade coincidiu com a aceitação generalizada das crenças esquerdistas e estatistas que tomaram conta da opinião pública.

 

A hora agora é de fazer triunfar a verdade como sempre se soube, contra a mentira infernal do estatismo. A verdade é simples: é preciso reduzir o Estado, é necessário que as empresas que ganharam com as fraudes no mercado fechem, que os parasitas sejam banidos. Mais do que nunca é preciso defender o valor da moeda como um bem público insubstituível, que não deveria estar sendo corrompida para resgatar empresas quebradas fraudadoras.

 

Evidentemente que ninguém em postos de poder de Estado quer ouvir essa verdade simples. Estamos a ver mesmo liberais doutrinários aderirem ao estatismo desembestado. Todos querem ser os campeões na proteção ao mercado, quando o mercado precisa apenas que seja respeitado, pois sabe proteger-se a si mesmo. E nas empresas falidas, seus diretores e gerentes também não querem ouvir a verdade. Todos querem ouvir o que Barack Obama lhes disse: “Yes, I can. Essa arrogância messiânica não dura até março. O sentido histórico dessa crise, se há algum, é restabelecer a moralidade geral, no âmbito do mercado e também no âmbito do Estado. Restabelecer a verdade enquanto tal.

 

De todos os resgates anunciados o que mais me causa espécie é o da indústria automobilística. Em última análise, as grandes empresas norte-americanas estão em dificuldades por venderem menos do que deveriam e por praticarem preços menores do que gostariam. A concorrência obriga que seja assim. Além disso, há notícias de má administração, prodigalidade nos gastos, acordos coletivos de trabalho mal negociados e irresponsabilidade na gestão de fundos de pensão. Uma crise de mercado serviria para a correção dos desvios, mas para que corrigir, se o resgate vem como crédito em conta?

 

Seria mais moral se o governo dos EUA desse a cada um dos seus habitantes um crédito para comprar carros dessas indústrias. Mas isso destruiria a concorrência. Seria a destruição mais rápida da ética capitalista. Na verdade, estamos vendo a destruição rápida da ética capitalista, mesmo sem se mexer diretamente com a concorrência. Essa gente não gosta de livre mercado e de suas conseqüências, que beneficiam o consumidor.

 

O que essa crise tem a nos dizer é que as más doutrinas que vicejaram por quase cem anos estão exauridas, seja como forma de vida, seja como instrumento para superação da crise. Estamos vendo a morte da teoria de Keynes e de suas variantes marxistas, soterradas pela emissão de trilhões de dólares.  Keynes morreu e parece que finalmente será devidamente enterrado. Sem choro e nem vela, mas com muito sofrimento.