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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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O PROBLEMA DO ORÇAMENTO PÚBLICO 02 de março de 2009 No artigo anterior comentei que o primeiro orçamento
apresentado pelo presidente Barack Obama para o próximo ano fiscal é uma insanidade, em face
do tamanho do déficit proposto, mas também em face da qualidade dos gastos
perseguidos. Os bailouts
de empresas tecnicamente falidas, como bancos, a AIG e a General Motors Corporation, bem como a compra dos ditos ativos
imobiliários tóxicos é uma afronta às leis naturais do mercado. Esse
orçamento é um sinal dos novos tempos em direção ao Estado Total. Essa
proposta orçamentária impõe uma reflexão sobre o papel do orçamento público.
Na origem a peça orçamentária foi um símbolo da luta libertária contra a
tirania do Estado Absolutista. A idéia de que os impostos devem ser votados
antes do exercício fiscal revolucionou a relação entre os poderes e de fato
acabou com o arbítrio dos Estados. Foi um grande avanço para a civilização. O
orçamento tornou-se a trava ao avanço do Estado sobre a renda dos
particulares e melhorou a representação política. Ocorre que
no século XX, já no bojo da revolução gramsciana
que alcançou todo o globo, vimos o poder de Estado
se agigantar e o orçamento publico mudou de aspecto. Ele não apenas deixou de
ser a trava, mas tornou-se o dínamo a sugar os recursos privados. Mesmo antes das idéias de Gramsci serem
generalizadas tivemos o movimento em torno do keynesianismo e do progressismo,
nos EUA, que levou ao crescimento secular da carga tributária e das despesas.
Na prática o que tivemos foi uma profunda mudança nas crenças coletivas a
respeito do Estado. Este deixou de ser temido enquanto ameaça potencial que é
para ser adorado como salvador. Os
movimentos que defendem o agigantamento do Estado são todos de fundo
religioso, sucedâneos das religiões tradicionais, e não meros fatos
políticos. A democracia de massa permitiu que gente moralmente inferior
viesse a ocupar o lugar dos estadistas. Estado forte com dirigentes
despreparados e moralmente inferiores é a fórmula do desastre. O que vemos desde
o século XX é movimento da classe
política e da burocracia estatal para esparramarem do seu poder, sempre
policialesco e fiscalista, vendendo ao povo a falsa solução mágica de que o
Estado teria o poder de eliminar os riscos existenciais. Toda a literatura
econômica, inclusive aquela que poderia ser chamada de liberal, está baseada
na crença de que há um poder redentor nas ações do Estado capaz de gerenciar
a vida ela mesma e aperfeiçoar a humanidade. As lições dos liberais clássicos
foram esquecidas, especialmente aquela de que o Estado é o grande perigo, a
besta maior, o elemento que precisa ser politicamente neutralizado. Interessante
é que o conflito da Segunda Guerra Mundial foi contra uma forma de Estado
Absolutista, o nazismo, mas do lado vencedor tínhamos os comunistas russos e
os progressistas dos EUA. Este país, tido como o paradigma do liberalismo,
caminhou a passos largos para montar uma forma de Estado Total ainda mais
perigoso que o comunismo, fenômeno que Peter Drucker chamou de “socialismo de fundo de pensão”. Estamos muito próximos disso.
Esse Estado Total tende a controlar todas as dimensões da vida humana e só de detém diante da crise
que ele próprio constrói, de dentro para fora. Ao se sobrepor à
espontaneidade do mercado, ao sufocar a economia com a supertributação,
ao estrangular a liberdade com o excesso de regulamentos e ao transformar a
vida prática em uma ação perigosa, com sérios riscos jurídicos, não se poderia
esperar outra coisa que não a eclosão de uma catástrofe, econômica assim como
política. Não é mero acaso que a população encarcerada cresce
exponencialmente nos EUA. Essa crise
tem caráter catastrófico precisamente porque o Estado foi longe demais, desvinculou-se
de suas funções essenciais e passou a servir a verdadeiras gangues que estão
controlando as agremiações políticas. Uma luta de resistência precisa ser
levada avante. Existir é resistir. O irracionalismo de se colocar o Estado a
serviço de grupos particulares, sob qualquer pretexto, é o fator determinante
para a crise. Sem o consenso de que precisa viger o Estado Mínimo essas
minorias gananciosas avançam. Ela, a crise, é isso: a expressão da
manifestação mais peremptória da lei da escassez. Não há como a humanidade
fugir dela. Os EUA vão enfrentar essa dura realidade nos próximos anos. Ela
virá como empobrecimento, como liquidação das gangues que controlam o poder
(com a respectiva crise política) e o sério risco de depreciação do dólar,
prejudicando as trocas internacionais. A crise é
ainda mais dramática pelas repercussões internacionais, vez que os EUA são
não apenas os maiores importadores, como também são os emissores da moeda que
intermedia as trocas mundiais. Uma depreciação
descontrolada do dólar equivale à destruição, ainda que temporária, do
mercado internacional. Uma bomba atômica não seria mais letal que isso, pois
a paralisia do comercio internacional equivaleria a um empobrecimento
instantâneo, em escala planetária. O afã dos
adoradores do deus-Estado de torná-lo o salvador do mundo, tão bem
representado pela figura de Obama, poderá jogar a
humanidade em uma situação desconhecida e de difícil superação. Discutir a
natureza do orçamento, sua função e sua dimensão política tornou-se uma
atualidade de larga importância. Entendo que não é apenas do perigo à
liberdade que estamos falando, mas à vida civilizada como a
conhecemos. Uma regressão econômica dessa envergadura jogaria o mundo
em uma situação de caos. |
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