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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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O DUPLO ERRO DE
FUKUYAMA 11 de
abril de 2009 A revista Veja trouxe,
nas páginas amarelas, uma entrevista de Francis Fukuyama,
o cientista político que arriscou certa vez afirmar, no celebrado livro O FIM
DA HISTÓRIA E O ÚLTIMO HOMEM, que o comunismo tinha acabado e que o mundo
caminhava para uma forma generalizada de economia liberal. O livro causou
impacto mundial, especialmente pelo momento, pois havia então pouco tempo que
o muro de Berlim ruíra e a própria União Soviética entrara em fase terminal. Chico Mendez,
seu entrevistador, perguntou-lhe: Quando o
senhor anunciou o fim da história, o império soviético acabara de ruir e a
globalização econômica começava a se tornar realidade. Hoje, vinte anos
depois, sua tese ainda fica de pé? Resposta: “Até
aquele momento era dado como um fato da vida pelos intelectuais de esquerda
que a história continuaria seu caminho evolutivo em direção à utopia
socialista. Para eles, a história só terminaria quando alguma forma de
socialismo ou de comunismo fosse atingida. Mostrei em O Fim da História que essa ideia de
progresso não tinha fundamento e que o mundo não trilharia o caminho previsto
pela ortodoxia esquerdista. Ocorria justamente o contrário. O mundo estava
evoluindo rumo à democracia liberal, e ela será o destino final. Ainda
acredito nisso. Só vou considerar que há alternativa viável à democracia
liberal se, no prazo de uma geração, o regime autoritário da China conseguir
mesmo levar o país a igualar o nível de desenvolvimento dos Estados Unidos e
da Europa. Acredito, porém, que esse objetivo não seja alcançável pelo atual
modelo chinês”. Como se vê, Fukuyama continua na sua
fé milenarista, que resumidamente é a fé de que há um sentido na história e de
que, a partir de sua análise, seria possível predizer o futuro. A velha fé
que tem em Hegel seu patrono. Os futurólogos comunistas só haviam errado no
ponto de encerramento, não na crença de que há um sentido da história.
Essencialmente a análise de Fukuyama não difere das
dos seus supostos adversários ideológicos. Quero aqui sublinhar que Fukuyama
não errou apenas ao predizer o fim da história numa espécie de acomodação à
democracia liberal capitalista. O autor padeceu – e continua a padecer, pelo
visto – da cegueira que tomou conta da intelligentizia
ocidental. Em primeiro lugar, Fukuyama ignora que
mesmo nos EUA vive-se em avançado estado de socialismo, que Peter Drucker,
agudo observador dos fatos norte-americanos, já detectara em meados dos anos
setenta. Desde então a experiência socialista norte-americana só tem se
aprofundado, seja na dimensão econômica, seja na dimensão jurídico-política.
Em segundo lugar, ignora que a crise atual é a expressão
acabada da agonia dessa expansão socialista no coração daquilo que um dia foi
o centro irradiador do liberalismo clássico. O paradoxal disso tudo é que Barack Obama, contrariando seu conhecido
slogan de campanha “Change”,
elegeu-se precisamente como o homem a quem a vasta classe média cliente do
Estado viu como aquele comprometido com o status quo.
Obama seria o salvador de seus privilégios, o
verdadeiro Sóter. A crise irrompeu porque a
estrutura econômica socialista é irracional e insustentável, mas as multidões
são impermeáveis aos apelos da razão e querem mais e mais bem-estar social. De
mais a mais, a classe política está desprovida de egrégios, de uma elite capaz de conduzir as multidões. Ela é
composta de legítimos representantes dos homens-massa. As multidões e seus
representantes depositam no poder de Estado a fé salvífica.
Por isso a crise não será superada enquanto não houver a completa destruição
das esperanças de que tudo se mantenha como antes, na fase ascendente do
ciclo inflacionário. A festa acabou. O que de fato se faz necessário é a restauração do Estado
mínimo, da desregulação, do triunfo da economia
liberal no sentido de Adam Smith. Isso só será feito na marra, em meio à
desordem da crise, em face da ameaça vital que pode advir da iniqüidade
econômica daquilo que Perter Drucker
chamou de socialismo-fundo-de-pensão. Além de se enganar quanto ao fato da suposta morte do
comunismo, que grassava velozmente nos EUA, Fukuyama
errou em não perceber que o duelo real não é entre essas formas de governos –
comunismo x democracia liberal –, mas entre o Estado gigante e o indivíduo. É
a velha luta que tem sido a crônica da história desde que Moisés libertou seu
povo do Faraó do Egito. Canaã é essa utopia da terra sem governo ou, se
quisermos atualizar, de um governo mínimo. Esse é o verdadeiro motor da
história. Sempre que a condição vital da liberdade é posta em risco vem a crise e o dedo de Deus aponta de novo o caminho da
libertação. . A cegueira de Fukuyama fica patente
na pergunta seguinte: O que o capitalismo e a democracia liberal precisam
fazer para sobreviver à atual crise? Resposta: “Precisamos, urgentemente, de maior controle sobre o sistema
financeiro, que está completamente desregulamentado. Acredito, também, que o
estado mínimo não funcionou. A partir de agora veremos uma presença bem maior
do estado na economia. Ou seja: será uma economia mais de estado e menos de
mercado”. Ora,
se a tragédia dos tempos advém do excesso do Estado, não será pelo seu
agigantamento regulatório que o problema vai se resolver. A lógica leva
precisamente ao raciocínio em contrário. Esse Fukuyama
é tido como um expoente da direita política. Engano, pois não passa de um
advogado do Estado gigante. É um companheiro de viagem das mentiras
comunistas. Não é um autor a ser levado a sério. |
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