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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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O PROER E A ESTABILIDADE ECONÔMICA 30/09/2008 Li e reli
o artigo do senador Marco Maciel, publicado hoje no Estadão (“O PROER blindou o sistema bancário
brasileiro”). Li de novo. Eu não poderia concordar com a tese central, de
que o PROER teve efeito miraculoso e a ele poderia até mesmo serem creditados os evidentes benefícios do Plano Real, um
grande exagero. Mas como fugir ao senso comum? Como argumentar contra o
artigo do senador? Como tirar o véu que esconde a realidade? Vejamos
seu primeiro parágrafo: “A
atual crise mundial dos mercados financeiros e de capitais, cujos
enfrentamentos estão sendo adotados pelo governo dos Estados Unidos, confirma
o quanto estava certo o presidente Fernando Henrique Cardoso ao criar o
Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema
Financeiro Nacional (Proer), implementado no Brasil
de O que teria sido sem o PROER? Difícil contar a história
do que poderia ter sido, mas nunca devemos esquecer dos fatos maiúsculos que
aconteceram no período e que o senador convenientemente se esqueceu de se
lembrar. O primeiro deles é o salto espantoso na carga tributária, para mim o
verdadeiro sustentáculo da estabilização de preços, em meio a gastos elevados
e crescentes do governo. O imposto inflacionário foi simplesmente substituído
por tributação explícita, marcando de forma indelével a guinada do Brasil
para o campo das economias de feição socialista. Outro fato importatante – e que persiste até hoje – foi
a elevadíssima taxa de juros, que transferiu ganhos gigantescos do Tesouro,
grande devedor da economia, para os banqueiros privados. Boa parte da
elevação da carga tributária transformou-se em receita nominal dos bancos.
Podemos dizer, sem margem para errar, que os custos do PROER foram
elevadíssimos para o contribuinte brasileiro, que arcou não apenas com a
expansão da dívida, como também com seu elevado custo de carregamento. O artigo afirma: “A
última operação de financiamento do Proer foi concluída em meados de Deve-se registrar também que o governo FHC deu outra
grande soma de recursos aos banqueiros ao reconher como válidas as ditas moedas
“podres”, como as TDAs, que por décadas eram ativos ilíquidos. Por simples
decreto esses títulos foram igualados aos demais de emissão do Banco Central,
fazendo a fortuna, do dia para a noite, daqueles que os tinham em carteira,
naturalmente os banqueiros. Nunca descobri o montande dessa doação. Essa
história ainda precisa ser melhor contada. Não é coisa gratuita, esse
reconhecimento, pois agigantou a dívida pública e engordou a receita dos
balanços dos bancos de forma permanente. Outro efeito desastroso do PROER foi cartelizar ainda
mais o mercado bancário brasileiro, que se concentrou enormemente,
tornando-se o setor mais impermeável à competição. O sistema bancário
brasileiro é um gigantesco cartório ou um restrito clube que não admite novos
sócios. Não é possível mensurar o mal que uma cartelização dessa envergadura
tem causado à economia brasileira. Penso que as taxas raquíticas de
crescimento da economia verificadas nas últimas décadas se deve, em muito, à
inadequação da intermediação financeira para apoiar o desenvolvimento. Banqueiro
gosta mesmo é de financiar o governo. As coisas deram certo para o Brasil depois do PROER,
sobretudo pela grande expansão da economia mundial nos últimos tempos, fatos
que não guardam relação de causa e efeito. Sobrou liquidez no mundo,
afastando o eterno fantasma da insuficiência de moeda forte entre nós. E
também nunca exportamos tanto. Então os fenômenos se misturam e aquilo que é
ruim pode parecer o seu oposto ao observador desavisado. Posso não me tornar
muito popular por dizer que o PROER foi uma gigantesca doação de recursos,
seguida de cartelização e de uma superremuneração da dívida pública, mas é
essa a dura realidade. Terá sido algo bom? Foi bom o crescimento da carga
tributária como proporção do PIB? Um estadista poderia ter feito diferente,
como agora o Congresso dos EUA ousou fazer, dizendo um “não” sonoro à
aventura semelhante por lá tentada. Tudo somado o governo FHC tornou os
bancos grandes estruturas, ricas e sólidas, impermeáveis à concorrência. Não
é possível haver quebra com receitas elevadas e sólidas e sem ter competição. O fato é que os banqueiros estão devorando, há décadas,
o orçamento público, ao cobrar os juros abusivos que cobram sobre a dívida
pública. Algum cínico poderá dizer que o governo não é obrigado a tomar
dinheiro emprestado. Mas quando se sabe do “mensalão” e de quem o pagou é que
vemos como funcionam as engrenagens do poder. Toda a classe política
brasileira, da esquerda ora no poder à direita apeada, tornou-se patrona dos
banqueiros, ou cliente, dependendo do ponto de vista. Por isso que banqueiros
como Olavo Setúbal, de saudosa memória, defendem monstrengos como a CPMF.
Afinal, a destinação principal dos impostos tem sido pagar os juros da dívida
pública. Não é mesmo um negócio perfeito, ser banqueiro no Brasil? Viva o
PROER! |
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