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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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O ÓPIO DOS
INTELECTUAIS (I) 15/09/2002 "Se a tolerância nasce da dúvida, que nos
ensinem a duvidar dos modelos e utopias, a recusar as profecias da salvação,
os arautos de catástrofes". Raymond
Aron. Por que comentar um livro
escrito em 1954, de caráter aparentemente conjuntural? Por que resenhar um
livro esgotado e para o qual não deverá aparecer editor interessado na sua
publicação? Por que discutir um texto que coloca como tema o Império
Soviético, já morto e enterrado? Por que se debruçar sobre uma problemática
que já deveria ter sido esquecida nas dobras do tempo? Afinal, por que
discutir o conceito de ideologia? Digo-lhe, caro leitor: porque o livro fala
de nós, do nosso momento., da nossa necessidade mais
premente. É uma luz para aqueles que se encontram encurralados, prisioneiros
de alma diante das mentiras sistemáticas dos escribas e fariseus. Falo do livro "O Ópio dos Intelectuais"
(Editora UNB, 1980, primeira edição francesa de 1955), que é uma das obras
seminais do século XX. Roberto Campos, que prefaciou a edição brasileira,
sublinhava que vinte e cinco anos depois de sua publicação original a obra
ainda mantinha a sua atualidade, a mesma que percebo nesse instante. Campos também assinala que a obra foi um ato de coragem,
pois "o marxismo era então a grande religião dos intelectuais". Poderíamos dizer diferente hoje em nosso país? Certamente
que não, em face do pleno domínio que os intelectuais marxistas têm na
universidade, na mídia, na burocracia estatal, na classe política e – é de
pasmar! – no próprio meio empresarial. Conservadores e liberais aqui são como
restos que se ocultam nas frestas e apenas graças à Internet os seus poucos
remanescentes conseguem agora se comunicar. O próximo pleito para a
Presidência da República não passa de um duelo entre as facções marxistas, o
que mostra o grau de domínio que essa ideologia conseguiu no Brasil, devendo
ganhar a eleição a sua expressão mais radical e revolucionária. O livro é um contundente
libelo de um combatente pela liberdade. Este é um texto inicial de um série de comentários que farei sobre o livro, talvez
mais dois ou três artigos. Ficaria muito longo um único comentário que
procurasse fazer uma adequada apresentação e eu quero fazer justiça à
importância de que se reveste essa obra-prima do escritor francês. O livro é dividido e três
partes, precedido de longa e substantiva Introdução, a saber: a primeira
trata dos mitos políticos, a segunda da idolatria da história e a terceira da
alienação dos intelectuais. Não é fácil de ser lido para aqueles que não
tenham um conhecimento mais aprofundado do marxismo e das obras dos seus
ícones dos anos cinqüenta, como Sartre, Marcuse, Merleau-Ponty, Koestler e
outras estrelas que dominavam o meio intelectual mundial, na mídia e nas
universidades. Só eles eram lidos. A razão liberal foi deixada de lado. O
próprio Aron, como Fridman nos EUA e seus pares mundo a fora, eram vistos como excêntricos que
davam as costas á "verdadeira ciência". Mesmo Aron deixou-se trair – Ó
ironia! – ao confessar, no prefácio que escreveu ao livro em 1954, que era
"pessoalmente, keynesiano com saudade do
liberalismo...". Mais para o final da vida certamente não teria escrito
com candidez essa frase, ele, o grande denunciador das ideologias
esquerdistas. Foi uma vítima delas também, mas quem escapou desse destino? A
mentira ideológica emerge em todos os lugares e é pegajosa como a graxa usada
pelos mecânicos. [É por isso que nutro uma
admiração muito especial por Milton Friedman e
demais economistas liberais desse período, que resistiram bravamente ao
assalto dos falsos economistas que, por traz de equações e sofisticados
tratados, outra coisa não fizeram que não a exaltação do Leviatã
e do coletivismo. Vida longa a Friedman, que acaba
de completar noventa anos. Entre nós, exalto a figura quase quixotesca de
nosso ilustre Embaixador Meira Penna, que nunca se
dobrou aos modismos dos tempos.] Para Aron, o marxismo
tornou-se a ideologia por excelência, pois "as sociedades ocidentais não têm o equivalente ao marxismo-leninismo,
seja como base para o regime, seja como fundamento de uma síntese, ou
pseudo-síntese, intelectual". O autor entendia por ideologia "uma concepção mais ou menos sistemática da
realidade política e histórica de mistura de fatos e valores". Aqui temos ainda um outro
efeito da perspectiva histórica, que teria ajudado Aron a ver que o
marxismo-leninismo e suas derivações, bem como os socialistas em geral, nos
final do século XX, fortaleceram-se como nunca em praticamente todo o
Ocidente. Não tinha equivalente porque era a mesmíssima ideologia que aqui
era dominante. O regime soviético caiu de podre, mas os crentes na ideologia
prosperaram em todos os países. O Brasil é a prova mais sólida dessa
excrescência histórica que se mantém firme, apesar de tudo,
apesar de ter sido desmascarada, apesar de se demonstrar economicamente
inviável, apesar de atentar contra as liberdades democráticas e a
própria existência do indivíduo enquanto tal, a instância moral da
humanidade. Escrevendo diante dos acontecimento de 1968, quando fez o texto introdutório
(afinal, aquelas arruaças não passaram disso: arruaças planejadas pelos
comunistas, em luta conta os EUA e sua campanha no Vietnã), Aron afirmou: "Não existem, propriamente, novos sistemas ideológicos: o trotskismo e
o freudismo-marxismo de Frankfurt remontam, o primeiro, ao princípio da
década de 1930, à formação de uma seita marxista-leninista no exílio, que
acusa a Igreja estabelecida de infidelidade; o segundo, à
década de 1920, à conjunção de Hegel, Marx e Freud, à unidade fictícia
das duas revoluções – sexual e político-social. Os revolucionários que
promoveram revoluções verdadeiras – Cromwell, Robespierre,
Lênin – tinham idéias morais bem diferentes: puros, ou puritanos, não
incluíam a liberação dos instintos em seu conceito de liberdade. Mao ao que parece, também prega o domínio dos instintos,
não sua lbieração. Pode ser que o
freudismo-marxismo, adaptado à índole cubana, tenha encontrado no Caribe a
sua pátria de eleição". Mal sabia ele o quanto Cuba
iria durar sob a tirania comunista. O estilo de Aron é assim, direto, irônico,
implacável. Lê-lo é um deleito. No próximo artigo pretendo escrever sobre o
conteúdo da primeira parte, que trata dos mitos políticos. O ÓPIO DOS
INTELECTUAIS (II) 16/09/2002 "Longe do marxismo ser
a ciência da infelicidade operária e o comunismo a filosofia imanente do
proletariado, o marxismo é uma filosofia de intelectuais que seduziu frações
do proletariado e o comunismo faz uso dessa pseudociência para atingir seu
fim próprio, a tomada do poder". Raymond
Aron Continuando a resenha do livro
"O Ópio dos Intelectuais",
de Aron, não pode nos escapar o trocadilho que ele fez no título com a famosa
frase de Marx, de que "a religião é o ópio do povo". Aron não o fez
por acaso: para ele o marxismo assumiu uma forma de religião secular,
abraçada pela "intelectuária" do
mundo. Aqui pretendo fazer um
comentário sobre a primeira parte do livro, que trata dos três mitos
políticos, a saber: o da esquerda, o da revolução e o do proletariado. Aron começa fazendo a
distinção dos conceitos políticos "direita"
e "esquerda", sem o que não é possível distinguir a questão
ideológica. É uma tarefa relevante e difícil mesmo hoje, é de se imaginar o
quanto foi em meados dos anos cinqüenta. São denominações genéricas que não
comportam unidade, mas são úteis para discernir o espectro político. Se a
esquerda é uma "saco de gatos", a direita deve
ser desdobrada em pelo menos dois grandes blocos, os conservadores e os
liberais. E estes, mais das vezes, especialmente no contexto europeu e
norte-americano, são também confundidos com elementos de esquerda. A direita sempre se apresenta
como partidária da tradição e da ordem, enquanto que "a esquerda
apresenta-se como anti-capitalista e combina, numa
síntese difusa, a propriedade pública dos instrumentos de produção, a
hostilidade contra a concentração de poder econômico batizados de trustes e a
desconfiança para com os mecanismos de mercado". Aron foi um dos
pioneiros em mostrar que o nazismo se alinhava à esquerda, e não à direita,
como fazia crer a propaganda comunista depois da invasão da União Soviética
por Hitler. O que Aron
sublinha é que as tiranias que desacreditam no mercado, na livre empresa, nas
liberdades individuais, colocando em seu lugar o dirigismo estatal e o regime
de partido único – o comunismo assim como o nazismo – são o que se
pode chamar de esquerda, a forma antagônica de organização da sociedade
capitalista como a conhecemos. O autor é extremamente
contundente ao demonstrar que a estatização (como diríamos hoje) dos meios de
produção nem estabelece a igualdade política e nem de rendimentos. "A
hierarquia técnico-burocrática, na qual os trabalhadores são integrados, não
fica modificada por uma mudança do estatuto de propriedade", afirma, com
razão. A hierarquia é mantida, porque essa é a condição humana. Da mesma
forma, a distribuição de renda: "O limite da igualização
das rendas é traçado pela gravidade da matéria social, o egoísmo humano, mas
também por exigências coletivas e morais não menos legítimas do que o
protesto contra a desigualdade". Aron tem profunda consciência, qual um
liberal clássico, dos limites impostos pela chamada natureza humana, que não
pode ser abolida e nem modificada pelos engenheiros sociais. [À
certa altura, Aron se pergunta, olhando a França, "mas onde estão os capitalistas a fustigar"?
A pergunta é muito pertinente para o Brasil de hoje, em vista do inusitado
fato político que se registra de maciça adesão de muitos membros da direita
tradicional aos representantes do marxismo. Até usineiros de cana-de-açúcar
de Pernambuco, conservadores tradicionais, andam declarando votos em Lula
para a presidência da República.] Passando a analisar o mito da
revolução, Aron afirma que "não se
pode considerar inseparáveis a violência e os valores da esquerda: o inverso
estaria mais próximo da verdade". Tomando esse
mote, talvez caiba aqui uma conclusão, a de que a ação política da esquerda
no poder, ainda que a ele chegue de forma pacífica, sempre descambará para a
violência revolucionária, seja porque essa ação contraria fatos básicos da
condição humana (propriedade privada e liberdade), seja porque seus métodos
de progresso baseados no planejamento central impõem a lógica do trabalho
compulsório. Só é possível conseguir uma ordem assim pela força. Aron, enquanto agudo e irônico
observador da História, afirma: "Os
regimes vitimados por levantes populares ou golpes de Estado não demonstram
pela sua queda vícios morais – são muitas vezes mais humanos do que os
vencedores – e sim erros políticos... A revolução do tipo marxista não
aconteceu porque seu próprio conceito era mítico: nem o desenvolvimento das
forças produtivas nem o amadurecimento da classe operária prepararam a
derrubada do capitalismo pelos trabalhadores conscientes de sua missão. As
revoluções que invocam o proletariado, como todas as revoluções do passado,
assinalam a substituição violenta de uma elite por outra. Não apresentam
caráter algum que permita saudá-las como o fim da pré-história". Não escapa a Aron a conexão
entre o conceito de revolução e o de revolta, o primeiro tirando partido do
prestígio do segundo. Revoltados são aqueles que dizem não à modernidade,
sejam ateus (Nietzsche), sejam homens de fé (Bernanos).
Eles "têm horror à baixeza, à
vulgaridade espalhadas pelas práticas eleitorais e parlamentares...
Revoltados e niilistas censuram o mundo moderno: uns por ser o que quer ser, outros por não ser fiel a si mesmo." Por fim, Aron fecha essa parte
do livro analisando o mito do proletariado, que juntamente com o de esquerda
e de revolução, dão o eixo explicativo do que move a alma dos intelectuais:
são a sua crença e o seu engano. O autor aqui é mais cáustico do que nunca,
mostrando as falácias dos que advogam o elemento operário como o libertador
da humanidade. "O
proletariado, no sentido preciso da massa operária criada pela grande
indústria, não recebeu de ninguém – a não ser de um intelectual, originário
da Alemanha e refugiado na Grã-Bretanha no meio do século passado (XIX) – a
missão de ‘converter a história’, mas no século XX representa menos a classe
imensa das vítimas do que a coorte dos trabalhadores que os managers organizam e que os demagogos cercam". Ler essas páginas é colocar a nu diante dos olhos o besteirol
que anima a classe política esquerdista. Basta olhar os programas eleitorais,
naturalmente obrigatórios, para que nos deparemos com cada uma das falácias a
sustentar suas falsas promessas. O resumo delas é que todas as misérias
humanas podem ser resolvidas por e através do Estado. A História ensina que é
exatamente o contrário: onde a livre empresa deixou de existir e o mercado
foi substituído pelo planejamento central, o que se conseguiu, além do
sacrifício da liberdade, foi a miséria econômica e o
horror político. O ÓPIO DOS
INTELECTUAIS (III) 18/09/2002 "Quem pretende formular um veredito definitivo é um charlatão. Ou a História é um
tribunal supremo e só pronunciará a sentença sem recurso no último dia. Ou a
consciência (ou Deus) julga a História, e o futuro não tem mais autoridade do
que o presente". Raymond
Aron A segunda parte do livro o
"Ópio dos Intelectuais" trata do tema da idolatria da História. A
primeira coisa que Aron nota é que os partidos revolucionários se comportam
como se fossem uma igreja e os seus membro tornam-se
uma congregação de fé. Os congressos desses partidos são apropriadamente
chamados por ele de "congressos-concílios". O marxismo é uma forma
laicizada de religião e tal como o Papa, arroga-se o princípio da
infalibilidade. A esse caráter religioso (na
verdade, corrompido), Aron atribui a natureza dos processo
contra os dissidentes políticos onde os comunistas chegaram a poder. "Comparáveis à Inquisição, revelam a
ortodoxia, ao salientar as heresias", afirma. É comovente a
descrição que ele faz dos expurgos dos Partidos Comunistas, das farsas que
eram os processos e os julgamentos. Não sem alguma piedade, Aron afirma que
"nessa religião sem alma, os
oponentes tornam-se efetivamente piores do que criminosos". Em uma sucessão de curtos e
densos capítulos, Aron discorre sobre o pretenso sentido que teria a
História, sua pluralidade de significações, as supostas unidades históricas,
o suposto Fim da História e a História tratada com fanatismo. É deprimente
ver como as pessoas, tomadas pela ilusão ideológica, se deixam levar pelas
teses mais mirabolantes. Na seqüência, o autor demole a
ilusão de uma suposta necessidade histórica, seu determinismo, suas previsões
e ridiculariza a sua suposta dialética. Nas suas palavras: "A pretensa dialética da história social
resulta de uma metamorfose da realidade em idéia. Endurece-se cada regime,
atribui-se a ele um princípio único, opõe-se o princípio do capitalismo ao do
feudalismo ou do socialismo. Afinal, fala-se como se os regimes fossem
contraditórios e como se a passagem de um para o outro fosse comparável à passagem
de uma tese a uma antítese. Comete-se um duplo erro. Os regimes são
diferentes e não contraditórios e as chamadas formas intermediárias são mais
freqüentes e duráveis do que as formas puras". Aron é implacável nas
suas conclusões. É interessante como o autor
nota que os cristãos são muito sensíveis à mensagem marxista. Mal sabia ele à
época que uma suposta teologia da libertação seria fundada, na qual a
mensagem de Cristo foi substituída sumariamente pela mensagem revolucionária.
A Igreja Católica no Brasil está hoje majoritariamente contaminada por esse
câncer intelectual. Uma ligeira conversa com algum sacerdote engajado na
"causa" revela que não são mais cristãos, usam o nome da religião
em vão. O marxismo, em sua essência, é radicalmente contra os valores
cristãos, contra a ética cristã, contra a sua mensagem. O Cristianismo exalta
o triunfo, a dignidade e a responsabilidade do ser individual. O marxismo é o
contrário: exalta o coletivo, torna os valores morais relativos e propõe a
salvação coletiva pela economia nesse Mundo, em substituição à salvação
individual, no Além. Um cristão, por definição, não pode ser marxista, sendo
a recíproca verdadeira. Nas páginas finais desse
trecho do livro, Aron lembra: "History is again on move: esta fórmula de Toynbee, dificilmente traduzível, atende a um sentimento
forte e estranho que cada um de nós experimentou em dado momento de sua vida.
Eu o experimentei na primavera de 1930, quando, ao visitar a Alemanha,
assisti aos primeiros êxitos do nacional-socialismo. Tudo estava novamente em
questão: a estrutura dos Estados e o equilíbrio das forças no mundo: a
imprevisibilidade do futuro pareceu-me tão evidente quanto a
possibilidade de manter o status quo". Ler
essa citação me remeteu diretamente à minhas angústias mais íntimas. É o
mesmo sentimento de que estou tomado ao ver os acontecimento políticos que de
desenrolam no Brasil na atualidade. A Internet está, nesse instante,
anunciando uma aceleração na depreciação do real frente ao dólar. A possível eleição de um militante revolucionários para a
Presidência da Repúblia me faz tomado de
sentimentos de apreensão, que o mercado financeiro só confirma. Os augúrios
são os piores possíveis. São os mesmos, homens da mesma
raça, em 1917 em Moscou, em 1933 em Berlim e em 2002 em Brasília. Homens com
uma caricatura de consciência histórica são capazes de qualquer coisa para
chegar ao poder e para exercê-lo de forma implacável e tirânica. Será as a
destruição aqui será na mesma ordem de grandeza registrada no passado? Quem viver,
verá. O ÓPIO DOS
INTELECTUAIS (IV) 21/09/2002 "O comunismo é uma versão aviltada da
mensagem cristã. Dela retém a ambição de conquistar a natureza, de melhorar a
sorte dos humildes, mas sacrifica o que foi e continua sendo a alma da
aventura definitiva: a liberdade de pesquisa, a liberdade de controvérsia, a
liberdade de crítica e de voto do cidadão. Submete o desenvolvimento da
economia a um planejamento rigoroso e a edificação socialista a uma ortodoxia
de Estado". Raymond
Aron A terceira e última parte do
livro "O Ópio dos Intelectuais",
de Raymond Aron, traz uma exaustiva demonstração da alienação dos
intelectuais, com farta demonstração por diversos países. Mas o mais notável
é a ênfase que o autor dá ao caráter religioso que assumiu as diversas seitas
marxistas – socialistas e comunistas – que se tornaram uma forma de religião
secular. Aron desmistifica a idéia de
que os intelecutais sejam essencialmente
revolucionários. Eles o foram em momentos específicos. Lembra Aron que "os letrados chineses defenderam e ilustraram a doutrina, mais moral do que religiosa, que
lhes dava o primeiro, que lhes dava o primeiro lugar e consagrava a
hierarquia. O reis ou os príncipes, os heróis coroados ou mercadores
enriquecidos sempre encontraram poetas (que não eram necessariamente ruins)
para cantar a sua glória. Nem em Atenas, nem em Paris, nem no século V antes
da nossa era, nem no décimo nono século após Jesus Cristo, o escritor ou o
filósofo inclinaram-se espontaneamente para o partido do povo, da liberdade e
do progresso. O admiradores de Esparta que se encontravam no interior dos
muros de Atenas eram numerosos, como também aqueles do Terceiro Reich nos
salões ou nos cafés da Rive Gouche
de Paris". E, com grande agudeza
psicológica, Aron intui o porquê dos intelectuais contemporâneos tenderem
para o ativismo e a ação revolucionária: "A conjunção de peritos
(profissões técnicas – NC) decepcionados e letrados irritados põe as próprias
sociedades industriais do Ocidente em perigo. Uns que procuram eficácia e outros
que perseguem uma idéia unem-se contra um regime culpado por não inspirar nem
o orgulho do poder coletivo, nem a satisfação íntima de participar de uma
grande obra". O que Aron não sabia à época é
que foi colocada em marcha a mais formidável indústria de mentiras por parte
dos revolucionários, dispostos a qualquer coisa para fazer triunfar as suas
idéias impraticáveis, muitas vezes em sacrifício dos próprios
revolucionários. Nos expurgos, eles mesmo que arderiam nas fogueiras. A
cegueira ideológica chegou a tal estágio que o sentido de realidade
desapareceria. Aqui não é possível deixar de lembrar a maléfica obra de
Antonio Gramsci e a engenharia de comunicação política traçada desde os
tempos de Lênin, com o propósito exclusive de produzir a mentira política. A
ordem era confundir, subverter a moral cristã, solapar os valores mais
essenciais da tradição ocidental. É na alma desses homens que
talvez resida a resposta para essa atitude tão
insensata e destrutiva. Não creio que o mero impulso em direção ao poder
possa explicar o fato, embora reconheça que o mesmo possa estar na origem de
sua força dinâmica. Tampouco creio que explique isso algum eventual
"pulsão de morte" de corte freudiano. Aron, ainda uma vez, foi
genial ao perceber o paralelo com o fenômeno religioso. É, para mim, a tomada
da alma desses homens pelo íncubo obsediante, em transe demoníaco, fazendo das massas um súcubo passivo e sugestionável. É na psicologia de Jung
que se terá as categorias necessárias para uma
correta análise dessa hipnose de massas. Forças transcendentais estão
na verdade em disputa pela alma coletiva e de cada um. É o duelo eterno das
forças do Bem e do Mal. A manifestação no mundo político é apenas um reflexo
menor desse duelo maior. E não há dúvida de que as idéias coletivistas
assumem o lado negativo, são a própria expressão do Anti-Cristo. "O cristão nunca poderá ser um autêntico comunista, do mesmo modo que
o comunista não pode crer em Deus ou no Cristo, porque a religião secular, animada
por um ateísmo fundamental, declara que o destino do homem cumpre-se todo
inteiro nesta terra. O cristão progressista esconde de si mesmo essa
incompatibilidade", nota Aron. Em e-mail recebido de José Stelle, que reside no EUA, ele me relatou que entrevistou
Aron em 1982, quando da sua vinda ao Brasil para o lançamento do livro, para
a revista "Visão". Respondendo à pergunta sobre a diferença entre
um liberal e um socialista, Aron declarou: "O liberal é humilde. Reconhece que o mundo e a vida são complicadas. A única coisa de que tem certeza é que a
incerteza requer a liberdade, para que a verdade seja descoberta por um
processo de concorrência e debate que não tem fim. O socialista, por sua vez,
acha que a vida e o mundo são facilmente compreensíveis; sabe de tudo e quer
impor a estreiteza de sua experiência – ou seja, sua ignorância e arrogância
– aos seus concidadãos". Resumiu tudo. Para concluir, quero aqui
indicar a resenha de Roger Kimball ("Raymond
Aron & the power of ideas"), publicada no site
www.newcriteriom.com , que pode ser de grande
utilidade aos pesquisadores e interessados na obra do autor. |
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