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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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O LIMIAR
CRISE MUNDIAL 19/03/2008 Deus abençoe a América! A crise econômica
que se desenha no grande país do Norte é daquelas que não terão solução nem
curta e nem fácil. É uma crise sistêmica, que poderá levar a uma dramática
crise no mercado mundial. Afinal, os EUA são os maiores compradores e vendedores
do mundo e é o seu maior PIB o elemento dinâmico que
permitiu a recente prosperidade nas chamadas economias emergentes. A tragédia maior é que se nota
a ausência de homens preparados para fazer o enfrentamento da crise. Não será
uma simples crise econômica, portanto, mas também uma crise da ciência
econômica e da ciência política. Tudo em que se acreditou em matéria de
teoria econômica será posto Por isso a crise é tão
profunda. Ela obrigará a repensar os fundamentos da construção do Estado
norte-americano. Seus governantes terão que elevar fortemente os impostos e,
ao mesmo tempo, reduzir benefícios sociais. O discurso eleitoral distributivista está caduco. As duas coisas juntas, mais impostos e menos benefícios, terão que ser
feitas, tal a gravidade da crise. Em um ano eleitoral como o que estamos é
difícil sequer a um candidato discutir o assunto. O campeonato de discursos
eleitorais que tenho visto é no sentido de ver quem promete mais facilidades
e benesses para o homem-massa
eleitor, essa noiva tão cortejada. Obviamente que, fechadas as urnas, o governante eleito terá que enfrentar a dura
realidade de ter que combater a parasitagem
oficial, ter que elevar a taxa de juros para estimular a poupança e repatriar
capitais que fugiram do artificialismo do seu mercado financeiro e animar o
investimento produtivo. Suas decisões farão quebrar os negócios inviáveis com
longuíssimos períodos de retorno e provocarão redução na taxa de salários para torna-la competitiva com os países emergentes.
Respeitar-se-á a máxima: “Homem,
comerás o pão com o suor do teu rosto”. E – muito importante – criarão os
meios para fazer retornar ao solo norte-americano as indústrias expulsas de
lá por excesso de regulação e de custo de mão-de-obra. Será tarefa para dez anos e no
meio do caminho haverá muito choro e ranger de dentes. Privilégios
centenários terão que ser abolidos. Gerações de vagabundos profissionais
pendurados no Tesouro terão que voltar a trabalhar. Indústrias artificiais
mantidas por barreiras alfandegárias estúpidas quebrarão. E a renda fácil de
uma economia baseada na emissão descontrolada de moeda desaparecerá por força
da crise. Trabalho duro e produtividade são as únicas receitas que eu conheço
para fazer voltar a prosperidade. Mas, por si sós,
não bastam, antes será necessário o saneamento de tudo que está errado. Entendo que esse é o melhor cenário.
Há um ainda pior, que é aquele em que os Estados militarmente hostis aos EUA,
como China e Rússia, detentores de gigantescos superávits em dólares
norte-americanos, poderão ficar tentados a jogar a pá de
cal no que resta de equilíbrio monetário e saírem a comprar
commodities e outras moedas usando seu enorme estoque de dólares. O dólar simplesmente
viraria pó em poucos meses e a economia mundial rejeitaria a moeda
norte-americana como a uma doença contagiosa. Um cenário desses certamente
provocaria taxas negativas de crescimento de produto e elevada taxa de
inflação. O pior dos mundos. Em artigo publicado na Folha
de São Paulo (“Jamais teremos um modelo
perfeito de risco”) de ontem o antigo presidente do FED, Alan Greenspan, escreveu: “O
problema essencial é que os nossos modelos tanto os de risco quanto os econométricos, por mais complexos que se tenham tornado,
ainda assim são simples demais para capturar a ampla gama de variáveis que
definem e propelem a realidade econômica mundial”. A cegueira tecnocrática
não poderia ser mais bem exposta. Obviamente que a crise tem uma dimensão
bancária, mas definitivamente não está aí a sua origem. A origem são os
pilares estruturais que geram os gigantescos déficits gêmeos, que não mais
poderão ser mantidos. O mundo não aceita mais pagar imposto inflacionário. No
artigo não há uma palavra sobre isso, revelando que a elite tecnocrática,
como de resto a empresarial, está atônita. O mundo como o
construíram está desabando e eles não sabem o que fazer. Terão que descobrir
o novo caminho da pior forma. Em outras palavras, a
realidade não é como Greenspan, no seu olhar
convencional, pensa. Ele escreveu: “As
bolhas nos preços dos ativos se acumulam e explodem hoje como o fazem desde o
começo do século 18, quando os mercados competitivos modernos começaram a
evoluir. É certo que tendemos a classificar essas respostas comportamentais
como não racionais. Mas as preocupações de quem realiza
previsões não deveriam se dirigir à racionalidade ou não das respostas
humanas, e sim apenas ao fato de que elas sejam passíveis de observação, e
sistemáticas. Esta, para mim, é a grande "variável explanatória"
ausente tanto nos modelos de administração de risco quanto dos macroeconométricos. A prática atual envolve introduzir o
conceito de "vigor animal", como diria John Maynard
Keynes, na forma de "fatores de adição". As idéias de Keynes
são as que menos podem ajudar, elas que levaram ao beco sem saída atual. As
causas da crise são estruturais e o mercado de capitais apenas reflete seus desequilíbrios.
Modelos de riscos são brincadeira de criança perto do que terá que fazer o
próximo presidente eleito em matéria de impostos, gastos sociais e
administração da moeda. O tal “vigor animal” só pode aturar se o ambiente
institucional – moeda, gastos públicos, regulamentação – fizer a sua parte. Economistas de várias escolas
pensam que podem eliminar ou minimizar os riscos existenciais humanos pela
simples manipulação de modelos. Vã tentativa! Não é possível congelar o
futuro ao nosso talante. Sequer fazer previsões sem uma grande taxa de incerteza. Erros elementares na administração
da moeda e do Estado não são tolerados pela realidade. Mesmo o gigante do
Norte não escapará da lei da escassez, como parecia acontecer em algum
momento. Estudar história é uma maneira de se preservar dos mesmos erros das
gerações que se foram. Não foi isso que se viu, todavia. A arrogância prometéica de novo tomou conta dos governantes. Os graves
conflitos bélicos da primeira metade do século XX foram precedidos de graves
crises monetárias. Espero que o padrão, pelo menos este, não seja mantido.
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