NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado

 

 

 

 

 

 

 

O PROBLEMA DA MORAL
26/08/2006.


Ao contrário do que possa parecer aos ateus e agnósticos, discutir a questão moral remete diretamente aos fundamentos últimos que explicam a existência e não é possível chegar a esse esforço de pensamento sem meditar seriamente sobre a metafísica. Eu entendo perfeitamente a posição dessas pessoas que abandonaram a tradição cristã: discutir metafísica seriamente leva de forma inescapável à aceitação de Deus, portanto seriam obrigadas a abandonar uma vida inteira de erro filosófico. Não a imagem antropomórfica de Deus, não um Deus panteísta. Àquilo ou aquele que é o fundamento lógico não apenas do Ser, mas também da liberdade ela mesma, que é uma realidade imediata que escapa a nossa capacidade conceitual.


Discutir desse modo teria de me forçar a expor as idéias de Zubiri e não há espaço aqui para fazê-lo. O ponto é que toda a mentira da modernidade se assenta na palavra <igualdade>. Entendida como igualdade econômica - o nivelamento de todos os indivíduos como propõe a utopia marxista - equivale ao assassinato da liberdade. Curioso: os liberais-conservadores lutam por princípios que são, a um só tempo, os mais elevados e os mais exeqüíveis, de acordo com a natureza do homem. Esses princípios são a dignidade de todos e de cada um e a sua igualdade diante da lei.. Formulados assim esses princípios estão de acordo com as Escrituras, que jamais propõem em lugar algum a igualdade literal que o comunismo contemporâneo vende ilusoriamente ao distinto público.


Os liberais-conservadores aceitam como dado da vida a desigualdade objetiva que é a condição para que a liberdade se realize. Inversamente, os comunistas e assemelhados, ao buscarem a igualdade econômica de fato, por meio da mão estatal, impõem o reino da escravidão e a hierarquização iníqua dos homens, separando a casta governante dos governados, no mais odioso sistema de castas já construído, fundado exclusivamente na posse da carteirinha do partido governante.


A conclusão de impõe: os que pregam a igualdade são, disfarçados, os pregadores da escravidão, os ilusionistas que partilham da mais autoritária visão política, mesmo aqueles socialistas de salão que querem "apenas" elevar a tributação para distribuir renda em busca de uma enganadora "justiça social". Salta aos olhos a imoralidade dessa proposição e o caso brasileiro, de tão aprofundado, não deixa margem a nenhuma dúvida quanto à iniqüidade dessa ação política.


Do mesmo modo pode-se dizer do fundamento da moralidade. Achar que ela brota da razão ou de uma visão utilitarista qualquer é apenas um passo para se cair no relativismo que aproxima seus defensores da lógica dos igualitaristas. O liberalismo ateu é primo-irmão do comunismo e com ele partilha de seu relativismo moral. O único fundamento sólido da moral é a revelação, que está cristalizada na tradição. As práticas ancestrais dão o testemunho da incorporação da consciência obtida com a verdade revelada aos atos do cotidiano, a começar pelo direito de propriedade. Não foram, as práticas morais consolidadas pela tradição, nem produto da razão pura e nem da experiência empírica utilitarista. Na verdade, a boa moral daqueles que se dizem ateus é obtida pelo ato de imitação do conteúdo moral contido nas Escrituras.


O mesmo vale para o conceito de Direito Natural. De forma alguma ele pode ser produto da mera razão, como queriam os filósofos iluministas. Sua fonte é mais profunda e está além do homem. A razão é uma faculdade meramente  instrumental, é incapaz de dar o sentido do certo e do errado, que só pode se fundamentar em instâncias muito mais profundas da condição humana, na metafísica ela mesma. Cristo não foi crucificado acidentalmente entre dois ladrões, dois criminosos que desrespeitaram o direito de propriedade. Como em qualquer dos seus gestos e dos seus ditos, o ato de crucificação está carregado de simbolismo. Entendo que uma exegese correta desse símbolo só corroborará que o direito de propriedade foi sacramentado por Ele. Cristo não condenou a propriedade, muito ao contrário, mas aceitou a condenação daqueles que conspiraram contra ela. O bom ladrão é aquele que se arrependeu de seus pecados - vale dizer, de ter roubado - e o mau foi o ladrão convicto, destinado à condenação eterna. Entendo que o ladrão por antonomásia nos dias de hoje são os socialistas e comunistas, que usam o Estado para roubar aqueles que trabalham.


Todo o Decálogo baliza a nossa vida prática no Ocidente. É a fonte da nossa moral, do nosso dever ser.  Ninguém poderá aboli-lo, muito menos o pedaço que trata da propriedade privada. Tentar corromper essa moral maior é corromper a solidez da moralidade. "Tudo que é sólido desmancha no ar" se abandonarmos a tradição. Não se honrará mais pai e nem mãe, nem a família, nem o próximo e nem o próprio Deus. É o caos da amoralidade, que parece ser a experiência de nossa geração. Ver, por exemplo, o programa da propaganda eleitoral é assistir a apologia ao roubo, a pregação da facilidade do viver sem o concurso do trabalho duro, sem a renúncia que é exigida por ocasião do abandono dos vícios em cada um dos dias que se vive.