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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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12/06/2007 O escritor peruano Mario Vargas Llosa está no Brasil, a
convite de seu editor, para a divulgação da reedição de suas obras. Em
entrevista publicada na Folha de São Paulo de hoje ele declarou, referindo-se
ao recente fechamento da RCTV por Hugo Chávez: “Foi um episódio lamentável. Mas fiquei
feliz de perceber uma reação contrária tão intensa não só na América Latina
como na Europa, nos EUA. A preocupação com a democracia virou definitivamente
algo universal, e isso tem de ser festejado”. De há muito as posições assumidas em público por Llosa
deixaram de ser consoantes às do liberalismo clássico e passaram a se alinhar
com o significado do termo liberal nos EUA, ou seja, a adotar posições
francamente esquerdistas, de um libertarismo
confuso que é completamente tolerante com a dissolução dos valores
fundamentais que dão sustentáculo à civilização, à própria democracia como
valor universal. O erro de Llosa é
emblemático porque é o erro de todos os esquerdistas de salão que posam de
liberais, bem situados na vida, mas que perderam completamente o senso de
perigo para o que se passa no corredores da
política. Aquilo que Vargas Llosa vê como favorável é na
realidade o seu contrário. A reação mundial, episódica aqui e ali, de editoriais
condenando a extinção da emissora venezuelana, não passou de algo protocolar
e plenamente esperado. Não houve comoção alguma. O mundo assiste inerme a
marcha da Venezuela para o totalitarismo mais patético e destrutivo sem mover
uma palha em auxílio daquele sofrido país. Vejo aqui uma mistura de omissão,
ignorância, covardia e alheamento diante de um fenômeno que não se esgota em
si mesmo, posto que é a ponta de lança de um
movimento mais amplo e profundo e que se espalha, em diferentes velocidades, por
todos os países do Continente Sul-americano. O que Llosa não percebe é que a
democracia que se pratica por essas bandas, e não só na Venezuela, é de
mentirinha, é a democracia à moda de Hitler, que usou das liberdades
formais dadas pela sociedade democrática para se apossar do poder e não mais
sair senão pela força, deixando atrás de si um rastro horrendo de destruição.
E o escritor esqueceu-se de comentar as melancólicas declarações de Lula, o
grande avalista da falsa democracia bolivariana.
Dizer, como Lula o fez, que Hugo Chávez
tinha o direito de não renovar a
concessão é cínico e monstruoso. Dentro de uma verdadeira ordem democrática
um órgão importante de imprensa terá sempre a sua concessão automaticamente
renovada, pois que cumpre os requisitos da lei e não caberia ao governante do
dia arbitrar se outorga, ou não, nova autorização de funcionamento. O que vimos foi um ato totalitário com o pleno aval do
governo brasileiro. Não fazer a ponte entre os fatos é fechar os olhos ao que
de mais importante e dramático está acontecendo na região. Não é apenas na
Venezuela que a democracia é postiça, menos que formal, uma forma degradada
de democratismo gremial. No Brasil, por exemplo,
completou-se a extinção das idéias conservadoras e liberais pelo completo
domínio da mídia, das universidades, dos materiais didáticos e mesmo dos
partidos políticos pelos militantes da esquerda política. Vivemos um regime
de partido único cujas facções estão quebradas em diferentes siglas, mas que
professam a mesma crença e a mesma plataforma política. A direita política
está completamente destruída no Brasil. O mais nefasto é que essa gente está agindo de forma
orquestrada em todos os países, no âmbito do Foro de São Paulo, mecanismo
pelo qual um a um todos os países da região estão caindo sob o jugo desse
grupo político. O que acontece na Bolívia, Argentina,
Equador e Uruguai não é muito diferente do que vemos na Venezuela e no
Brasil. Vargas Llosa, ao exaltar as reações episódicas e
protocolares ao fechamento da RCTV fez um grande desserviço, um trabalho de
desinformação da opinião pública. O que vimos na verdade foi um alheamento
dos atores relevantes no cenário internacional e do ator mais decisivo, o
governo do Brasil, vimos precisamente o contrário, um apoio explícito ao ato
totalitário. Tanto que a RCTV continuará fechada, tendo morrido na data
prevista para não mais voltar a operar. A ditadura venezuelana será o destino
de todos os países da região se fatos novos não vierem a ocorrer, se a
intelligentsia, da qual Llosa é um medalhão, não resolver combater o bom
combate, o combate ao totalitarismo que está em marcha. |
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