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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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ENIGMA IRANIANO 22 de junho de 2009 “Tão somente não
vos rebeleis contra Iahweh”. Num 14,9 Tradução da Bíblia de Jerusalém Há um sagrado direito à
rebelião contra a tirania, quando o poder constituído deixa de representar a
verdade da alma de uma nação. Essa é a ciência política mais pura e o saber
superior que vem desde a época de Platão. Será isso que está a ocorrer no Irã?
Temo que não. O que estamos a ver naquele país é a velha disputa de facções
que querem manter a mesma ordem estabelecida. Nada separa Mousavi
de Ahmadinejad, exceto estarem à frente de facções
que se digladiam pelo poder. Não querem mudar a ordem teocrática ali
constituída, em que o aiatolá Ali Khamenei exerce, na prática, o papel de um
imperador. É dele o poder supremo, inclusive aquele de legitimar o governante
eleito. É bem verdade que a
Constituição iraniana prevê eleições periódicas, em concessão ao modelo de
instituições ocidentais. Isso, todavia, é mera caricatura, não é para valer.
Os nomes permitidos ao escrutínio são cuidadosamente escolhidos e as
apurações são feitas sempre sob as sombras, ao arrepio de qualquer observador
isento. Na verdade, é o clero quem escolhe e sanciona o ganhador. É ele a fonte real de poder, não o voto popular. A surpresa foi que o candidato
rejeitado desta vez não se conformou com o resultado e agora insufla a
multidão, transformando Teerã em campo de batalhas das facções mobilizadas.
Depois do pronunciamento final de Khamenei,
legitimando o ganhador Ahmadinejad, não há mais
espaço algum para modificação do resultado no plano do poder político
estabelecido. Somente uma sangrenta rebelião poderia, e ainda assim de forma
incerta, reverter o resultado. Em uma ordem teocrática o líder religioso não
pode ter sua decisão contestada. A insistência de Mousavi
de manter a mobilização de seus acólitos é uma afronta não meramente ao
resultado eleitoral, mas ao próprio sistema de poder estabelecido. Vejo com muita preocupação o
desenrolar dos acontecimentos. As instituições iranianas não estão preparadas
para administrar de forma pacífica um conflito dessa natureza. Mais me preocupa
que ambos os lados não tomam decisões definitivas e a anarquia parece sair do
controle. Energias poderosas estão sendo liberadas e uma explosão poderá
causar um morticínio de largas proporções. Ou Mousavi
tem poder político-militar para confrontar o sistema e levará sua demanda até
o fim, desencadeando uma terrível guerra civil, ou não tem e está provocando,
de maneira leviana, a ordem estabelecida. Por outro lado, percebo em Khamenei uma hesitação que eu não suspeitava ele ter, o
que pode indicar fraturas na estrutura do poder teocrático. Khamenei será obrigado, a qualquer momento, a esmagar a
sublevação da ordem e não terá outra escolha que não sacrificar os líderes do
levante, inclusive Mousavi. Penso ser inútil aplicar os
paradigmas ocidentais, onde vigoram sociedades abertas e acostumadas à
alternância pacífica de poder pela via eleitoral, ao Irã dos aiatolás. Pura
tolice. O Irã é uma sociedade de psicologia tribal, onde o Corão é a fonte e
o sustentáculo da ordem civil. A rebelião de Mousavi
não é uma tentativa de mudar o sistema, logo não poderá ter a representação
espiritual do povo iraniano, que já está depositada em Khamenei. O presidente
que se elege é um mero gerente ou delegado dos teocratas. A rebelião liderada
pelo candidato derrotado não tem futuro, mas pode trazer conseqüências
nefastas para o mundo todo, e não apenas para o Irã. Uma guerra civil nós bem
sabemos como começa, mas nunca como ela acaba. Riscar o fósforo naquele
barril de pólvora poderá liberar energias destrutivas de largas proporções,
envolvendo os países vizinhos e mesmo as superpotências. Um grande perigo. É difícil fazer qualquer
prognóstico no momento. Eu apenas torço para que a rebelião termine e que o
poder constituído deixe de ser contestado. Melhor uma ordem injusta e
tirânica do que a anarquia. Quem viver verá. |
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