|
|
NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
|
|
|
|
|
|
|
O
ESTADO E AS MASSAS 04/07/2008 No capítulo
que fecha a primeira parte do livro A REBELIÃO DAS MASSAS, Ortega y Gasset alertava que o grande perigo é o Estado moderno,
pelas seguintes razões: 1- O Estado, na origem, foi criado pelas minorias
egrégias, que tinham completa clareza da razão de ser de seu poder. Essas
minorias o compreendiam como um instrumento que não poderia ser desconectado
dos propósitos últimos da existência humana, da descoberta das virtudes e do
saber filosófico. Platão, no mundo antigo, é o paradigma de teórico do Estado
que se impõe como força civilizadora e ordenadora das massas. A lei positiva
passa a ser vista como a expressão da lei natural. Agostinho tem essa mesma
função nos tempos cristãos, ao escrever o livro CIDADE DE DEUS. Agora, na
modernidade, o Estado foi teorizado por Rousseau e seus acólitos, os profetas
do homem-massa; 2- O Estado moderno torna-se uma máquina de formidável
eficiência. A fonte dessa eficiência é a mesma que deu eficiência às
técnicas: a investigação científica e filosófica, o saber superior que sempre
foi inacessível ao vulgo. A desconexão da origem e função do Estado de seu
fundamento filosófico – diria mesmo metafísico – faz com que as massas,
tornadas governantes, enxerguem apenas o lado “operacional” do mesmo, sem atentar para as limitações morais e
seus propósitos superiores; 3- O Estado assim compreendido torna-se um
instrumento de “ação direta”, de
pura violência das maiorias massificadas
contra as minorias seletas. Por isso que
o Estado, tomado pelo homem-massa, caminha para a inexorável burocratização e
para a asfixia de toda espontaneidade da existência. Pior, por não
compreender o que é o Estado, os representantes do homem-massa no comando não
hesitam em usá-lo para todos os propósitos, sendo aqueles ligados às funções
de polícia (polícia ela mesma, fiscais e funções
assemelhadas) requisitados sem a menor cerimônia e sem qualquer limite.
É o reino do Big Brother.
A sociedade assim moldada torna-se como uma prisão, que mata a criatividade e
sufoca as pessoas diferenciadas. Ortega adverte: “O estatismo é a forma superior que tomam a
violência e a ação direta constituídas em normas. Através e por meio do
Estado, máquina anônima, as massas atuam por si mesmas”. Essa praga
tomou conta do planeta. Os EUA, por exemplo, já têm mais de 2% de sua
população masculina adulta atrás das grades (o Estado da Flórida já tem 5%!),
em curva ascendente. A irracionalidade e a imoralidade desse fato só é compatível com o ímpeto legiferante e
policialesco do homem-massa no poder. No artigo anterior mencionei o episódio envolvendo o rei
de Espanha, Juan Carlos, e o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, no famoso Cala-te! Volto a ele por ser
emblemático. Depois de passado o episódio e tendo ficado evidente sua enorme
derrota moral, Chávez foi aos meios de comunicações
de massa para dizer a toda gente que
ele era mais legítimo que o rei porque fora eleito pelo voto popular.
Deixando-se de lado o patético da afirmação, fica claro no episódio que esses governantes, representantes típicos do homem-massa,
comunicam-se na descendente, falam com e
como os subalternos da espécie. Para eles, não há instância superior.
O voto torna-se assim a anulação da legitimidade, pois passa a ser a expressão das paixões mais perversas,
objeto da barganha mais primitiva, um troco que dá o homem-massa eleitor para
aqueles líderes que se propuserem a lhe acariciar o ego e a satisfazer seus
apetites mesquinhos. Um chefe de governo, nessa situação, torna-se o oposto de
um estadista: torna-se um mero chefe da multidão. Quero aqui
sublinhar que é um engano pensar que a elite em termos orteguianos
se confunde com a elite dirigente estatal. As tais minorias egrégias emergem
onde pulsa vida: na família, nas igrejas, no meio do trabalho, nas escolas e
também na classe dirigente estatal. Somente quando, no meio vital, essa
minoria se retrai é que o comando da coisa pública – o quem manda – passa para os subalternos. Aí a tragédia se anuncia,
pois a máquina mortífera do Estado passa a responder aos mais baixos anseios
da humanidade. Assim, torna-se uma questão de tempo que aventureiros como
Hitler, Mussolini e Fidel realizem seus propósitos destrutivos. A atualidade
desse livro não precisa ser sublinhada, pois vivemos
inquestionavelmente o império do homem-massa no presente momento. |
|