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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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O FINAL DO FAUSTO, DE GOETHE 29/05/2011 “Compreender
o destino é ter alcançado o mais alto grau da sabedoria” Giordano Bruno A obra de Goethe, FAUSTO, deveria ser
concluída com o passamento do seu personagem, quando finalmente seu trato é
concluído ao recitar o máximo instante de felicidade proporcionada a si pelos
poderes de Mefistófeles: “Sim, ao
Momento então diria:/Oh! Pára enfim – és tão formoso!” Trato feito, trato
cumprido? Nada disso. Goethe floreia o seu final, que se alonga além do
necessário à primeira vista, para expor sua cosmologia. Antes convém lembrar a enigmática frase de
Fausto, à hora da morte: “À liberdade e
à vida só faz juz,/Quem tem que conquistá-las
diariamente.” Justo ele que, desde seu encontro com Mefistófeles,
abandonou qualquer trabalho e qualquer esforço pela existência. Perdera a
liberdade? Entrar no transe da morte é tornar-se escravo? Será a simples
existência precisamente o que nos torna livres, qualquer que seja a forma de
vida trilhada? Penso que sem olharmos qual o fundo filosófico do autor essa
frase, e mesmo o conjunto da obra, perde significado. Sua filosofia natural, derivada de três
ramos bem distintos, é a chave de tudo. A mais antiga influência filosófica sobre Goethe
é o neoplatonismo, sob as formas compreendidas no
Renascimento. Seu grande mestre foi Giordano Bruno. É daí que vai brotar o
final, o Eterno-Feminino que salvará e elevará a alma de Fausto. A emergência
de figuras femininas salvíficas é expressão acabada
dessa crença neoplatônica. Relembremos que tanto
Fausto como Gretchen cometem os mais hediondos crimes e pecados. Ela mata a
própria mãe, o filho, concorre para o fim trágico do irmão, tudo por amor a Fausto. Ele, da mesma forma, e
também como membro participante do culto a Dom Satã. Não há nenhum traço de
piedade e arrependimento em Fausto pelos fatos narrados no poema. Ao
contrário de Jó, o justo servo incorruptível de
Deus, Fausto é o mais corruptos dos homens e não hesita em negociar a própria
alma com Satanás. Jó sofre todo tipo de horror e de
sua boca nunca sairá uma apostasia. Fausto dá as costas a Deus e se entrega
de bom grado a Mefistófeles, o Demônio do Norte, a propósito uma forma de
demônio menor, subordinado a Satã. Gretchen ele mesma, já bem-aventurada, aparece
como mediatrix salvadora da alma de Fausto,
inusitada aparição! [É absolutamente relevante sublinhar o
elemento “Demônio do Norte”, pois aqui está sintetizado o germanismo cuja
essência é negar tudo que nasceu dos povos meridionais da Europa, sobretudo o
judaísmo e o cristianismo. É como se Roma jamais tivesse existido. As núpcias
de Fausto com Helena simbolizam esse élan. Eufórion,
o filho dessas núpcias, é a antecipação do próprio Hitler e suas idéias racistas
tresloucadas. Está tudo contido no poema, que assume assim uma faceta
profética. O fascinante é que Goethe percebe a loucura, o despropósito,
descreve o próprio suicídio do povo alemão e, no entanto, cala sobre a
imoralidade dessa idéia nefanda, que moldou o século XX.] É de Bruno, que influenciou Calderon de La Barca, a idéia da vida como uma representação
teatral, cujo texto está escrito nas estrelas, cabendo ao astrólogo (o
filósofo) decifrá-lo. Essa é uma idéia central, a ponto de, na cena inaugural,
Goethe introduzir o próprio diretor de teatro como personagem. Só depois é
que vem o Prólogo no Céu, em que o Deus Todo-Poderoso dará autorização para que
Fausto seja tentado por Mefistófeles, que diz os memoráveis versos a Deus: “De
forma estranha ele vos serve, Mestre! Não é, do louco, a nutrição terrestre. Fermento
o impele ao infinito, Semiconsciente é de
seu vão conceito; Do céu
exige o âmbito irrestrito Como da
terra o gozo mais perfeito, E o que
lhe é perto, bem como o infinito, Não lhe contenta o tumultuoso peito”. Uma perfeita descrição do homem moderno, ou
da modernidade. Ao que Deus responde, dando a pista para a concepção de
Goethe, de cunho teológico: “Se em
confusão me serve ainda agora, Daqui
em breve o levarei à luz. Quando
verdeja o arbusto, o cultor não ignora Que no futuro fruto e flor produz.” Fica dito portanto
que Fausto é o Favorecido de Deus e, faça o que fizer, está salvo, será levado à luz. Vemos aqui ecos do
nominalismo de Guilherme de Ockham, na sua forma
protestante assumida pelo puritanismo de João Calvino. Os Eleitos estão desde
a Eternidade. A vida pessoal e moral nada significa
e as obras dos homens são inúteis como instrumento de salvação. A graça de
Deus, só por ele conhecida, é que separará o trigo do joio, nos tempos finais.
Deus pode tudo e não há lei alguma que não a vontade de Deus. No livro OS ANOS DE
APREDIZADO DE WILHELM MEISTER temos uma personagem, uma teóloga puritana da seita dos Hernutos,
que nos dá a pista para essa visão protestante e puritana adotada por Goethe
sobre a escatologia. Em todo o poema podemos identificar a militância
iluminista anti-católica e anticlerical do autor,
reforçando sua inclinação para a heresia ockhamista
e calvinista. Por fim, a terceira visão filosófica é aquela
fortemente influenciada por Spinoza, pelo panteísmo que identifica Deus com a
matéria. Mas Goethe vai além, ao incorporar elementos do neoplatonismo
de Bruno. Para ele, natureza é
tudo, inclusive astrologia e as manifestações da alma. Tudo é natureza. O
próprio Mefistófeles é também natureza. O cântico final do Chorus
Mysticus resume seu modo de ver: “Tudo
que é efêmero é somente Preexistência; O Humano-Térreo-Insuficiente Aqui é
essência; O
Transcendente-Indefinível É fato
aqui; O
Feminil-Imperecível Nos ala a si.” A afirmação categórica da lei das analogias,
tão cara à filosofia hermética. “Tudo que
é efêmero é somente/Preexistência”. O que está em cima é como o que está
em baixo. O próprio homem é também Deus. Assim o entende a modernidade.
Microcosmo e Macrocosmo estão sobrepostos e fundidos. O Idealismo é a representação
perfeita dessa idéia. |
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