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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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O PROBLEMA DO MAL 30 de novembro de 2008 “Não
te deixeis vencer pelo mal; vence antes o mal com o bem” São Paulo, Carta
aos Romanos, 12;21 Quando vi
as primeiras imagens do desastre de Santa Catarina, com a cheia levando
casas, árvores e vidas, deixando um rastro de destruição atrás de si, não
pude escapar de me emocionar e pensar na manifestação do mal no mundo. Sim,
impõe-se a primeira pergunta: o que é o mal? Entendo que é tudo aquilo que
prejudica o homem e o desvia de sua jornada, que encurta artificialmente sua
existência e lhe impõe sofrimentos perfeitamente evitáveis em situações
normais. Morrer em si não é mal, mal é morrer fora de época, de forma
violenta, como vimos acontecer a mais de uma centena de pessoas em Santa
Catarina. Esse é o mal natural, que desde o Iluminismo o Ocidente passou a
associá-lo a simples causas naturais, saindo de qualquer explicação
teológica. Claro, se a metafísica é desacreditada como um todo não haveria de
ser o elemento maligno transcendente a prevalecer. Aqui se impõe novamente
outra pergunta: o mal é apenas humano ou tem uma raiz transcendente? Essa
pergunta atravessa os milênios. Se quisermos ser fiéis aos textos bíblicos
temos que admitir uma certa autonomia do mal. O
Livro de Jó é categórico, nomina Satanás na
presença de Deus, que dele recebe autorização para tentar seu servo mais
fiel, a quem inflige as maiores provações. O próprio
Jesus Cristo recebe as tentações diretamente de Satã. Então não é possível
descartar o elemento transcendente e relativamente autônomo da ação do mal,
como testemunhado pelo próprio Salvador. Na oração do Pai Nosso Jesus não esqueceu de rogar ao Pai: “Mas livrai-nos do mal”. Na visão
humanista do mal este é apenas produto da condição
humana e de causas naturais, perfeitamente inteligíveis pela razão. Já na
visão cristã é sempre o Tentador que está presente. Equivale a dizer que o
mal depende da ação humana para acontecer na história. Seu acesso se dá pela
soberba do homem. A Queda de Adão é esse primeiro ato de soberba e lá estava
a serpente tentadora representando Satanás. Então se pode dizer que para
acontecer o mal no mundo é necessário o concurso do homem e desse elemento
metafísico a quem chamamos de Satanás. O livre-arbítrio e o pecado estão na
raiz da manifestação do mal. São a sua porta de
entrada na história. As obras
de arte mais significativas do Ocidente abraçam essa visão dualista. Em Goethe,
Fausto tem o assédio de Mefistófeles, que usa de sua ambição para levá-lo ao
delírio de grandeza, que é a maior de todas as metáforas da modernidade. Em
Dante vemos o mesmo simbolismo, ainda com forte roupagem medieval. Primeiro o
poeta se confronta no caminho descendente, ameaçado pela loba e para
salvar-se (notar esta palavra) tem que se embrenhar na mata escura que o leva
direto ao Inferno. Thomas
Mann o faz da mesma forma. Adrian Leverkühn
precisa antes firmar seu pacto com o demônio para realizar seu delírio de
grandeza, que é o mesmo da Alemanha, e intercala o relato de ficção com o
relato historico e, assim, construindo a mais sensacional crônica dos tempos
nazistas. Os filmes de Kubrick, o grande cronista da alma
no cinema, retrata o mal nascendo da transcendência. Sublinho
especialmente os filmes O ILUMINADO e DE OLHOS BEM FECHADOS. O homem decide
pelo livre arbítrio, mas o faz em uma ambiente hostil, pleno de tentações.
Precisa sempre firmar um pacto, vender-se livremente. Expressões estéticas puras do mal estão em Nietzsche
(Zaratustra é outro nome para Mefistófeles), em Walt Whitman e em Van Gogh. Esse trio produz, com sua obra, a profecia do que
viria no século XX. Mesmo em
obras mais antiga, pagãs, como ÉDIPO REI, de Sófocles, vemos essa ação
exterior à vontade do homem nos acontecimentos capitais de sua própria
existência. Freud cometeu um enorme erro de avaliação ao centrar sua exegese
dessa obra no intercurso sexual incestuoso, realizado à revelia da vontade e
mesmo do desejo enquanto tal. Se desposou Jocasta
foi mais por razões de Estado do que motivado pela libido. Fugia do próprio
mal que não queria praticar e acabou por ir encontrar-se com ele. Entendo que
o essencial dessa tragédia acontece no caminho que se trifurca, um símbolo
poderoso: ao homem é dada a possibilidade de escolher. E veremos já aqui na
Grécia do século V a soberba de Édipo como o elemento essencial para
determinar o assassinato do pai. Tivesse Édipo alguma humildade e a comitiva
de Laio teria seguido seu caminho sem incidentes no
ponto trifurcado. O motor da trama genial de Sófocles nada tem a ver com
sexo, mas com soberba. E o intercurso incestuoso vem como castigo, não como
algo desejado. É um espanto que toda uma psicologia tenha sido construída em
cima de uma interpretação equívoca desta peça. Sófocles
pôs na boca do coro: “Terrível presenciar o teu sofrer! De tudo que vi o mais terrível! Que delírio, infeliz, te atropelou? Qual deus demônio, de um salto só, Ultrapassa uma distância máxima, Impondo os pés sobre tua moira
demoníaca?” As
perguntas em verso ecoam agora com a mesma força que ecoaram aos
contemporâneos gregos do século V. Diante do mal o homem fica mudo,
aterrorizado, entregue como uma folha ao vento. Salvar-se é escapar ao
maligno e essa é uma tarefa de Deus-Pai Todo Poderoso. Esse é o mistério da
encarnação de Cristo. E tem
também o mal moral, que se desdobra no mal político.
Vimos os acontecimentos recentes na Índia, chocantes. O mal lógico em ação.
Gratuito, estúpido, irracional. Como entender? O que houve na Índia é da
mesma natureza do 11 de Setembro. Da mesma natureza
de Hitler. Esse mal moral está hoje potenciado pelo
enorme poder de Estado. Se olharmos toda a força militar e policial estocada
veremos que é uma tentativa desesperada de a humanidade dar combate ao mal.
No entanto, quase sempre esse poder se volta contra os inocentes,
especialmente quando governantes estúpidos estão no comando do Estado. Esse é
o maior perigo que paira sobre a humanidade. Os alvos das bombas e projéteis
de todos os calibres são sempre homens. Uma
manifestação destrutiva do mal moral associado ao
Estado é a crise econômica, especialmente esta que agora se manifestou. Com
os estúpidos governando o mal tende a crescer e a produzir sacrifícios
inúteis e prolongados. A crise econômica é uma das novidades dos tempos
modernos, em que a soberba do homem é elevada à razão de Estado. O papa
João Paulo II deu uma resposta para o mal lógico do
século XX, as Grandes Guerras, Auschiwitz e
acontecimentos assemelhados, no livro MEMÓRIA E IDENTIDADE. Sempre volto a
ele e vejo novas perspectivas. O papa foi um grande pedagogo. E aqui ele
sublinhou que o mal está na soberba do homem, no amor sui que substitui o amor a Deus
sobre todas as coisas. As tragédias do século passado foram gigantes porque o
homem nunca foi tão arrogante e cioso de si mesmo. Temo que essa arrogância aumentou desde então, que a humanidade nada aprendeu com
aquelas grandes tragédias. Assim, o mal poderá voltar a operar livremente,
utilizando-se especialmente da alma desgarrada dos governantes estúpidos.
Nunca foi tão atual e necessário o conselho de Cristo: Orai e vigiai. |
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