NIVALDO CORDEIRO: um espectador engajado

 

 

 

 

 

 

 

O DOUTOR FAUSTO DE THOMAS MANN V

03/11/2011

 

 

Algumas características de Adrian Leverkuün, ao longo da narrativa, vão acentuando o modelo tomado de Nietzsche. O riso sardônico e a cefaléia que perseguiu o filósofo vida a fora são duas de suas características. A presença pedagógica do professor Ritchl na vida de Nietzsche é celebrada pelo do enigmático Kretzschmar, que conduz o personagem para a Universidade de Leipzig, para cursar Música.

 

No capítulo XV foram inseridos excerto da correspondência entre mestre e aluno, ocasião que determinou o abandono da escola de Teologia e a escolha do curso de Música. Podemos ler em uma das cartas: “O senhor acha que tenho vocação para a Arte e me dá a entender que o desvio que me conduziria até ela nem sequer seria muito grande. Meu luteranismo concorda com isso, já que reputa a Teologia e a Música esferas vizinhas, muito afins, e para mim, pessoalmente, a Música sempre tem representado uma combinação mágica entre a Teologia  e a tão divertida Matemática. Item, ela se aproxima muito das experiências de laboratório e das insistentes atividades dos alquimistas e dos nigromantes de um outrora, que igualmente vivia sob o signo da Teologia, mas, ao mesmo tempo sob o da emancipação e da apostasia, não da fé, o que seria simplesmente impossível, e sim dentro da fé; apostasia é um ato de fé, e tudo existe, tudo se realiza em Deus, especialmente a deserção que nos fala dEle”.

 

O grande apóstata é Satã. O trecho da carta é uma espécie de manifesto esteticista, com o resplandecer da gnose tão própria daquela escola filosófica, da qual Nietzsche foi o apogeu. A dualidade suposta de Deus, com o mal operando como se emanasse do ente divino, é a sua tese mais cara, o mal como motor da história. A filosofia desse tempo é esse misturar do bem e do mal. Para além do bem e do mal, diria Nietzsche. O maior crente em Deus é o próprio Diabo, como bem está relatado na obra de Goethe. O Diabo é o ente que mais entende das Escrituras.

 

Prossegue Leverkhün em resposta a Kretzschmar: “Vós, amigo Alberto Magno, havereis de enfronhar-me na teoria arcana, e seguramento – sinto-o, sei disso de antemão – não serei um adepto inteiramente bronco. Captarei todos os truques e expedientes, e com grande facilidade, porque meu intelecto vai ao seu encontro. O solo está preparado para eles e já abriga em si certos germes. Hei de enobrecer a prima matéria, acrescentando a ela o magisterium, e para purificar a substância, pelo espírito e pelo fogo, farei com que ela atravesse muitos alambiques e retortas. Que ocupação magnífica! Não conheço outra mais fascinante, mais secreta,mais elevada, mais profunda, mais valiosa, nenhuma que necessite de menos eloqüência persuasiva para conquistar-me.”

 

Com muita felicidade Thomas Mann utiliza aqui a rebuscada linguagem esotérica, que nos nossos dias está tão vulgarmente divulgada. Aqui a ânsia do indivíduo moderno para sobrepujar o Criador, tornando-se ele mesmo capaz de criar. É a arrogância intelectual que foi iniciada como movimento de massa a partir da Reforma. A tentação mefistofélica é precisamente essa, a de anular o primeiro mandamento, de amar a Deus sobre todas as coisas, substituindo-se ao criador. Não ao acaso Leverkhün refere-se ao artista (ao que domina a Arte) como aquele que copula com as massas, que a possui. Era o que se via na Alemanha. Anular o primeiro mandamento equivale automaticamente a anular o segundo, de amar ao próximo como a si mesmo. É a receita certeira para o genocídio. A alusão ao ”meu luteranismo” sublinha que Thomas Mann não descuida da origem primeira da tragédia moderna, da tragédia alemã: a Reforma.

 

No capítulo seguinte (XVI) foi inserida a carta de Leverkhün ao narrador, utilizando uma estranha linguagem renascentista, para comunicar seu passeio inaugural por Leipzig. Aqui está a gênese do pacto faustico, selado com o intercurso sexual com Esmeralda em um prostíbulo. Ao final do livro teremos os detalhes dessa saga, mas aqui importa notar que a entrega da alma ao Diabo é a condição para o artista dominar a Arte e alcançar seus delírios de grandeza. A presença do cicerone misterioso é marcante, aquele que leva Leverkhün ao seu destino. É pelo intercurso com Esmeralda que Leverkhün/Nietzsche recebe o germe criador, a sífilis, que o atormentará por toda a vida.

 

Leverkhün faz duas tentativas para se curar do mal. A primeira resulta na súbita morte do médico; a segunda na prisão. Descobriu que não mais poderia voltar atrás, que ninguém poderia curá-lo. Quantas vezes tentasse se livrar dos germes, que representavam seu pacto com o Diabo, tantas seriam as tragédias com os possíveis curadores. Estava condenado ao mal físico, assim como ao espiritual. Nada tinha a fazer que não ir em busca do seu destino trágico.

 

(Continua)