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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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O ENIGMA DA NATUREZA HUMANA 12 de
fevereiro de 2010 Parece não haver
maiores dificuldades para se perceber a realidade imediata normalmente
tratada pelas chamadas ciências exatas, ou físico-matemáticas. O mesmo pode-se
dizer das ciências biológicas. Quanto se trata das ciências do homem,
todavia, especialmente no que se refere à definição do próprio homem, a
antropologia, a coisa se complica, pois as alternativas de interpretação
podem conter divergências profundas, antagônicas. Lendo o texto de Ortega y Gasset,
HISTORIA COMO SISTEMA, pode-se ter um relance desse duelo teórico. Vejamos
como ele colocou o problema: “La naturaleza es una cosa, una gran
cosa, que se compone de muchas
cosas menores. Ahora bien:
cualesquiera que sean las diferencias entre las
cosas, tienen todas ellas
un carácter radical común, el cual
consiste simplemente en
que las cosas
son, tienen, un ser. Y esto significa no sólo que existen, que las hay, que están ahí, sino que poseen una estructura o consistencia fija y dada. Cuando hay una piedra hay ya,
está ahí, lo que la piedra, es.
Todos sus cambios y mudanzas serán, por, los siglos, de los siglos, combinaciones
regladas de su consistencia fundamental. La piedra
no será nunca nada nuevo y distinto. Esta consistencia fija y dada de una
vez para siempre es lo que solemos entender cuando hablamos del ser de una cosa. Otro nombre para expresar lo mismo
es la palabra
naturaleza. Y la faena de la ciencia
natural consiste en descubrir
bajo las nubladas apariencias esa naturaleza o textura permanente”. E homem? E a natureza humana? O que nos diz o espanhol sobre
isso? Ensina Ortega: “Las primeras generaciones
racionalistas creyeron poder aclarar con su ciencia
física el destino humano.
Descartes mismo escribió ya un Tratado del hombre.
Pero hoy sabemos que todos los
portentos, en principio inagotables, de las ciencias naturales se detendrán siempre ante la extraña realidad
que es la vida humana.
¿Por qué? Si todas las
cosas. han rendido grandes porciones
de su secreto á la razón física, ¿por qué se
resiste esta sola tan denodadamente? La causa tiene que ser profunda y radical; tal vez, nada menos que
esto: que el hombre no es una cosa, que es falso hablar de la naturaleza humana, que el hombre no tiene naturaleza. E completa, recusando a proposição do historicismo,
inaugurado por Hegel: “Me atrevo a decir esto sólo
como extrínseca señal de que la interpretación del hombre como realidad espiritual no pudo ser
más que violenta, arbitraria y fallida. Porque no es lícito en este contexto
seguir empleando la palabra «espíritu» en un vago sentido, sino que conviene referirla al ciclo de significaciones
precisas que ha tenido en
la, filosofía de los dos últimos siglos”. Qual então a
conclusão de Ortega: “Mal podía la razón físico-matemática, en su forma crasa de naturalismo o
en su forma beatífica de
espiritualismo, afrontar los problemas humanos. Por
su misma constitución, no podía hacer más que buscar la naturaleza del hombre. Y, claro está, no la encontraba. Porque el hombre no tiene naturaleza. El hombre no es su cuerpo,
que es una cosa; ni es su alma, psique, conciencia o espíritu, que es también una cosa. EI hambre no es cosa ninguna, sino un drama – su vida, un puro y universal acontecimiento que acontece a cada cual
y en que cada cual no es, a su vez, sino acontecimiento. Todas las
cosas, sean las que fueren, son ya
meras interpretaciones que se esfuerza
en dar lo que encuentra. El hombre no encuentra cosas, sino que las pone o supone. Lo que encuentra son puras dificultades y puras
facilidades para existir. El existir mismo no le es dado «hecho»
y regalado como a la piedra,
sino que –rizando el rizo que las primeras palabras de este
artículo inician, diremos– al
encontrarse con que
existe, al acontecerle
existir, lo único que encuentra
o le acontece es no tener más remedio que hacer algo para no dejar de
existir. Esto muestra que
el modo de ser de la vida
ni siquiera como simple existencia es ser ya, puesto que lo único que nos es dado y que hay cuando hay vida humana es tener que hacérsela, cada cual la suya. La vida es un gerundio
y no un participio: un faciendum y no un factum.
La vida es quehacer. La
vida, en efecto, da mucho que hacer”. Em conclusão: “En suma, que el
hombre no tiene naturaleza, sino que tiene...
historia. O, lo que es
igual: lo que la naturaleza es, a las cosas, es la historia –como
res gestae– al hombre. Una vez más tropezamos con la posible aplicación
de conceptos teológicos a la realidad
humana. Deus cui
hoc est natura quod fecerit..., dice San Agustín. Tampoco el hombre
tiene otra «naturaleza» que lo que ha hecho”. A citação final de Santo Agostinho não é ao acaso. O homem é
liberdade, portanto livre-arbítrio. A visão de Ortega, abstraindo-se da
questão religiosa é, nada mais nada menos, que a do
santo cristão, Agostinho que foi um dos artífices teóricos da aceitação da
tradição grega como patrimônio da civilização cristã. Aqui temos que
pensar um pouco mais o ponto de Ortega, especialmente sua recusa da tese da
natureza humana, que remonta aos tempos de Descartes. Essa recusa é a recusa
de toda a obra teórica de Hobbes e mesmo de Hume,
vale dizer, de toda a filosofia política escrita desde então. É a recusa
daquilo que se convencionou chamar de modernidade,
que se construiu a partir da negação da antropologia greco-cristã. Esses filósofos modernos ergueram
suas armas para atingir sobretudo a antropologia
aristotélica. Podemos ler em Hobbes, no LEVIATÃ, na sua ânsia de naturalizar
o homem como uma coisa como as demais, no índice do seu capítulo XLVI: “Das escolas dos judeus - As escolas dos gregos
são improfícuas - As escolas dos judeus são improfícuas - 0 que é a
Universidade - Erros introduzidos na religião pela metafísica de Aristóteles”.
Todo seu esforço é para reduzir o homem a uma coisa e, para
tanto, tem que negar a tradição e fundar uma outra,
a partir de suposto teóricos tomados no passado. Aqui me refiro ao irrealismo
da tese do contrato social, emprestada dos sofistas contemporâneos de Platão,
que suporta a imagem falsa de que o homem “natural” vive solitariamente,
antes que seja fundada a polis. Essa tese será expandida por Rousseau na sua
visão idílica do bom selvagem. E,
com ela, a pletora dos assim chamados direitos humanos, esse câncer que nasce
justamente da mentira dos direitos naturais inventados por Hobbes. É por isso que Hume escreverá, anos
depois, que “A fama de Cícero floresce
no presente, mas a de Aristóteles está completamente decadente.”(INVESTIGAÇÃO ACERCA DO ENTENDIMENTO HUMANO). Ora, não era
Aristóteles quem estava decadente, era o próprio Hume
(e Hobbes) que se tornaram a expressão viva da decadência da ciência política
na sua máxima amplitude. É de suma importância compreender esse salto antropológico que
se inicia no Renascimento, com a “naturalização” do homem, para se entender o
drama humano do século XX. A filosofia política inaugurada por Hobbes é a
porta de entrada na tragédia do totalitarismo, do qual vimos a pior face na primeira metade do século XX, o mesmo totalitarismo
que está a nos ameaçar no presente momento. Hobbes é o pai do historicismo e o seu triunfo no meio universitário foi a consagração do novo homem revolucionário, que tentará
agora, supostamente compreendida a natureza humana, fazer o seu
aperfeiçoamento pelo instrumento da política. Será o Estado, o deus mortal
sagrado por Hobbes, o demiurgo desse admirável mundo novo. Não mais a lei
natural, mas a lei como vontade do governante, o positivismo jurídico radical
que emergiu desde então. Leo Strauss escreverá sua obra precisamente a partir dessa
constatação e proporá o retorno ao direito natural aristotélico como antídoto
contra o mal que assolou o mundo desde o século XX: o totalitarismo. Sua obra
é a desconstrução de tudo que Hobbes escreveu. O texto de Ortega y Gasset é
brilhante por tudo, pela forma ─ como é saboroso ler os textos do
espanhol ─ mas sobretudo pelo conteúdo, pela
sumarização didática do problema. Não é por acaso que os acadêmicos
esquerdistas que dominam as universidades desprezam seus livros, pois compreendê-los
significa acordar da Segunda Realidade quixotesca em que estão metidos. Falar
de natureza humana nos termos de Hobbes e Hume não
passa de grosseira falsificação filosófica. |
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