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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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HOBBES E O
CRISTIANISMO 13/12/2002 “O Senhor viu que a maldade do homem se multiplicava na terra: o dia
todo, seu coração não fazia outra coisa senão conceber o
mal, e o Senhor arrependeu-se de ter feito o homem sobre a terra.
Afligiu-se com isto e disse: "Apagarei da superfície do solo o homem que
criei, homem, animais grandes, animais pequenos e até os pássaros do céu ,
pois me arrependo de tê-los feito". (Gen
6,5-8) Os defensores do anarquismo
como forma de organização política parecem desconhecer
o essencial da natureza humana. Sem uma ordem, vale dizer, sem o Estado,
desapareceriam as condições para a convivência pacífica. É nesse sentido que
a obra de Hobbes (O Leviatã) pode ser considerada
um marco na história da ciência política, pois reconhece teoricamente a
necessidade de um poder soberano, acima dos indivíduos particulares, capaz de
impor a paz. O suposto do pensamento hobbesiano é que os homens são essencialmente maus,
hipótese que se sustenta na tradição cristã. Podemos ler, por exemplo, em Paulo:
“E como eles não julgaram bom guardar o conhecimento de Deus, Deus os
entregou à sua inteligência insensata: por isso fazem o que não deveriam
fazer. Estão cheios de toda sorte de injustiça, de perversidade, de cupidez,
de maldade, cheios de inveja, de homicídios, de brigas, de dolo, de
depravação, são difamadores, detratores, inimigos de Deus ,
provocadores, orgulhosos, fanfarrões, astutos para o mal, rebeldes contra os
seus pais, sem inteligência, sem lealdade, sem coração, sem compaixão. Embora
conheçam o veredicto de Deus, que declara dignos de morte os que cometem tais
ações, eles não se limitam a praticá-las, mas aprovam ainda os que as cometem”.
(Rom 1,28-32) A visão paulina, como, de
resto, toda a tradição judaico-cristã, se assenta na visão do mal intrínseco
à condição humana: “Como está escrito: Não há justo, nem mesmo um só. Não há homem sensato,
não há um que procure a Deus. Eles estão todos
transviados, juntamente pervertidos,não há um que faça o bem, não há sequer
um só. A sua garganta é um sepulcro aberto; com sua língua semeiam o engano;
há um veneno de cobra debaixo dos seus lábios a sua boca está cheia de
maldição e de azedume, os seus pés são rápidos para derramar o sangue, a
ruína e a desgraça estão nos seus caminhos,e o caminho da paz , eles não
conhecem. Nenhum temor de Deus diante dos seus olhos!” (Rom 3,10-18) Essa forma de pensar se opõe
radicalmente à tradição esquerdista, que desde Rousseau (ou, antes, desde Pelágio), passando por Marx, em todas as suas derivações,
parte do suposto de que o homem, em estado natural, é bom, sendo que o mesmo
é supostamente corrompido pela vida em sociedade. A verdade é justamente o
contrário: ao passar a viver em sociedade e, sobretudo, ao ser criado o
Estado, é que a maldade natural pode ser relativamente contida. Nisso Hobbes
acertou em cheio. A metáfora do Pecado Original é mais do que adequada para
definir essa condição humana. Paulo acrescenta: “Então, o que é bom se tornou causa de morte para mim? Não, decerto!
Mas é o pecado: servindo-se do que é bom, ele me causou a morte, a fim de que
fosse manifestado como pecado e apareces-se em toda a sua virulência de
pecado, por meio do mandamento. Certamente, sabemos que a lei é espiritual;
eu, porém, sou carnal, vendido como escravo ao pecado. Efetivamente, eu não
compreendo nada do que faço: o que eu quero, não o faço,
mas o que odeio, faço--o. Ora, se faço o que não quero, estou de acordo com a
lei e reconheço que ela é boa não sou eu, pois, quem age assim, mas o pecado
que habita em mim. Pois eu sei que em mim — quero dizer em minha carne — o
bem não habita: querer o bem está ao meu alcance, não, porém, praticá-lo,
visto que não faço o bem, que quero, e faço o mal, que não quero. Ora, se
faço o que não quero, não sou eu quem age, mas o pecado que habita em mim.
Eu, que quero fazer o bem, constato portanto esta lei: é o mal que está ao
meu alcance. Pois eu me comprazo na lei de Deus , enquanto homem interior,
mas em meus membros descubro outra lei que combate contra a lei que a minha
inteligência ratifica ela faz de mim o prisioneiro da lei do pecado que está
nos meus membros”. (Rom 7,13-23) Paulo
completa: “Com efeito, sob o domínio da carne, tende-se para o que é carnal, mas
sob o domínio do Espírito, tende-se para o que é espiritual: a carne tende
para a morte, mas o Espírito tende para a vida e a pa . Pois o pendor da
carne é revolta contra Deus: ela não se submete à lei de Deus , nem sequer o
pode. Sob o domínio da carne não se pode agradar a Deus . Ora, quanto a vós,
não estais sob o domínio da carne , mas do Espírito, visto que o Espírito de
Deus habita em vós”. (Rom 8,5-9) Então podemos dizer que as
doutrinas de esquerda não apenas contrariam a Tradição, mas a realidade ela
mesma. Daí ser a sua visão de mundo essencialmente destrutiva, levando a
questão política para a degeneração social e uma situação de tensão que
sempre culmina no conflito insuperável. A revolta contra Deus é a essência do
pensamento materialista e gnóstico. O paradoxal é que, embora
resida no Estado a condição para a manutenção da
ordem, e, portanto, de combate ao mal, é o Estado ele mesmo um dos
instrumentos mais letais e eficazes da prática do mal, quando a sua liderança
o leva a crescer além do razoável e a se colocar como um substituto de Deus.
Enquanto ente coletivo, o Estado pode receber a projeção da Sombra e virar o
depositário do que há de mais baixo e imoral na natureza humana. É por isso
que os Estados totalitários sempre praticam os crimes mais nefandos, pois que
estão tomados do que há de mais primitivo no homem. A partir dessas constatações é
que considero as doutrinas liberais clássicas a essência da sabedoria
política, pois os liberais partem dessa constatação da maldade intrínseca na
humanidade, mas sabem também que o Leviatã não leva
esse nome casualmente: pode ele próprio ser o maior dos devoradores de
homens. |
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