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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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O FIM DA SOCIAL-DEMOCRACIA? 01 de junho de
2010 Em 1974, em um
majestoso texto publicado na revista “The Review of Politics”
(Vol 36, nº 4), intitulado “Liberalism and its history”,
Eric Voegelin demonstrou que a doutrina liberal faz
parte do movimento revolucionário, desde a origem. É ela própria que inaugura
a modernidade em todos os campos, do direito à ciência política, passando
pela filosofia, economia e demais ciência sociais. Não ao acaso Voegelin foi buscar no termo gnose a expressão para designar esses movimentos revolucionários,
similares aos movimentos religiosos do início da Era Cristã. O essencial da
modernidade é a recusa da percepção do elemento transcendente como a condição
do real, colocando em seu lugar a pura vontade (razão) humana. O liberalismo,
no início, estava na linha de frente da revolução, contra a tradição
aristotélica na filosofia e contra os valores cristãos herdados nos costumes.
O esforço de gente como Maquiavel, Hobbes, Hume e
Locke era para desacreditar Aristóteles, pondo no seu lugar o historicismo fundado na filosofia grega do período
helenístico. É bem verdade que as mudanças no interior do cristianismo vinham
desde pelo menos o século XII e ganharam relevo com o surgimento do
nominalismo. De certa forma, o irracionalismo moderno deriva em linha direta
dessa visão deformada do cristianismo, que irá afetar
sobretudo o campo do direito e da ciência política. Será pela Escola
de Salamanca que sua doutrina formatará a
modernidade. O encontro do
humanismo renascentista com as idéias da decadência filosófica cristã
emergirá com toda força e será o pano de fundo das três grandes revoluções: a
Reforma religiosa, a Revolução Francesa e a Revolução russa. Voegelin mostrou que o elemento radical do
momento revolucionário inicial será seguido de um momento de “restauração”dentro
do próprio movimento revolucionário. O que passará a se chamar conservador
nada mais é do que esse elemento estabilizador, mas ele próprio é integrante
da revolução. [A ortodoxia greco-cristã
jamais foi restaurada]. Isso acontece porque não é possível que a dinâmica
revolucionária aguda tome todo o tempo histórico, pois o princípio de
realidade não pode ser inteiramente negado, sob pena de comprometer a sobrevivência
humana. O conceito de
revolução permanente, cunhado por Trotsky, não é outro que não essa dinâmica.
Afinal, a revolução se propõe objetivos inalcançáveis e seu sentido é o
movimento contínuo, rumo ao nada. O repouso jamais poderá ser alcançado. Mas
os momentos de febre precisam ser seguidos de momentos de relativa
estabilização, sob pena de a vida prática ficar inviável. O liberalismo
dito clássico, nos momentos subseqüentes
ao movimento revolucionário do século XVII, em paradoxo, passou a compor o
contrapeso aos delírios revolucionários jacobinos. Voegelin
fecha o texto com a seguinte afirmação: “In the light
of these considerations we can say that, on the one hand, liberalism
decidedly has a voice in the political situation of our time; on the other
hand, however, today the ideas of autonomous, immanent reason and the
autonomous subject of economics are scarcely alive and fruitful; thus, the
classical liberalism of the secularist and bourgeois-capitalist stamp may be pronounced
dead.” Voegelin
foi certeiro no seu diagnóstico. Passadas mais de três décadas dessa
constatação podemos dizer que a forma resultante de estabilização do
movimento revolucionários na segunda metade do século XX foi o que se chamou
de neoliberalismo, essa simbiose entre
os frutos da ciência econômica liberal com as crenças coletivistas no plano
político. O neoliberalismo virou a plataforma de todas as agremiações
políticas no poder, desde o fim da II Grande Guerra. É o que se chama de
social-liberalismo ou liberalismo-social. Numa única expressão,
social-democracia. Neoliberalismo
é apenas mais uma variação estabilizadora da social-democracia, esta mesma
que está a morrer pela crise atual. Vê-se que a variante neoliberal não pode
ser mais o elemento racionalizador e estabilizador do
exercício do poder real nesse estágio avançado. O modelo esgotou-se, fruto de
sua entropia intrínseca. O distributivismo proposto
pela social-democracia dependia da contínua expansão da carga tributária e da
emissão de moeda, que já bateram seu limite superior. A falência está
inteiramente explícita na inviabilidade dos modelos de previdência social e
no inchaço incomensurável do funcionalismo público. O mundo ocidental está em
um beco sem saída, inclusive nos EUA. O que virá no
lugar? Ninguém sabe. Uma guinada conservadora? Um novo espasmo revolucionário?
Seja o que vier não se fará com pouca violência. Os sintomas estão por toda
parte, as tensões brotam dia a dia. Os próximos anos serão sombrios. |
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