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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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OITENTA ANOS DEPOS (II) 27 de dezembro de 2008 De pouco
adianta na prática analisar o Estado que se agigantou ao limite. Bem sabemos
que análises brilhantes não livraram a humanidade dos tenebrosos anos Trinta,
menos ainda os avisos apavorados das vozes proféticas. Os alertas não foram
poucos, mas não havia ouvidos para ouvir. Foi como que um encontro com o
Destino: forças postas em movimento garantiam que o desfecho seria inevitável
e o curso dos acontecimentos não poderia ser mudado sem antes uma grande destruição. Ortega y
Gasset, em um dos seus brilhantes textos, mostrou que a combinação do
idealismo com a poderosa máquina estatal moderna levou à tentativa de
perfeição humana pelo Estado. Não por acaso ele partiu da obra de Cervantes,
DOM QUIXOTE DE LA MANCHA, o grande profeta dos tempos modernos. O primeiro
gesto dessa perfeição falsificada, que redundou na nefasta experiência do
século XX, foi a expulsão dos judeus da Espanha quatrocentista, gesto capital
que antecedeu Auschwitz. O primeiro Estado nacional moderno nem bem nasceu e
enveredou pela engenharia social. Era o quixotismo com toda força em ação, o
descolamento completo do real. Aquela primeira grande alucinação trouxe
enorme sofrimento e perdas para o Reino de Espanha, mas quem se importou? Não
haveria, desde então, mais lugar para aqueles que não se conformassem com os
ditames estatais de ocasião. Antes os judeus, agora os cristãos. Os homens de
poder não se contentariam mais em se dar conta dos fatos como eles são,
precisarão agora aperfeiçoar a
natureza. O poder crescente do Estado, junto com a alienação dos governantes,
formou a receita letal que veio crescendo desde então. O Estado
não é apenas o novo deus, é o único deus desses homens arrogantes e
desprovidos da Revelação. Mas o Estado é apenas a ferramenta pela qual
indivíduos particulares, usando das prerrogativas dadas pelo poder, puderam
dar dimensão ao seu ego inflado. Os reis não tão católicos de Espanha (não
estou reescrevendo a história, estou dizendo que eram apenas católicos
nominais, contrários à doutrina) provaram da maçã envenenada do poder
absoluto. O grande símbolo desse momento é aquele criado por Leonardo da
Vinci, contemporâneo de D. Fernando e D. Isabel, sua rainha: o homem
vitruviano, que desde então foi largamente difundido, a ponto de suplantar o símbolo
da cruz como representação religiosa. É Vênus, a Estrela da Manhã, o símbolo do Anticristo, desde então
cantado em prosa e versos. “Eu vi Satanás
cair do céu como um relâmpago!” (Lc 10,18) Veja, caro
leitor, que esse símbolo representará o novo humanismo renascentista,
marcando o resgate das antigas filosofias gregas sepultadas, o epicurismo e o
estoicismo, que ressurgiram com grande vigor àquela época. Hoje essas
tradições tornaram-se dominantes, dando origem ao Novo Mundo, à própria
modernidade. Não haveria Reforma religiosa sem o homem vitruviano. O homem
vitruviano pretende tornar literal a máxima sofística de que “o homem é a medida de todas as coisas”,
mais um resgate da antiguidade, de Protágoras. Foi descoberta a quadratura do
círculo. Sua representação está em toda parte onde a estrela de cinco pontas
estiver gravada. É a expressão da máxima arrogância humana, seu desprezo
profundo pelas coisas de Deus. Praticamente esse símbolo tremula em todas as
bandeiras das nações modernas, mais das vezes em substituição ao antigo
símbolo da cruz no Ocidente. Basta ver o escudo da nossa República, que
substituiu o escudo Imperial, mudança emblemática dos novos tempos. [Fui
encontrar em um texto despretensioso de Beckett[1] uma bela descrição do
símbolo, associado à morte e à desolação. Ei-la: “De seu leito ela vê se levantar Vênus. Mais uma vez. De seu leito com
tempo ela vê se levantar Vênus seguida
pelo sol. Sente raiva então do princípio de toda vida. Mais uma vez. À tarde
com céu claro ela desfruta da desforra de Vênus. Diante de outra janela.
Sentada rígida em sua velha cadeira de carvalho com travessas e sem braços. Ela
emerge dos derradeiros raios e cada vez mais brilhante declina e se abisma
por sua vez. Vênus”. Não sei se Beckett, neste texto tardio, tinha a
intenção de dar uma abordagem religiosa, mas o simbolismo é muito forte a
despeito de suas intenções. O personagem feminino é como a nossa civilização,
a morrer. Um trecho seguinte é ainda mais assustador: “De tanto – fiasco de tanto fiasco a loucura se imiscui. De tantos
escombros. Vistos não importa como não importa como ditos. Receio de
escuridão. Do branco. Do Vazio. Que ela desapareça. E o resto. De uma vez por
todas. E o sol. Derradeiros raios. E a lua. E Vênus. Só céu preto”. Não
escapa aqui ao observador o marcante simbolismo do Crescente, o Anticristo
estampado na sua inteireza. Esta última descrição, de tão plástica, lembra um
quadro de Van Gogh ou os versos de Walt
Whitman citados
por mim.] Oitenta
anos depois o triunfo do símbolo do pentagrama sobre o mundo é total. No poder
assim como nas artes e no cotidiano. Tempos de cantar o Anticristo. Tempos de
destruição. É o infernal Plutão rasgando o céu de Saturno. |
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