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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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PODER SOBRE O ORÇAMENTO PÚBLICO 13 de março de 2009 O orçamento proposto por Barack Obama para o próximo ano
fiscal permite mais algumas reflexões. Vimos nos artigos
anteriores que a peça apresentada está próxima de um ato de loucura, em
face da dimensão do déficit proposto e em face da qualidade dos gastos
planejados. Uma questão relevante se
impõe: quem manda no orçamento? Aparentemente a resposta é óbvia, a classe
política. Se olharmos mais de perto veremos que não
é bem assim e que uma segunda pergunta se coloca: quem manda nos políticos? Vimos que na origem a
introdução da peça orçamentária foi algo revolucionário, pois deu uma trava
no poder discricionário do Estado de tributar os particulares. O lado da
despesa era o que menos preocupava, pois a pratica de aprovação do orçamento
começou a ocorrer quando os gastos públicos não passavam de 3% do PIB. Nem se
discutia a despesa, mas o seu custeio. A função do orçamento era precisamente
de impedir o alargamento da tributação. Na aurora do século XX houve
uma brusca mudança de percepção do Estado. De um mal necessário e tolerado
como uma ferramenta para prover a Justiça e a Segurança, o Estado foi
transformado em ferramenta capaz de supostamente impedir os males humanos,
especialmente os riscos existenciais. Novas funções lhe foram atribuídas,
como Educação, Saúde, Habitação e Previdência Social. O Estado então passou a
ser formado por uma crescente burocracia profissional, cada um dos seus
pedaços ficando responsável por uma clientela específica. Esse processo, uma
vez iniciado, não teve mais fim. Entrou governo e saiu governo e os gastos
públicos só foram elevados, mesmo quando o responsável pelo Executivo era
alguém do calibre de Ronald Reagan e Margaret Thatcher, governantes alinhados
com os princípios liberais. Esses governantes não foram
capazes de inverter a curva de crescimento da despesa e, por conta disso, o
crescimento da carga tributária e do déficit público foi inexorável. Mesmo
quando eles tiveram maioria no Parlamento a despesa
não pôde ser cortada. Quem determina a despesa? Se o Parlamento tem a função
formal de aprovar a peça orçamentária e as leis tributárias, quem elabora a
proposta é o Executivo. E quando falamos o Executivo falamos por primeiro da
burocracia estatal. O poder está apenas parcialmente nos agentes políticos.
Boa parte dele está concentrado na burocracia, que
fez da inexorabilidade das leis seu bunker em
defesa de seus próprios interesses. Seus salários e aposentadorias são
elementos “imexíveis” no orçamento. O número será sempre o que é. Quando
muito o parlamento decide em que direção e em que proporção vai crescer.
Jamais há a possibilidade de cortar. Da mesma forma, o custo de carregamento
da dívida pública, cujo número é supostamente determinado na instância
técnica e a classe política sobre ele não opina. Vemos
portanto que há um elemento inercial no gasto que se estende
infinitamente ao futuro. Outro conjunto de gasto são os
chamados “sociais”, como Educação, Saúde, Habitação e Previdência Social.
Nenhum político tem coragem de pôr o dedo nessa ferida. Temos nesses itens a
ditadura das massas. Obviamente que é irracional aumentar os gastos nessas
áreas tendo como contrapartida a contínua elevação da carga tributária. A
cada período força-se ainda mais a sua elevação, com
a expansão da clientela. Barack Obama
fez da promessa de universalização da Saúde seu grande mote de campanha. Os
inúmeros bailouts que temos visto desde o mês de
setembro não tem como objetivo salvar empresas, mas
sim, seus aposentados. O caso mais ilustrativo é o da empresa General Motors Corporation. São 400 mil aposentados nos seus fundos de
pensão, contra apenas 100 mil empregados ativos. O Estado no século XX transformou-se
nessa suposta alavanca a garantir o bem-estar, o que não é e não poderia ser
sua função. Essa iniciativa transformou-o no monstro a esmagar toda a gente,
mesmo aqueles que supostamente são beneficiados. Desde a profissionalização
de falsas atividades, como os “agentes’
que cuidam das causas da clientela, até o incentivo puro e simples de vícios como
a preguiça e a parasitagem são disfunções desse
alargamento do Estado. Essa clientela é usada pelos políticos para impedir
que a racionalização do orçamento seja feita. De fato, o poder da classe
política sobre a deliberação dos gastos orçamentários não passa de 20% do seu
total, basicamente aquela fatia que se destina aos investimentos e ao
crescimento do custeio. Todo o resto é pré-determinado por inércia, seja por
força de lei, seja pelo clamor coletivo que poderia gerar uma eventual
tentativa de reduzir a despesa. A clientela tem grande poder de espernear. Os
pagadores de impostos não têm. A história do orçamento
público no século XX é a história do seu crescimento, pari passu com o crescimento da carga
tributária. Esse processo está sendo finalizado com a presente crise. A maior
parte dos orçamentos das democracias ocidentais já absorve mais de 40% do PIB
como despesa, inclusive os EUA, se somarmos a carga de tributos (cerca de
30%) com o déficit estimado (12,5%). Parece claro que os limites superiores
da expansão foram tocados e a crise é o dobrar dos sinos dessa morte
anunciada. Mas restam duas questões: o que fazer com o apetite das massas,
que querem mais e mais bem-estar? O que fazer com a inércia dos gastos com
funcionários públicos, aposentadorias e com o custo de carregamento da dívida
pública? Será que estaremos próximo a um fatídico dia do perdão? Entendo que não haverá saída
racional para o impasse, restando apenas o caminho da inflação, com a emissão
descontrolada de moeda, como estamos a ver presentemente nos EUA. Inflação
sempre resolve o passado, desvalorizando o passivo acumulado. O processo,
todavia, é irracional, sofrido e prolongado. O mundo está á espera do que irá
acontecer. Quem viver verá. |
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