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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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O GOVERNO E A
INFLAÇÃO 21/05/2008 Em seu último programa de rádio
o presidente Lula declarou: "A
inflação é uma obrigação de todo brasileiro, que deve cuidar para que ela não
aconteça. Sabe, é do trabalhador que
compra, da dona de casa que compra, do empresário que produz, do atacadista
que vende, do varejista e do governo". Ontem Lula voltou ao tema, e podemos ler
sua posição sobre o assunto, no Estadão de hoje: “O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez ontem um
alerta para os riscos da volta da inflação no País, destacando que ela
representa 'a pior desgraça’ para os assalariados. Em discurso feito no
anúncio de obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), na favela de
Heliópolis, ele destacou: ’Não podemos deixar a inflação voltar’. E eximiu
seu governo de maior responsabilidade. 'E a culpa não é do governo, não. A
culpa é de quem compra e de quem vende, de quem governa e de quem não governa’.'’ Não
se surpreenda o leitor, mesmo que leigo em matéria de ciência econômica, que
perceberá a contradição abissal entre os fatos, a análise presidencial e o
que fará o governo sobre o assunto. Mesmo
um leigo sabe que essa afirmação de Lula contra a inflação não passa de peça
de retórica. A inflação é um fenômeno monetário e, enquanto tal, de
responsabilidade exclusiva do emissor de moeda, no caso o Governo Federal.
Não é o povo – o trabalhador que compra, a dona de casa que compra, o empresário que
produz, o atacadista que vende e o varejista – o responsável por ela, mas
o próprio presidente da República, em última análise. O povo que forma preços
os pratica no mercado e apenas sofre os efeitos do fenômeno, sobre o qual não
tem poder algum. A afirmação de Lula é uma
completa inversão da realidade, a reconstrução da mesma no mundo da fantasia.
Quem observa a cena da política brasileira sabe que uma bomba-relógio
inflacionária foi armada desde que Lula assumiu, basicamente em virtude de
dois fatos: os elevados e crescentes gastos do Estado (nas três esferas de
poder) e a generosa política salarial. O terceiro fator, que costuma acelerar
o processo inflacionário, o câmbio, por enquanto está neutralizado, mas
saberá Deus por quanto tempo. Mesmo com o câmbio neutralizado o que vemos é a
contínua expansão dos índices de preços. A alta generalizada de preços poderá
formar um cenário em que a inflação de 2008 poderá encostar
na casa dos dois dígitos, mesmo sem crise cambial. Seria uma
catástrofe, o país perderia a grande conquista das últimas décadas, que foi
debelar a inflação. Bem sabemos o que significa a
sua volta. Dificilmente esse governo, pela crença que tem, pelo discurso que
prega, pelos compromissos assumidos com seus acólitos e com o descompromisso
com a coisa pública reverterá as políticas que estão
determinando a volta da inflação, pelo menos não antes das eleições de 2010.
Quando os indicadores macroeconômicos sinalizarem o agravamento do déficit
público e os preços saírem do controle, com impactos sobre a opinião pública,
é de se esperar que Lula e seu partido venham fazer o que todos os
esquerdistas costumam fazer: culpar as vítimas pela causa dos males. A
tentação de utilizar as vias heterodoxas para segurar os índices será grande
e a primeira delas certamente será o controle governamental de preços. Esse filme já o vimos antes por aqui, está a acontecer
neste momento na Venezuela e na Argentina, com as nefastas conseqüências de
costume: desabastecimento, redução da produção, empobrecimento generalizado.
E mais inflação. O cuidado com a inflação é
obrigação do governo, ao contrário do que disse Lula, e não do povo. Para
isso existe um Banco Central, que tem o monopólio da emissão de moeda. Mas
este organismo, sozinho, é impotente para segurar os preços mesmo que faça a
coisa certa, aquilo que dele se espera, que é o controle da liquidez
sistêmica. A inflação também reflete a tentativa de abolição da lei da
escassez, o sonho impossível
de
todo esquerdismo. Um exemplo grave é a política salarial. Os economistas
costumam medir a relação taxa de câmbio/taxa de salário como determinante da
absorção da economia. Um desequilíbrio aqui provoca a crise cambial, que já
está a caminho. E outro efeito é que a taxa de salário determina diretamente
a formação dos preços. Não haverá como segurar a
inflação com a política de salário mínimo instituída. E não haverá como
segurar gastos públicos também, vez que o salário mínimo regula boa parte da
remuneração das aposentadorias e dos funcionários do Estado. Essa
generosidade é populista no limite e está cobrando seu preço com a elevação
dos preços. E a Petrobrás não terá como segurar a elevação dos preços
internacionais do petróleo. Portanto, as pressões inflacionárias chegam de
todos os lados. O povo não tem como se defender disso. É o governo que
precisa fazer a sua parte, segurando emissão de moeda. Está chegado a hora de demonstrar que o projeto esquerdista de poder é
irracional e insustentável no tempo, mesmo que haja uma conjuntura
internacional favorável como a que vivemos. É a hora de provar que Lula não é
um estadista e que com o poder não se pode ser leviano. Entendo que não há
mais tempo para bondades governamentais, é chegada a
hora da onça beber água. O índice geral de preços é o melhor termômetro para
medir essa doença degenerativa do organismo que é o esquerdismo. É chegada a hora mais silenciosa, aquela em que os populistas nada
terão a dizer que não sandices, como aquelas do Lula citadas acima. Suas
teorias, sua retórica e sua suposta boa intenção mostrarão sua verdadeira
face: incompetência, despreparo, irresponsabilidade e incapacidade de viver a
realidade como ela é. A lei da escassez afinal sempre haverá de se impor. Haverá choro e ranger de
dentes. |
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