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NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado |
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O DUELO DE EXPLICAÇÕES 10 de março 2009 Há um franco
debate entre as duas correntes alternativas de pensamento para a compreensão
da crise atual. Entenda, caro leitor, que o ato de
compreender o real antecede o ato de tomada de decisão para agir sobre a
realidade, fato notavelmente superlativo em tempos de crise. De um lado a ala
esquerda, que tem na figura de Paul Krugman o seu
emblema, que entende que a presente crise se deve às falhas intrínsecas do
mercado, tendo havido a um só tempo omissão e
timidez dos governos para prevenir a crise. Vão além: dizem que só é possível
superá-la com a ação vigorosa do Estado, seja na política monetária, para
restabelecer o crédito, seja nos gastos governamentais, a fim de criar demanda. A essa ala
esquerda alinham-se também os economistas da vertente do liberalismo de
Friedman, que aceitaram o suposto lado “bom” das teorias de Keynes. O
denominador comum dessa gente é que a ação do Estado é necessária e
suficiente para a superação dos problemas. De fato, acreditam na reengenharia
humana a partir do Estado. Há aqui uma
fé escancarada na capacidade do Estado gerenciar os problemas humanos,
sobretudo aqueles ligados à economia. Seu remédio recomenda o agigantamento
da ação estatal, embora no caso dos liberais consequencialistas
essa ação seja, ao menos teoricamente,
temporária e reversível. A história mostra que isso nunca houve, a reversão
do crescimento do Estado, quando este se agigantou a qualquer pretexto, na
guerra como na paz. Do outro
lado temos os economistas que se alinham em torno do liberalismo clássico e
da chamada Escola Austríaca, que entre nós tem seu emblema na pessoa do
economista carioca Ubiratan Iorio. Esses
economistas atribuem a crise não a falhas de mercado, mas a falhas de
governo, que exorbitou de suas funções, que desorientou a alocação de
recursos, que emitiu moeda em demasia, que se endividou além da conta, que
gastou muito e mal. Além disso, a história do século XX foi a história do esparramo do Estado por áreas novas, como
Educação, Saúde, Habitação e Previdência, de sorte que essas áreas não apenas
demandaram enormes quantidades de recursos, mas tornaram-se elas próprias a
raiz da crise. Toda a gente
sabe que o nó central da crise não reside no sistema bancário, que caminha
para bancarrota em muitos países. O nó principal é o sistema de Previdência Social,
seja na forma estatizada, seja na forma de fundos de
pensão, estes que sempre mantêm um elo com o poder emissor e taxador do
Estado. A persistência do governo norte-americano, por exemplo, de preservar
a AIG está ligada diretamente aos fortes elos que a seguradora mantém, não
apenas com o sistema bancário, mas com as garantias últimas que deu aos
ativos dos ricos e generosos fundos de pensão norte-americanos. A quebra
dessa seguradora será a realização instantânea de gigantescos prejuízos na
carteira de ativos desses fundos, levando o sistema inteiro à derrocada. A capacidade
de esses fundos honrarem seus compromissos previdenciários de longo prazo
está fortemente afetada. Muita gente perderá a sua aposentadoria por causa da
insustentabilidade atuarial dos fundos e da má
qualidade dos seus ativos. Essa segunda
linha de pensamento recomenda a receita em contrário: o reencontro da
economia natural, a privatização de tudo, a começar pelas perdas dos valores
dos ativos, a preservação do bem maior, que é o valor da moeda, a saída do
Estado de áreas que não são da sua competência, inclusive as quatro acima nominadas. Eu vou além: digo que não acontecerá de
outra forma. Essa crise veio para fazer o rio retornar a seu leito. Ela não
será superada se o Estado não regredir. A pena por retardar esse processo
será prolongá-lo indefinidamente sem superá-lo. O desastre
político é que não há estadistas à altura da tarefa. Será preciso que alguém diga às massas, clientes do Estado, que a festa acabou
e que todos terão que cumprir o mandamento bíblico de comer o pão como
o suor de seu rosto. Então os beneficiários de rendas do Estado –
funcionários públicos, aposentados, rentistas
portadores de títulos da dívida pública, fornecedores e toda sorte de
parasitas – terão que se conformar com o empobrecimento abrupto, em escala
mundial, inclusive no Brasil. Certamente não acontecerá algo assim sem uma
profunda catarse coletiva, que pode se traduzir em movimentos de violência.
Terá que ser feito, todavia. O debate até
agora foi politicamente vencido pela ala esquerda, que tomou o poder nos EUA
e na maioria dos países do mundo, inclusive no Brasil. O presidente Barack Obama é o filho
primogênito da crise. O problema é que sua receita é puramente ideológica e,
como tal, parte de uma falsa explicação da realidade. Quanto mais os
governantes esquerdistas agirem, isto é, quanto mais emitirem moeda, alavancarem a dívida pública e elevarem os gastos do Estado, mais
a situação econômica será agravada. Desagradar as
massas acontecerá da mesma forma, só que pela mão da esquerda política será
usada via torta da desordem, com inflação e interrupção do comércio mundial.
É possível imaginar um cenário bastante catastrófico, do ponto de vista não
apenas econômico, mas também político, se esses governos persistirem no uso
dessa receita. A crença no
poder miraculoso da ação estatal é tão grande que mesmo o finado governo Bush
adotou a via estatista de superação da crise,
fazendo projetos de bailout para vários setores e estatizando de vez as
financiadoras Fannie Mae e Freddie
Mac, operadoras do mercado imobiliário secundário. Serão talvez os maiores
depositários de ativos “tóxicos” do planeta, cujo valor está estimado em US$
6 trilhões. A direita norte-americana agiu apenas no nível de discurso, não
na implantação de políticas públicas. Na prática a via proposta pela esquerda
tem sido a única política econômica de fato posta em ação. Nunca houve
outras. Mesmo a
chamada Reaganomics, a economia do lado da oferta,
contentou-se na redução de alguns impostos. O gasto estatal jamais foi
reduzido. A crise, portanto, tem sigo gerada por gerações seguidas de
governantes irresponsáveis e aclodiu nesse momento pelo simples fato de que levaram a
experiência do gigantismo do Estado ao paroxismo. Vivemos a Era do Estado
Total. Meu caro
leitor, você deve se preparar. O mundo não escapará da forte purgação, o
Brasil inclusive. O artificialismo econômico vivido nas últimas décadas não
retornará jamais. Haverá sangue, suor e lágrimas. |
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